Notícia

Carta na Escola

Lentes focadas na história

Publicado em 01 fevereiro 2010

Por Maurício Cardoso - Prof. do Depto de História da USP

Antes desprezada pelos historiadores, a imagem fotográfica ganhou dimensão documental e presença cotidiana em nossas vidas

A imagem fotográfica captura, no mundo contemporâneo, uma infinidade assombrosa de situações, indivíduos e lugares, graças à sua vertiginosa popularização e ao aparato técnico que lhe permite registrar praticamente tudo: um fungo microscópico, o felino mais veloz, a cena mais indiscreta. A fotografia está nas revistas e semanários que proliferam nas bancas de jornal, nas embalagens dos produtos de supermercado, nos álbuns de família empoeirados sob os guarda-roupas, nos artigos científicos, nas pesquisas espaciais, na medicina e até nas evidências de um crime.

De certo modo, a proliferação e o assédio frequente do instante fotográfico nos deixaram insensíveis à sua magia, mas convictos de sua força de realidade: a foto digital cumpre, nos eventos banais e nas cerimônias, o papel de um documentalista; ela confere legitimidade ao fato e o imortaliza, legando, para a posteridade incerta, uma infinidade de bytes armazenados nas pastas dos nossos computadores.

Por outro lado, desconfiamos de nossas possibilidades de interpretação da imagem, especialmente quando comparadas Espanha, Barricada de republicanos em Barcelona, em julho de 1936. Guerra civil foi intensamente documentada com a objetividade de um registro escrito. Diante de uma foto, por exemplo, um retrato posado de uma família do fim do século XIX, o que podemos efetivamente conhecer? Que informações extraímos para além das aparências, sempre ambíguas, livre à interpretação e abertas à subjetividade do observador?

A história da produção de significados sobre o ato fotográfico explica, em parte, os desacertos e as convergências entre o registro e o mundo real. Neste longo percurso, podemos ainda refletir sobre as ferramentas de interpretação que nos auxiliam a decifrar os códigos da imagem fotográfica.

EFEITO PERTURBADOR DE REALIDADE

A fotografia surgiu, na década de 1830, como resultado de diferentes experiências que procuravam fixar, num suporte material, as imagens obtidas pela câmera escura, que não eram reprodutíveis. No clima de transformações tecnológicas e sociais da Revolução Industrial, a criação da fotografia foi um fenômeno ao mesmo tempo técnico, científico e artístico, provocando uma nova imagem do mundo e do ser humano. A fotografia tornou o mundo mais "familiar" e inaugurou um "novo método de aprendizagem do real", segundo o historiador Bóris Kossoy.

No entanto, ela apareceu como atrativo das feiras europeias, onde a magia e o invento técnico misturavam-se para provocar espanto, confundindo mais que esclarecendo o espectador atônito diante de um mundo que dava os primeiros sinais de uma inédita aceleração do tempo. Logo surgiram artistas que dominaram a nova invenção, cresceu o interesse das elites pelo registro fotográfico e inúmeros estúdios nasceram para responder ao mais popular dos usos da fotografia: o retrato. Nele, as camadas médias urbanas acreditavam ser possível imortalizar suas imagens, em misturas improváveis de ambientes falsos (de colunas gregas a florestas tropicais), roupas de aluguel e poses ridiculamente aristocráticas.

Desde o início, estabeleceram-se acalorados debates sobre os usos e funções da fotografia, sobre seu caráter artístico e seu papel social. Muitos artistas naturalistas (ou ligados ao academicismo) consideravam que a fotografia substituiria a pintura, tal era a crença na objetividade do novo equipamento para copiar o real; os impressionistas, por outro lado, encontraram na fotografia uma aliada, pois ela os afastaria definitivamente da responsabilidade estética de reproduzir o mundo concreto.

O assunto não era irrelevante se imaginarmos que o desenvolvimento da máquina fotográfica portátil foi simultâneo à ascensão da pintura impressionista e à crise definitiva da arte acadêmica e do realismo. Eric Gombrich, eminente historiador da arte, sustenta que esta sincronia estética valorizou definitivamente a busca pela cena fortuita (cotidiana, banal e singela) e pelo ângulo inusitado, captados tanto pelos impressionistas quanto pelo clique da câmera.

Não demorou para que a fotografia também se tornasse uma ferramenta imprescindível no vasto aparato de controle social que se consolidou em meados do século XIX. A imagem fotográfica integrou-se, no início do século XX, à confecção de carteiras de identidade, passaportes e aos mais diversos registros e formas de monitoramento da população civil.

Polêmica e multifacetada, a história da fotografia revela ainda uma lenta aproximação com as Ciências Humanas. Marcadas pela tradição escrita, a História e a Sociologia cultivaram, durante décadas, um desprezo quase completo pela fotografia. Desde os anos 1970, no entanto, novas pesquisas abriram caminhos teóricos e metodologias que desbravaram os significados mais complexos da imagem fotográfica. Os trabalhos de Susan Sontag, Sobre Fotografia (publicado em 1977) e de Roland Barthes, A Câmara Ciam (1980), redimensionaram o sentido social e a própria natureza da fotografia. Desde então, muito tem sido escrito sobre o assunto.

