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Brasilagro

Lavouras para salvar o Planeta

Publicado em 20 dezembro 2017

A demanda por produtividade tem pressionado o agronegócio a ser mais eficiente. Resultado: lavouras mais sustentáveis no uso da terra e mais tecnologia na aplicação de insumos.

O agricultor gaúcho Cândido Dutra é membro da terceira geração de uma família de produtores de arroz em Capivari do Sul, a 75 quilômetros de Porto Alegre. Hoje, ele prepara os filhos para assumir um negócio cada vez mais desafiador. Nos últimos anos, o avanço do arroz-vermelho, praga que derruba a produtividade do grão branco, parecia pôr em risco a propriedade de quase 1 mil hectares de Dutra e de boa parte dos produtores gaúchos de arroz – hoje, 83% dos arrozais têm alguma incidência da praga.

“Quando o arroz-vermelho toma conta da lavoura, a indústria rejeita o nosso produto”, diz Dutra. Há anos os agricultores tentam soluções, que duram pouco – indício de um desequilíbrio ambiental. “Cada vez eram necessários mais insumos para o cultivo de arroz e a produção era cada vez menor”, diz Rodrigo Schoenfeld, gerente da divisão de pesquisa do Instituto Riograndense do Arroz, o Irga.

“Não era sustentável do ponto de vista financeiro nem ambiental”. A solução para conter a infestação foi apostar em um aliado, a soja. A ideia: alternar áreas de arroz com o cultivo de soja para fazer o controle biológico e preparo do solo. Isso não era exatamente uma novidade para os gaúchos. Já nos anos 70 alguns fazendeiros testavam a soja na rotação das lavouras do arroz.

Na última década, muitos fazendeiros adotaram o grão e outras culturas na alternância, mas os resultados ainda estavam muito aquém do esperado. O problema é que a soja, que tão bem se desenvolve no cerrado, não sobrevive em áreas alagadas, onde tradicionalmente é cultivado quase todo o arroz gaúcho. Em 2015, a saída foi desenvolver sementes mais rústicas de soja para a região, criadas pelo Irga em parceria com empresas como Bayer e Syngenta, utilizar intensivamente adubação e adotar esquemas eficientes de drenagem.

Hoje, 68.000 hectares de arroz utilizam o sistema mais avançado de rotação das duas lavouras – o que equivale a 6% dos arrozais gaúchos. Nessas áreas, a produtividade do arroz é 11% superior. A soja por si só também virou um bom negócio. “Por causa dos bons preços, hoje a soja é mais rentável, mas somos produtores de arroz”, diz Dutra, que planta atualmente 400 hectares de soja.

A inventividade dos produtores gaúchos na rotação de arroz e soja tem uma razão de ser muito simples: vai ser necessário cuidar muito bem da terra e extrair o melhor dela para que a demanda por comida no futuro seja atendida. É por isso que a palavra da moda nas conversas de quem faz a diferença no agronegócio é ‘sustentabilidade’.

O crescimento da população mundial – hoje já se fala em 11 bilhões de pessoas por volta de 2.100 – e a expansão da classe média em nações emergentes, como a China, deverão ampliar a necessidade de produzir mais alimento. Nas contas da FAO, órgão das Nações Unidas para a Segurança Alimentar, será necessário aumentar em 60% a produção de comida até 2050.

Assim como aconteceu nas últimas décadas, novas tecnologias deverão ampliar a produtividade do campo. Mas, ao contrário do visto até agora, não há mais abundância de matas nativas para ser convertidas em terras aráveis. Mesmo onde ainda há fronteiras agrícolas virgens para ser exploradas, como é o caso do Brasil, já sai mais caro desbravar novas áreas do que recuperar terras degradadas e destiná-las à produção agropecuária – um fator econômico que, felizmente, pode ajudar a preservar a floresta.

No Pará, que vive intensamente o dilema da conservação, transformar floresta em lavoura custa, em média, 8.000 reais o hectare, segundo cálculos da Scot Consultoria. Já a conversão de pastagens comprometidas em áreas para a produção de milho e soja sai por 3.000 reais o hectare.

