Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Leucemia: Boldrini em busca da cura

Publicado em 14 julho 2008

Na área de saúde, Campinas é referencial com o trabalho desenvolvido no centro infantil que devolve esperanças a milhares

Na área da saúde, Campinas tem um dos mais respeitados e desenvolvidos centros de pesquisa e tratamento do câncer do mundo: o Centro Infantil Domingos Boldrini, localizado no distrito de Barão Geraldo. Com 30 anos de história, o hospital foi fundado pela médica Sílvia Brandalise, que é a presidente da instituição e uma das principais referências no assunto na América Latina. Além de atender crianças e adolescentes do País todo, em atendimentos por meio de convênios e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Boldrini também já desenvolveu importantes pesquisas científicas que representam avanço no tratamento e na prevenção da doença.

No que diz respeito à pesquisa, o Boldrini possui projetos em andamento, principalmente centrados na área da leucemia, com foco na identificação dos genes causadores da doença e na terapia. Um dos mais recentes levantamentos foi a criação de um protocolo nacional para o tratamento da leucemia linfóide aguda (LLA), que permite identificar com mais precisão os pacientes com alto risco de recaída da doença e aumenta a eficácia dos métodos de tratamento.

A tecnologia, já utilizada em grandes centros norte-americanos e europeus, foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar coordenada pelo pesquisador José Andres Yunes, e incorpora novas técnicas de biologia molecular para o estudo da chamada Doença Residual Mínima (DRM).

“Os estudos mostram a importância de aumentar a sensibilização dos exames para diagnósticos mais precisos, com a detecção de quantidades mínimas de células leucêmicas”, explica Sílvia. Segundo a médica, o número de casos de câncer infantil varia entre 10 e 15 para cada grupo de 100 mil crianças e adolescentes com menos de 15 anos de idade. De todos esses casos, 30% são de LLA.

De acordo com levantamento do grupo, apesar dos ótimos resultados alcançados pelos centros de referência no tratamento do câncer infantil, em média, 25% das crianças e adolescentes com LLA têm recaída da doença após o tratamento.

Yunes explica que a nova técnica alcança alta sensibilidade, a ponto de detectar uma célula cancerosa entre 100 mil células normais. “Isso é quase como encontrar uma agulha num palheiro”, compara. Assim, é possível fazer o diagnóstico de DRM (quando existem células cancerosas em quantidade não visível ao microscópio) com 28 dias de tratamento. “Se isso ocorre é sinal que o paciente tem mais chances de sofrer recaída da doença”, completa. O diagnóstico pode direcionar outras medidas terapêuticas. Além de exames periódicos mais freqüentes, esses pacientes são classificados como de alto risco e, portanto, candidatos a terapias alternativas como quimioterapia mais agressiva ou transplante de medula óssea (TMO). Outra vantagem apontada pelo pesquisador, é que nova técnica também identifica pacientes que apresentam boa resposta logo no início do tratamento.

Parcerias internacionais ampliam área de atuação

O Boldrini se destaca também pelas importantes parcerias que têm realizado ao longo de 30 anos de existência. As últimas quatro envolveram instituições internacionais. Uma delas foi firmada com a Organização Mundial de Saúde (OMS), para o desenvolvimento de dois projetos: um relacionado ao meio ambiente e câncer da criança e outro sobre políticas de atenção ao doente falcêmico.

Uma outra parceria foi feita com o Children’s Oncology Group (COG) para o desenvolvimento de protocolos em pacientes com câncer na glândula supra-renal, doença que no Brasil tem prevalência maior do que em outros países. O terceiro convênio foi firmado com o Hospital de Especialidades Pediátricas, em Maracaibo, na Venezuela, para a capacitação de profissionais nas especialidades de hemato e oncologia pediátrica. Há um intercâmbio de médicos entre as instituições.

O Boldrini firmou ainda parceria com o Grupo Berlim-Franfurt e Munster (BFM), para, juntas, as instituições pesquisarem um novo protocolo de tratamento da Leucemia Promielocítica Aguda (LPA). Para este ano, está prevista atuação junto ao Nacional Cancer Institute (NCI), dos EUA, relacionada à epidemiologia, controle e prevenção do câncer de cólon.

Em 30 anos, mais de 23 mil atendidos do País e Exterior

Em 30 anos de existência, o Boldrini já atendeu cerca de 23.350 pacientes vindos de diversos estados do Brasil e até de países da América Latina, Rússia, Estados Unidos e Japão. A importância do hospital pode ser verificada pela grandiosidade de seus números. Lá trabalham 563 profissionais, entre funcionários e prestadores de serviços, além de outros 500 voluntários. Já foram realizados cerca de 150 transplantes de medula óssea e 541 tratamentos de radioterapia. O custo mensal para manter o hospital em funcionamento é de R$ 2,4 milhões. De todos os quase 5 mil atendimentos mensais, 80% são feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

SAIBA MAIS

O estudo, de dois anos, envolveu equipe multicêntrica, com profissionais do Centro Boldrini, Universidade São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, e Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e teve apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Foram analisados no período, 100 casos em retrospectiva (pacientes já tratados) usando amostras congeladas; e outros 60 em estudo prospectivo (durante o tratamento).