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A Folha (São Carlos, SP)

Lei de Biossegurança: marco político e cientifico

Publicado em 13 março 2005

Agência FAPESP - A aprovação do projeto da Lei de Biossegurança na Câmara dos Deputados foi uma grande vitória para muitos cientistas. Uma delas estava entre presente no Salão Verde da Câmara, em Brasília, na noite de quarta-feira (2/3), dia da votação. Era Mayana Zatz, considerada a principal voz da classe científica na defesa de mudanças no texto original, que proibia a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas.
Professora titular do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Mayana recebeu o Prêmio L'Oreal-Unesco para Mulheres na Ciência, em 2001, como a mais destacada cientista da América Latina, e o brasileiro Prêmio Cláudia, no mesmo ano.
Nascida em Israel, em 1947, a pesquisadora morou na França até se fixar no Brasil, em 1955. Formada em biologia pela USP, fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Foi também fundadora da Associação Brasileira de Distrofia Muscular e é a coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP.
Em sua sala na USP, Mayana recebeu a Agência FAPESP para uma entrevista na qual falou sobre os efeitos da aprovação do projeto na Câmara — que ainda depende da sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para virar lei.

Agência FAPESP - Qual é a principal mudança que a sanção da Lei de Biossegurança trará?
Mayana Zatz - Pela primeira vez poderemos trabalhar com células embrionárias humanas.

Agência FAPESP - Para a senhora, como pesquisadora, como foi participar desse ato político que levou a Câmara dos Deputados a aprovar a pesquisa científica com células-tronco embrionárias para fins terapêuticos.
Mayana Zatz - Foi muito gratificante. E também uma maratona, porque ninguém faz seu trabalho de pesquisadora enquanto você está em Brasília. É uma tripla jornada, mas o resultado foi muito gratificante. Quem teve um papel fundamental foi a filha do Severino Cavalcanti, a deputada Ana Cavalcanti, que é fisioterapeuta e entendeu muito bem o que estávamos falando, pois já viveu o drama de crianças que morrem com distrofia. A presença dos pacientes na Câmara também foi muito importante para mostrar que a questão não está ligada apenas às doenças de Parkinson ou Alzheimer.

Agência FAPESP - Existe a possibilidade de chegarem investimentos estrangeiros, uma vez que o Brasil é um dos primeiros países do mundo a aprovar a pesquisa com células embrionárias?
Mayana Zatz - Sim. No Brasil não existe a tradição de a iniciativa privada ajudar a financiar a pesquisa que não seja aplicada e rentável. Essa mentalidade tem que mudar e o projeto da Lei de Biossegurança pode ajudar nesse sentido. A aprovação foi uma lição de democracia para o mundo e uma lição extremamente importante para nós, brasileiros, de que não se pode "deixar barato". Se acreditamos em alguma coisa, devemos batalhar por isso. E não se consegue nada sozinho. A mídia ajudou muito, comprou a causa e teve um papel fundamental. Primeiro, ao ajudar a esclarecer o que era essa pesquisa, desmistificando conceitos errados, e, depois, ao pressionar os deputados no sentido de mostrar que essa era a vontade do povo, o desejo da maioria.

Agência FAPESP- Qual é o cenário agora para a pesquisa com células embrionárias?
Mayana Zatz - É preciso muito cuidado para que não se confunda pesquisa com tratamento — há uma pressão enorme de pessoas que já querem se tratar. Por outro lado, é muito importante continuar divulgando como isso será feito, porque já tem gente dizendo que vai injetar células embrionárias. Aliás, isso existia antes de a lei ser aprovada. É preciso cuidado com pessoas que estão prometendo isso.

Agência FAPESP - O Centro de Estudos do Genoma Humano, que a sra. coordena, importou recentemente células embrionárias dos Estados Unidos. Já foi feita alguma pesquisa com elas?
Mayana Zatz - Ainda não. Não quisemos mexer com essas células antes de ter a aprovação do Comitê de Ética. Estou escrevendo um projeto do centro para a FAPESP, que inclui as células-tronco embrionárias e que será enviado ao Comitê. Mas o presidente Lula ainda precisa sancionar a Lei. Além disso, só agora poderemos saber quantos embriões congelados existem de fato.