Boa parte desta conversa sobre o "estatuto" da fotografia coloca no centro do debate a relação entre a imagem e o mundo real. Afinal, perguntam os teóricos de variadas estirpes, o que a fotografia revela, o que oculta, como representa o real, quais seus limites? E, ainda, por que a foto (como a imagem cinematográfica) provoca um perturbador efeito de realidade?

VESTÍGIO DO MUNDO REAL

O registro fotográfico possui, por suas características técnicas, um tipo de "evidência" do mundo real rapidamente incorporada aos padrões de percepção social: uma foto configura prova, por vezes irrefutável, da existência de determinado evento. A historiadora Ana Maria Mauad afirma, inclusive, que a fotografia é um testemunho capaz de registrar na superfície sensível uma realidade dada. Por isso é preciso compreendê-la como vestígio, não como reprodução do mundo real. No entanto, ela é efetivamente uma referência a determinada realidade, captada a partir de uma interferência técnica (a máquina fotográfica) e humana (as escolhas, os gostos e os interesses do fotógrafo e do fotografado). Esse olhar interpretativo nos conduz a uma rede de significados que se constitui a partir do ato fotográfico. Em outras palavras, a fotografia é uma linguagem e, como tal, necessita de instrumentos para ser decodificada e compreendida; poderíamos dizer que é necessário uma "alfabetização para as mensagens visuais".

Tomemos um exemplo simples: uma foto de casamento. Não conhecemos pessoalmente os noivos nem o fotógrafo; no entanto, somos capazes de extrair inúmeras informações da foto, graças a práticas culturais mais ou menos recorrentes em nossa sociedade: a cerimônia religiosa, a empresa de eventos contratada para fazer o álbum de casamento, a alegria dos noivos e seus parentes, o sentido social do evento, alguma estabilidade e, é possível, alguma ascensão social.

Entretanto, não é toda foto que se expõe assim tão livremente ao crivo analítico do espectador. A análise fotográfica deve levar em conta três elementos constitutivos: o autor, o leitor e a imagem, cuja interação específica produz significados sociais compartilhados.

O autor é, comumente, o fotógrafo, embora possa ser identificado simplesmente a uma produtora de eventos, uma agência de fotografia, uma empresa de publicidade; ele pode representar ainda uma "categoria social": fotógrafo amador, profissional autônomo, jornalista ou funcionário do Estado. Nem sempre a autoria expressa criatividade e uma "assinatura", mas determinados interesses, e se constitui a partir de certos domínios técnicos e culturais historicamente retrabalhados. O autor está sujeito, portanto, a limitações que podem, muitas vezes, contrariar seus objetivos iniciais ou obrigá-lo a mudanças no recorte fotográfico; entre a intenção e a materialização da imagem surgem mediações e escolhas que selecionam o que e como uma situação será registrada.

RELAÇÃO PASSADO-PRESENTE

O leitor da fotografia estabelece significados para o quadro, graças a certas competências culturais à sua disposição. A fotografia é um fragmento congelado da vida, uma interrupção de um instante pretérito. Logo, ela resulta numa "realidade segunda", diferente da primeira, cujas multiplicidade e simultaneidade de eventos, desejos, intenções, conflitos perderam-se nas memórias dos que viveram. Cabe, portanto, ao leitor dois níveis complementares de decodificação: um nível interno, originário da composição espacial do quadro, do "texto não verbal", identificando pessoas, objetos e relações; um nível externo ao quadro, produzindo aproximações com outros textos (verbais e não verbais) sobre aquele tempo e espaço fotografados.

E o observador que produz um sentido, atento à relação passado-presente. Sempre um sentido novo e diverso daquele estabelecido pelos contemporâneos da imagem. Esta é a competência de quem analisa as imagens: propor um problema e apontar caminhos de interpretação.

Finalmente, a análise da fotografia deve percorrer dois caminhos: a expressão formal (resultado de escolhas técnicas e estéticas, como os enquadramentos, a iluminação, a definição do quadro, contraste, os vários planos) e o conteúdo, isto é, o conjunto de pessoas, objetos e interações presentes no quadro. Além disso, a interpretação leva em conta não apenas o que se vê, mas o não visível, para além da moldura do quadro fotográfico, revelando, assim, as articulações entre o conteúdo interno e o mundo material, externo à fotografia.

Fotografias da Revolução Cubana

Realize com os alunos um exercício de interpretação de três fotografias sobre a Revolução Cubana

O trabalho com fotografias em sala de aula torna-se mais instigante quando professor(a) e alunos(as) realizam um exercício conjunto de interpretação, transformando as fotos em documentos de urna época. A análise histórica da imagem fotográfica carece, porém, de fontes documentais ou de informações escritas sobre o período ou o tema trabalhado. As atividades abaixo, portanto, foram sugeridas levando-se em conta que o conteúdo sobre a Revolução Cubana tenha sido discutido em sala. Também seria oportuno reproduzir o material fotográfico através de um projetor de multimídia ou da confecção de cópias em papel para distribuir pela classe.

