Notícia

Info Energia

Lee Rybeck Lynd, cientista americano: O Brasil é o berço da moderna indústria de biocombustível""

Publicado em 15 setembro 2009

O professor do Dartmouth College dos Estados Unidos, Lee Rybeck Lynd em conferência promovida pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), disse que o Brasil é o berço da moderna indústria de biocombustível e devemos honrar o progresso do país na liderança de uma base sólida de recursos sustentáveis. Comparado a outras culturas e às sementes oleaginosas, investir na cana-de-açúcar realmente faz muito mais sentido atualmente, mesmo que o mundo resista à expansão dessa cultura, que também tem um potencial de replicação geográfica limitado", explicou.

Lynd destacou que a maior parte das conclusões, descritas em artigos científicos ou apresentadas em conferências, se baseiam em variáveis que vão das limitações e da disponibilidade de terras para a produção de biomassa vegetal até a garantia do oferecimento em larga escala dos produtos e serviços de energia."Esses fatores são determinados pelos interesses econômicos mundiais e pelas limitações físicas do planeta. Em um grau substancial, as conclusões sobre o fornecimento de biomassa têm gerado diferentes expectativas a respeito da disposição e da capacidade dos pesquisadores em promover mudanças e gerar inovações tecnológicas na área dos biocombustíveis", afirmou. As informações foram fornecidas pela Agência FAPESP.

"E sabemos que ainda existem muito poucas inovações na área de energias provenientes de biomassa", complementou durante a palestra "Produção global e sustentável de bioenergia", realizada no BIOEN Workshop on Process for Ethanol Production, na última semana em São Paulo, após a abertura do evento feita pelo presidente da FAPESP, Celso Lafer. O workshop foi realizado no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN).

Há mais de 30 anos Lynd estuda rotas tecnológicas para a geração de biocombustíveis a partir da celulose, provenientes de diferentes fontes como resíduos de madeira e milho, além do bagaço e da palha da cana-de-açúcar - esses dois últimos, segundo estimativas, representam dois terços da energia da planta.

Na corrida pelo etanol de segunda geração, o grupo de pesquisa coordenado por Lynd na Thayer School of Engineering do Dartmouth College investe no "bioprocessamento consolidado", técnica na qual as quatro transformações biológicas envolvidas na produção do bioetanol - produção de enzimas, sacarificação, fermentação de hexoses e fermentação de pentoses - ocorrem em uma única fase.

"Se o nosso objetivo é consolidar mundialmente um setor de transportes eficiente e sustentável, sem os biocombustíveis essa meta será muito difícil, arriscada e mesmo improvável. E, nesse contexto, a biomassa celulósica permanece bastante promissora para os próximos anos", apontou.

Segundo ele, no contexto da produção de biocombustíveis em larga escala, capaz de atingir pelo menos 25% da demanda por mobilidade global, "a cana-de-açúcar é certamente a que tem mais mérito quando comparada com outras matérias-primas estudadas atualmente".

Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, muitos são os assuntos que tendem a unir os cientistas em torno dos biocombustíveis, mas também é preciso atentar aos pontos que tendem a dividir as comunidades de pesquisadores. "O tema da segurança energética, por exemplo, é um problema nacional e cada país tem suas próprias necessidades e visões sobre ele", disse.

"É preciso deixar claro, portanto, que os biocombustíveis a partir da celulose podem contribuir para aliviar as diferentes opiniões sobre segurança energética, devido às possibilidades de produzi-los a partir do açúcar e também da celulose de resíduos e sobras florestais, sem a necessidade de mais área plantada", afirmou.

Lynd destacou também a importância do Global Sustainable Bioenergy: Feasibility and Implementation Paths, projeto coordenado por ele e que reúne uma equipe internacional de cientistas para o estudo das possibilidades de uso dos biocombustíveis em nível mundial e em larga escala, partindo, em parte, da experiência brasileira de produção de etanol a partir da cana-de-açúcar.

Pelo lado brasileiro, participam do comitê organizador das reuniões do projeto Brito Cruz e José Goldemberg, pesquisador do Centro Nacional de Referência em Biomassa, vinculado ao Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP). As reuniões ocorrerão nos Estados Unidos, África do Sul, Malásia, Holanda e no Brasil.

"Sabemos que as diversas percepções sobre as limitações que envolvem o uso da terra são mais originadas na Europa e nos Estados Unidos do que no continente sul-americano ou africano. Essa é uma das razões pelas quais o projeto deve ser global, a fim de que representantes de todos os países possam conversar abertamente sobre visões distintas", disse.

Lynd lembrou, no entanto, que, do ponto de vista de alguns países menos privilegiados, a dependência de fornecedores de biocombustíveis externos também deverá gerar impactos econômicos distintos, "apesar de que a energia produzida a partir da biomassa pode ser muito melhor e mais igualmente distribuída ao redor do mundo quando comparada ao petróleo".

"Nesse contexto, o Brasil é o berço da moderna indústria de biocombustível e devemos honrar o progresso do país na liderança de uma base sólida de recursos sustentáveis. Comparado a outras culturas e às sementes oleaginosas, investir na cana-de-açúcar realmente faz muito mais sentido atualmente, mesmo que o mundo resista à expansão dessa cultura, que também tem um potencial de replicação geográfica limitado", destacou.

Para ele, o estudo de outras culturas agrícolas mais replicáveis, por outro lado, permitirá que mais países cheguem a um consenso com relação ao futuro da energia gerada pela biomassa. "Os chineses, por exemplo, dizem não ter espaço e nem terra disponível para a geração de biocombustíveis", disse.

"Mas, nesse caso, se outras nações ajudarem os chineses a pensar na reconfiguração de suas terras de pastagens, por exemplo, podemos aos poucos trazer ao debate países que hoje parecem estar de fora e que certamente fazem parte desse futuro de biomassa. As mesmas questões que aparentemente dividem os países podem se tornar uma razão a mais para uni-los", concluiu.