Agência FAPESP — Os cientistas brasileiros precisam de muitos embriões para as pesquisas que estarão sendo feitas a partir de agora? Os embriões congelados serão suficientes
Mayana Zatz - Não precisamos de muitos para fazer a pesquisa. Ao mesmo tempo, serão gerados outros embriões. Mas há um movimento para impedir que mais embriões sejam congelados. Existe um projeto de lei do senador Tião Viana (PT/AC) para permitir apenas a produção de dois embriões por casal, o que inviabilizaria a fertilização assistida. Mas, de qualquer maneira, com o material que temos agora, conseguimos as linhagens suficientes para fazer a pesquisa. E, daqui a dois ou três anos, teremos resultados muito importantes que irão nos direcionar para saber se precisamos de mais ou se concluiremos que é possível fazer as células-tronco adultas terem o potencial das embrionárias.

Agência FAPESP - Células-tronco de medula óssea e do cordão umbilical têm apresentado melhor resultado do que células embrionárias?
Mayana Zatz - Não se pode afirmar isso porque ainda não há pesquisa com células embrionárias, nem no Brasil e nem nos países do primeiro mundo. Seria uma loucura injetar células embrionárias. É preciso, antes, aprender a diferenciar, em cultura, uma célula embrionária em um determinado tecido. Como elas têm o potencial de formar qualquer tecido, não se tem segurança alguma de que ela formará o tecido que se quer ao injetá-la no organismo. O que tem que ser feito é direcionar, antes de injetar, para que ela já entre no organismo compromissada a fazer um determinado tecido. E ainda não sabemos como fazer isso, temos que aprender. Existe um tempo entre a pesquisa e o tratamento.

Agência FAPESP — Quando poderemos ter pesquisa com humanos?
Mayana Zatz - O próximo passo é usar modelos animais, para só depois trabalhar com humanos. Há muito tempo se sabe que as células da medula são muito boas para o tratamento de leucemia e doenças hematológicas. Hoje, sabe-se que as de cordão são ainda melhores. A única certeza que se tem sobre as células de cordão é que elas constituem o melhor tratamento para leucemias, anemias, talassemias — todas doenças do sangue. Só que existe o problema da compatibilidade. Medula, nos casos de doença na família, é procurada em uma pessoa compatível na família. Enquanto que se você tiver cordão umbilical, se não houver um bebê nascido na família que seja compatível, seria preciso procurar em bancos de cordão. Por isso é que temos defendido que se façam bancos públicos de cordão, o que resolveria o problema de fila de transplante em casos de leucemia — aquele desespero de achar um doador compatível.

Agência FAPESP — Quais as vantagens dos bancos de cordão?
Mayana Zatz - Hoje existe um comércio que envolve o congelamento do cordão de um próprio filho, no qual estão vendendo gato por lebre. Há muita gente pagando uma fortuna para congelar o sangue do cordão do próprio filho e há uma chance enorme de isso não servir para nada. As pessoas que alegam que você pode ter um problema cardíaco, por exemplo, daqui a 30 ou 40 anos, e precisar do cordão, não estarão aqui para prestar contas disso quando o momento chegar. Não se sabe se o cordão se mantém por tanto tempo. Para doenças genéticas ele não serve e mesmo em casos de leucemia se mostrou que o sangue do cordão não é recomendado, inclusive por se desconhecer se aquela célula não tem uma predisposição para a leucemia. Hoje não se justifica congelar o sangue do próprio cordão. A não ser que se diga que alguém da própria família poderá ter um problema. Mas é a mesma filosofia dos bancos de sangue. Ninguém congela seu próprio sangue pensando que pode, de repente, precisar de uma transfusão. Outra coisa que é preciso dizer, porque as pessoas sempre confundem, é que células tronco de cordão são células adultas, e não embrionárias.