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Leismaniose Visceral Canina: Um alerta para a saúde pública

Publicado em 01 abril 2009

A leishmaniose traz como sua forma mais grave a leishmaniose visceral canina (LVC), popularmente conhecida como calazar, uma zoonose grave e pouco conhecida entre os proprietários de animais de estimação. É uma doença crônica, infecciosa, que ataca o fígado e o baço, provocando acessos irregulares de febre e perda de peso e que tem como vetor o mosquito palha, também chamado de birigui ou tatuquira.

De acordo com o médico veterinário e gerente do produto Leish-Tec da Hertape Calier Saúde Animal, Dr. Vinicius Junqueira Hermont, a leishmaniose visceral é a segunda principal doença causada por protozoário, perdendo somente para a malária em número de casos e é considerada a quinta maior endemia mundial. "Nos seres humanos, o desenvolvimento da doença está intimamente relacionado ao sistema imune do indivíduo, diferente dos animais. Normalmente crianças, idosos e pacientes com outras doenças que afetam o sistema de defesa do organismo estão mais susceptíveis a desenvolverem sintomatologia clínica da doença e consequentemente virem a ficar doentes", explica Dr. Vinicius.

O cão é considerado o principal hospedeiro urbano e uma questão muito discutida entre os profissionais de saúde é a eutanásia do animal positivo. O tratamento pode apresentar bons resultados se executado corretamente e  a doença for diagnosticada a tempo. "Sou a favor da eutanásia como medida de controle dos cães que não podem ser tratados e apresentam um estágio avançado da doença, mas sou radicalmente contra a eutanásia indiscriminada dos cães soropositivos como medida isolada de controle, levando em consideração que muitos desses  animais se encaixam dentro dos prérequisitos de tratamento e poderiam estar vivendo sem oferecer risco nenhum à sociedade", observa Dr. Vinicius.

Recentemente a cidade de São Borja, localizada no oeste do Rio Grande do Sul, foi atingida por um surto de leishmaniose. Até a primeira semana de abril foram confirmados 87 casos positivos em cães e em 4 humanos. A médica veterinária e diretora da Vigilância Sanitária de São Borja, Janaína Leivas informou que foram realizados os testes  ELISA e RIFI, sendo que o segundo confirma os cães sororreagentes ao primeiro. Segundo ela, o Ministério da Saúde cedeu os kits diagnósticos.

"Estamos adotando uma campanha de conscientização da população para que limpem seus pátios e que sejam responsáveis pelo seu cão. A Prefeitura está organizando um sistema de mutirão  e limpeza por bairros, envolvendo várias secretarias, escolas e a própria população. Estão sendo realizadas palestras nos bairros e escolas, elaboramos folders explicativos sobre a doença. Além disso, estamos fazendo censo canino, um levantamento sobre a situação dos imóveis, e separando a cidade por estratos para realizar o trabalho de manejo ambiental e controle químico", explica Janaína.

Existe tratamento para os humanos, porém para os cães é proibido porque uma vez portador do protozoário, será portador a vida toda. "A única medida a ser adotada segundo o Ministério da Saúde é o sacrifício do cão, pois não existe tratamento, e ele fica portador do protozoário para o resto da vida", comenta a diretora Janaina. Em relação ao tratamento, Dr. Vinicius diz que existem alguns trabalhos científicos comprovando certa eficácia de determinados fármacos. "Com esses tratamentos, conseguimos reduzir a carga parasitária (números de leishmânias circulantes no organismo), reverter um quadro clínico desfavorável e sobretudo contribuir com a vida deste cão, possibilitando que ele viva por mais tempo com uma condição clínica adequada. Vale ressaltar que existem alguns pré-requisitos para que seja possível o tratamento, como por exemplo a idade do animal, condição clínica e física, perfeitas condições dos órgãos vitais, estágio atual da doença, entre outras. Trata-se de um processo complexo, desgastante para o cão e precisa ser cumprido rigorosamente", destaca Dr. Vinicius.