Como a redução de custos é uma obsessão para os produtores, que dependem de variáveis difíceis de prever, como o clima ou a cotação da matéria-prima em mercados internacionais, é bem provável que mais e mais áreas degradadas sejam aproveitas para a agricultura – segundo a FAO, 80% do aumento na produção de alimentos esperado até 2050 virá dessas regiões. Do ponto de vista do meio ambiente, trata-se de um ótimo negócio, pois, assim, reduz-se a pressão por desmatar o que resta. “Na busca por eficiência, o agricultor tem de ser conservacionista e utilizar técnicas mais sustentáveis de manejo”, diz Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria.

Tudo indica que o Brasil está na vanguarda da lavoura que ajudará a conservar o planeta no futuro. O país tem hoje uma das maiores experiências do mundo nesse sentido com a rede Integração Lavoura, Floresta e Pecuária, uma parceria público-privada da Embrapa, órgão de pesquisas agrícolas do governo federal, com empresas do agronegócio, como a montadora de implementos agrícolas John Deere e a indústria química Dow.

O trabalho dos técnicos da Embrapa e dos parceiros privados é convencer o pecuarista a não deixar a terra parada um minuto sequer. No programa, algumas áreas de pastagens degradadas de uma fazenda, que normalmente têm infestações de cupins e pouca vegetação para o gado, recebem o plantio de espécies de grãos como soja e milho geneticamente modificados para resistir a solos mais pobres.

Outra parte é reflorestada e abriga o rebanho na safra, que ocorre nos meses de primavera e verão. A boiada volta às pastagens em seguida e colabora para a adubação do próximo plantio com os dejetos que deixa no solo. Desde a formação da rede, em meados dos anos 90, estudos feitos pela Embrapa mostram os ganhos do sistema.

As folhagens deixadas após a safra permitem alimentar melhor o gado, aumentando o ganho de peso – e média, de 40 arrobas por hectare nas fazendas de integração lavoura-pecuária, seis vezes mais do que a média brasileira.

A criação de bovinos reduz a necessidade de fertilizantes e nutrientes químicos no solo. O resultado: maior rentabilidade para o produtor. Uma comparação entre duas fazendas em Mato Grosso mostrou que a propriedade com integração lucrou, em média, 230 reais por hectare entre 2005 e 2012. A outra, que seguiu um manejo convencional, deu prejuízo de 116 reais no período.

Redução do efeito estufa

No fim das contas, a integração entre lavoura, pecuária e floresta poderá permitir um salto de produtividade e sustentabilidade na agricultura brasileira. Além de prover mais nutrição aos animais, a abundância de mato no pasto e de florestas ajuda a resgatar os gases emitidos pela boiada durante a respiração e a ruminação da comida – também responsáveis pelo efeito estufa.

Segundo dados da Embrapa, o agronegócio brasileiro responde por 37% da emissão de gases no país causadores do aquecimento global e o restante vem de indústrias e do transporte. Do total referente ao campo, 15% vêm da pecuária – número que não considera o sequestro de gases devido à fotossíntese de pastagens que germinam por onde passa a boiada.

Dito isso, desde 2005, estima-se que 35 milhões de toneladas de gases tenham sido sequestrados nas propriedades que adotaram a integração, um patamar que o governo federal, que tem metas de redução de gases de efeito estufa a cumprir por causa de acordos internacionais do clima, só esperava atingir após 2020.

Tudo indica que os ganhos deverão se multiplicar pelos próximos anos: até o fim desta década, a área de integração deverá crescer 30% e chegar a 19 milhões de hectares, praticamente um terço da área destinada à agricultura do país hoje. Considerando que 62% das terras são protegidas de alguma maneira pelo Código Florestal, a alternativa será intensificar a produção em terras pouco produtivas, como as áreas de pastagens degradadas.

“O Brasil tem um potencial gigantesco de ampliar a produção de alimentos, seguindo o Código Florestal, sem degradação nem desmatamento”, diz Mauricio Lopes, presidente da Embrapa.

