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Legado Digital de Inglaterra e Brasil

Publicado em 25 abril 2014

Por Gilson Schwartz

Nessa semana que viu a aprovação do Marco Civil da Internet e a realização do evento NetMundial em São Paulo, termina hoje o seminário “Beyond the Digital” (Além do Digital), uma iniciativa patrocinada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo British Council. O objetivo do evento (que coordeno em parceria com Joanne Garde-Hansen, da Universidade de Warwick) é construir as bases da pesquisa científica e da formação profissional que nos próximos anos conformem uma rede inédita de colaboração entre Inglaterra e Brasil com foco nos impactos da cultura digital sobre a economia, a política e o meio-ambiente.

A aproximação entre a “Cidade do Conhecimento” da USP e o “ Centre for Cultural Policy Studies” da Universidade de Warwick teve início em 2013 com apoio do Banco Santander. Realizado o primeiro evento na Inglaterra como projeto “Iconomy and Memory” (IaM), a proposta foi uma das sete selecionadas pela FAPESP e pelo British Council na chamada “Researcher Links” entre 58 projetos liderados por universidades paulistas e inglesas, em todas as áreas do conhecimento.

Os recursos foram investidos na mobilização de 20 doutores em começo de carreira (os “ECRs” ou “Early Career Researchers”) sob a supervisão de mentores britânicos e brasileiros: Lucia Santaella da PUC-SP, Paulo Nassar da Escola de Comunicações e Artes da USP e Presidente da ABERJE (a mais importante entidade representativa da comunicação empresarial no Brasil), Anna Reading do King´s College de Londres e Michael Pickering da Universidade de Loughborough.

Nunca antes na história das pesquisas sobre comunicação digital e seus impactos na economia, na sociedade e na cultura houve um time tão concentrado de talentos e lideranças conectando instituições de ponta na Inglaterra e no Brasil. É uma nova rede surgindo, com a perspectiva de ir não apenas “além do digital” mas também além do academicismo, colocando a fronteira da pesquisa em contato direto com os principais desafios que a digitalização, a gamificação e a globalização apresentam tanto para o morador da favela ocupada quanto para os “boards” das corporações globais.

Vai dar certo? Ser inédito e inovador não é garantia de sucesso. Além do digital e da academia, mas também além dos partidarismos e da guerra ideológica fácil, as ciências da comunicação, da informação e da inteligência coletiva acumularam conhecimento teórico, prático e tecnológico ao longo das “internets” em suas encarnações 1.0 (anos 90 do século passado) e 2.0 (primeira década do século 21).

A economia dos ícones digitais é a terceira fronteira, essencialmente interdisciplinar e global, digital e crítica que pode transformar a inclusão tecnológica em conquistas que favoreçam a cidadania, a emancipação e o empreendedorismo. Mobilizar algumas das principais universidades e centros de pesquisa da Inglaterra e do Brasil não é pouco.

Ao longo de meio século de revolução tecnológica e midiática, a euforia e a especulação em torno de “start-ups”, “open source” e outras ondas (gamification, blogosfera, “wikinomics”, etc.) tem convivido com o estouro de “bolhas” financeiras, o rompimento de limites à privacidade e à intimidade, a relativização da propriedade privada e a consolidação da “surveillance”, da sombra vigilante que nos espiona a alma, principalmente quando mais nos aproximamos de novas definições de liberdade, progresso e ordem.

A esfera digital global, essa dimensão que Anna Reading define como “globital”, é sem dúvida um projeto de conhecimento, poder e riqueza marcado pela hegemonia da cultura anglo-saxã. Que o Brasil ocupe um espaço tão relevante nos embates políticos e nos debates acadêmicos sobre o futuro das nossas vidas em rede é algo inédito, surpreendente e promissor.

Quem clicar, verá.

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Projetos Aprovados no Programa Researcher Links 2013 (FAPESP/British Council)

Chamada 2014-2015 do Programa Researcher Links (em inglês)