Segundo ele, o cão precisará tomar medicamentos por toda a vida e ter o acompanhamento periódico de um médico veterinário para a realização de alguns exames laboratoriais, atestando a boa saúde e eficácia do tratamento. "Conseguimos eliminar os parasitas circulantes na pele do animal e consequentemente eliminar a possibilidade de transmissão para o inseto vetor, mas o parasita consegue se alojar em determinados órgãos podendo se multiplicar e se espalhar novamente por todo o corpo em determinadas condições, como por exemplo doenças concomitantes, situações de estresse, imunossupressão, entre outras. É necessário avaliar um conjunto de questões que nos permita tomar a decisão correta para cada caso diagnosticado".

Prevenção

Todas as raças de cães são susceptíveis a leishmaniose viceral canina, exceto a raça Ibizan Hound, segundo o gerente técnico de pet da Intervet/Schering- Plough, Andrei Nascimento. "Todas as raças de cães podem ser acometidas igualmente, com exceção dos cães da raça Ibizan Hound que desenvolvem uma resposta imunológica diferente (do tipo celular), que consegue combater a doença e evitar a infecção".

Os cães portadores da doença não devem ser vacinados, conforme orientação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Com isso, é necessário que seja realizado um exame sorológico para certificar que o animal não é portador da doença antes de vaciná-lo. "As vacinas não são indicadas pelo Ministério da Saúde, pois não existem até o momento trabalhos que comprovem que a vacinação de cães terá impacto na diminuição da incidência humana", diz Andrei. E completa: "As empresas fabricantes das vacinas não recomendam, pelo menos em bula, o uso para tratamento".

Já para o Dr. Vinicius, a prevenção é a mais importante estratégia de controle. "A identificação e tratamento dos casos humanos, controle dos reservatórios do parasita e identificação e eliminação do vetor, são medidas eficientes no controle dessa enfermidade. Recomendo ainda o uso de repelentes naturais e/ou químicos nos animais, pulverização com inseticidas nos ambientes domésticos e peridomiciliares e ainda a vacinação dos animais não infectados. Hoje disponibilizamos de excelentes produtos contra a leishmaniose que exercem um papel importantíssimo no seu controle".

Produtos pour-on e o uso de coleira a base de deltametrina 4% é uma maneira eficaz de repelir o flebótomo no  cão. Também é recomendado o uso de telas nas janelas e, para os humanos, é indicado o uso de repelente e evitar a exposição nos horários de atividade do vetor (crepúsculo e noite) e em ambientes onde habitualmente pode ser encontrado.

O mosquito transmissor prolifera em áreas de sombra e com matéria orgânica em decomposição, principalmente em áreas embaixo de árvores e locais que acumulam folhas. A limpeza do ambiente, o manejo ambiental, a conscientização da população também são medidas de controle. "O fato do inseto transmissor não precisar de água para se reproduzir e sim de matéria orgânica em decomposição, aliado ao fato de seu comportamento não ser totalmente conhecido, dificulta muito  o seu controle. Devido a isso, a eutanásia dos cães portadores de leishmaniose é uma medida complementar no controle dessa doença", completa Dr. Vinicius.

Assim como São Borja (RS), a cidade de Belo Horizonte (MG) também sofreu um surto da doença durante a segunda metade da década de 90, mas até hoje a leishmaniose é a doença parasitária mais comum entre seus cães.

A Anclivepa-MG desenvolveu um trabalho de conscientização para auxiliar o controle do surto. "Na verdade, o tratamento de cães com leishmaniose visceral tem ampla divulgação através de trabalhos científicos. Em BH, o conhecimento inicial dos procedimentos terapêuticos ocorreu em 1997, quando promovemos o I Simpósio Internacional de Leishmaniose Visceral Canina, com a Profª. Dra. Guadalupe Mirro, da Universidade Complutense, de Madri. A partir de então, a Anclivepa-MG divulgou os protocolos de tratamentos existentes na literatura médica veterinária para todo o Brasil", informa o integrante do Conselho (Comissão Científica) da Anclivepa-MG, Dr. Vítor Márcio Ribeiro.