Foto 1: Santa Clara, 1959

Peça aos alunos para descreverem oralmente a imagem abaixo, solicitando que apontem todos os detalhes possíveis. Incentive-os também a interpretar a "atmosfera" de vitória e comemoração nítida nos gestos dos revolucionários sobre o tanque e em alguns moradores da cidade, no canto esquerdo da foto. Também é possível sugerir que nem todos estão comemorando, como se pode notar pelas expressões atônitas ou simplesmente curiosas de alguns observadores que olham diretamente para a câmera no instante do registro fotográfico. Finalmente, solicite aos alunos que identifiquem os logotipos espalhados na parte superior da foto: quais eles conhecem e lhes parecem familiares, quais seriam marcas locais ou nacionais e quais seriam símbolos de empresas multinacionais. A partir dessa análise, retome a reflexão sobre o caráter nacionalista e anti-imperialista dos primórdios da Revolução Cubana. Esta foto expõe, ainda que não fosse intenção do autor, as tensões que eclodiriam entre o novo governo de Fidel Castro e as empresas multinacionais em Cuba, como a Firestone e a Esso.

2: Baía dos Porcos, 1961

Nesta atividade, a legenda e as informações sobre os acontecimentos relacionados à Baia dos Porcos são imprescindíveis para a interpretação mais ampla do conteúdo da imagem fotográfica reproduzida ao lado. Solicite aos alunos que pesquisem ou façam a leitura de textos específicos sobre o episódio e, posteriormente, realizem uma interpretação desta fotografia, tendo em vista três aspectos formais: qual a atmosfera desse instante fotográfico, como a tropa miliciana está organizada e que tipo de armamento militar pode ser identificado. Com base nesta reflexão, certas características do evento ("Baía dos Porcos") podem ser destacadas: em primeiro lugar, a ação militar conduzida pelo "povo", isto é, por milicianos e não pelo exército regular (visto que boa parte dos militares tinha ligações com o governo deposto de Fulgêncio Batista); em segundo, a força de unificação nacional que moveu os combatentes a enfrentar e vencer um inimigo mais poderoso e preparado - contrastando com homens armados apenas de fuzis e metralhadoras; finalmente, a foto posada também revela um indício do papel histórico que a Baía dos Porcos teria na construção mítica da Revolução: nos gestos e nos semblantes, os soldados não parecem que se dirigem para a morte, mas para a vitória contra o imperialismo; essa espécie de certeza revolucionária, captada no entusiasmo quase ingênuo daqueles homens, tornou-se elemento imprescindível ao discurso que se construiu posteriormente.

3:O dose de Che Guevara

A imagem de Che na foto ao lado é uma das mais conhecidas e difundidas imagens da segunda metade do século XX; ela não se relaciona mais a um acontecimento ou ato, mas à própria figura mítica do revolucionário. Ao apresentá-la aos alunos, pode-se começar a atividade refletindo sobre quem foi Che Guevara (o que . os alunos sabem sobre ele) e sobre a própria fotografia (como está representado no ato fotográfico). É importante que os alunos compreendam que a construção formal da imagem carrega os elementos que contribuíram para mitificar o personagem: o rosto que ocupa praticamente todo o quadro; o olhar altivo, como se vislumbrasse o futuro; o semblante sério, convicto e sereno; o detalhe da roupa cerimonial e da boina com a estrela da bandeira cubana e, finalmente, a própria textura da foto, cujo branco em torno de sua cabeça se assemelha a uma aura que o retira de um tempo e de um espaço definidos e o imortaliza. A partir dessas primeiras impressões, os alunos podem pesquisar a biografia do autor da foto e a circulação dessa imagem, investigando em que situações ela foi reproduzida (em sites, blogs, camisetas, broches), tatuada em personalidades e homens comuns, apropriada por partidos políticos e movimentos sociais etc. Com o resultado da pesquisa, cada aluno pode escrever uma texto dissertativo respondendo à seguinte questão: a imagem de Che Guevara tornou-se um símbolo de consumo ou ela mantém um forte apelo revolucionário?

Livros

BENJAMIM, Walter. Pequena História da Fotografia, in: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas, vol. 1.7a ed. Brasiliense: São Paulo, 1994.

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. 7a ed. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000.

GOMBRICH, Eric H. História da Arte. Guanabara: Rio de Janeiro. 1988.

KOSSOY, Bóris. Fotografia e História. 3a ed. Ateliê Editorial:

São Paulo, 2001.

LEITE, Miriam L. M. Retratos de Família. Leitura da Fotografia Histórica. Edusp/Fapesp: São Paulo, 1990.

MAUAD, Ana Maria. Através da Imagem: Fotografia e história -interfaces. In: Tempo. Revista do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, RJ 1(2): 73-98,1996.

SONTAG.Susan. Sobre Fotografia. Companhia das Letras: São Paulo, 2004.