A aplicação de inseticidas divide opiniões, pois mata outras espécies de insetos, podendo causar um desequilíbrio ambiental. De acordo com informações do Ministérios da Saúde, historicamente o controle químico é uma das medidas que comprovadamente garante a redução de agravos transmitidos por vetores, especialmente em momentos de epidemia. “Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso de inseticidas contribui com significativos avanços ao longo da história dos vários programas brasileiros de controle de doenças transmitidas por vetores, dentre elas a febre amarela, malária, dengue, leishmanioses e doenças de Chagas. Muito embora atualmente devem ser considerados os diversos determinantes sócios-ambientais nos modelos de intervenção. Destaca-se que sua utilização deverá ser de forma racional, especialmente com o planejamento e acompanhamento sistemáticos”.

Ainda segundo o Ministério, seu objetivo é preservar a saúde humana e oferecer todos os subsídios para este fim. “Dentre os objetivos do Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral estão o de garantir o diagnóstico precoce e tratamento oportuno dos casos humanos. Por isso, existe tratamento gratuito e adequado em toda a rede pública de saúde para os pacientes com essa zoonose".

Em agosto de 2007 foi realizado um Fórum de discussão sobre tratamento de cães com leishmaniose visceral e participaram pesquisadores da área de várias instituições de pesquisa, representantes do Ministério da Saúde, Conselho Federal de Medicina Veterinária e Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa). "Com base nos resultados desse Fórum e por recomendação da grande maioria dos membros participantes, o Ministério da Saúde juntamente com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento publicaram em 11/07/2008. a Portaria Interministerial n° 1426 que "proíbe o tratamento de leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano ou não registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento". Portanto, qualquer profissional veterinário que esteja. oferecendo e realizando tratamento em cães com LV, estará sujeito à sofrer penalidade por parte do Conselho Federal de Medicina Veterinária por prática ilegal da profissão. Questionada sobre a situação em São Borja (RS), a assessoria do Ministério da Saúde afirma que desde a confirmação do primeiro caso canino no município, em novembro de 2008, tem prestado todo o apoio técnico e logístico às equipes estadual e municipal.

Foram desenvolvidas várias atividades que possibilitaram a estruturação de toda a rede de vigilância epidemiológica e laboratorial, aprimoramento da rede de vigilância entomológica e preparação da rede assistencial para o diagnóstico precoce e tratamento oportuno dos casos humanos. Também foram fornecidos pelo Ministério insumos como material entomológico, medicamentos para o tratamento dos pacientes com leishmaniose visceral e kits de diagnóstico. É importante ressaltar que todas as atividades foram desenvolvidas em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, que também está prestando todo o apoio necessário ao município do São Borja.

Teste rápido

Está previsto para 2009 o lançamento do teste rápido para diagnóstico da leishmaniose. Os estudos com os kits foram iniciados em setembro do ano passado em Campo Grande (MS) pelo Instituto Bio-Manguinhos. O teste determina na hora se o animal está ou não com leishmaniose. O diagnóstico é obtido em cinco minutos, enquanto que nos testes convencionais o resultado é emitido em quatro dias. Segundo a Agência de Notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, realizaram um estudo que revelou que um medicamento genérico utilizado como vasodilatador para pacientes com isquemia cerebral apresenta potente atividade contra o parasita causador da leishmaniose. A nimodipina, uma substância inibidora dos canais de cálcio, em ensaios in vitro, teve ação quatro vezes mais efetiva contra a leishmaniose visceral que o glucantime, o fármaco-padrão hoje utilizado para o tratamento. Haverá uma outra etapa de estudo das formulações nanotecnológicas que permitirão a liberação controlada do fármaco, dirigindo-o diretamente aos macrófagos, as células onde se abriga o parasita. A partir de agora, serão realizados testes in vivo (animais) e depois o estudo clínico será em humanos

Confira as empresas que possuem produtos para tratamento da leishmaniose. Visceral Canina (LVC):

Bayer Health Care; www.bayerhealihcarecom.hr

Fort Dodge Saúde Animal; www.jorLdodge.com.br,

Intervet-ScheringPlough Animal Health; www.intervet.com.br

Hertape Calier Saúde Animal S/A; www.herlapecalier.com.br