As oportunidades abertas pela combinação de tecnologias para aumento da produtividade com práticas sustentáveis têm chamado a atenção das grandes empresas do agronegócio. Há quem cobre dos clientes um prêmio por gerir bem o meio ambiente. É o caso da Agropalma, empresa criada nos anos 80 pelo banqueiro Aloysio Faria e que prevê receitas de 1,2 bilhão de reais em 2018, com a avenda do óleo tirado de palmeiras no Pará a clientes como Nestlé e General Mills, que o utilizam na produção de itens como batom, xampu e sorvete.

Trata-se de uma cultura acostumada a levar pedrada de ambientalistas: no passado, a extração dependia do desmatamento de vastas áreas de vegetação nativa para abrir espaço para as palmeiras e de altas doses de pesticidas para garantir a produtividade. A má fama e o risco de ser substituído por óleos de origem menos visada como o de girassol, provocaram uma corrida das fabricantes de palma pela conservação.

Na Agropalma, a abertura de novas lavouras cessou em meados dos anos 90. De lá para cá, técnicas modernas de manejo, como o plantio de leguminosas para conter a erosão, e o uso de arapucas com feromônio para atrair e matar pragas permitiram aumentar a produtividade em quase 70% e fazer as pazes com os ambientalistas. Atualmente, a produção anual é certificada com o selo ‘Desmatamento zero’, da ONG Greenpeace.

A preocupação ambiental ampliou a demanda pelo óleo da Agropalma, que cobra até 10% mais do que a concorrência. “Nosso óleo é disputado a tapa em mercados com legislação ambiental restrita, como a Alemanha”, diz Marcelo Britto, diretor da Agropalma.

Em alguns setores do agronegócio brasileiro, como é o caso da indústria da carne, seguir protocolos internacionais de cuidado com o meio ambiente é uma precondição para as empresas brasileiras acessarem mercados. Por isso, os três maiores frigoríficos do país, JBS, Marfrig e Minerva, têm programas para rastrear a cadeia de fornecedores de carne.

O Minerva, que implantou o monitoramento em 2009, desde o ano passado tem ampliado um sistema de imagens por satélite para coibir o fornecimento de gado vindo de áreas desmatadas da Amazônia. Atualmente, 98% das propriedades da região com as quais negocia são vigiadas dessa maneira, o que permite vender a gigantes do ‘fast-food’, como Subway. “São empresas que atuam globalmente e exigem padrões altos de sutentabilidade”, diz Fernando Galetti de Queiroz, presidente do Minerva.

Da mesma forma que cuidar do planeta pode ser uma oportunidade para as grandes do agronegócio, há uma porção de startups surgindo com a missão de salvar o mundo e aumentar a produção de alimentos. Exemplo disso é que a Embrapa já organizou um desafio de ideias sobre o tema – o chamado hackathon -, que teve 63 inscrições para o evento realizado no fim de agosto em Londrina, interior paranaense.

Quem aposta em mais tecnologia e sustentabilidade está vendo um mercado promissor. É o caso da gaúcha Aegro, que mantém um aplicativo com mapas da fazenda elaborados com base em dados coletados por sensores. A finalidade? Mostrar, em tempo real, as áreas que, de fato, precisam de uma pulverização química – reduzindo, assim, a aplicação desnecesária de agrotóxicos na natureza.

No início de dezembro, a Aegro recebeu investimentos de 5 milhões de reais da SP Ventures, fundo que tem como cotista a Fapesp, fundação paulista de apoio à pesquisa científica. Além disso, na mesma semana, o aplicativo estrou no Climate FieldView, uma plataforma online para novas tecnologiasagrícolas mantida pela fabricante de sementes Monsanto.

As receitas da Aeogro, que dependem de uma anuidade a partir de 2 reais por hectare, devem se multiplicar por 6 no ano que vem. “A expectativa é chegar a 3,5 milhões de reais”, diz o cientista da computação Pedro Dusso, de 29 anos, que abriu a empresa com colegas de faculdade em 2015.

Fazer um agronegócio mais produtivo e sustentável não depende apenas de novas tecnologias e da vontade de empresas e produtores. O estágio de desenvolvimento das propriedades brasileiras é muito desigual. Metade da área destinada à pecuária no país não faz uso sequer de suplementação mineral no solo.

“O agricultor precisa ter assistência técnica para que consiga recuperar as áreas que foram desmatadas”, diz Rodrigo Lima, diretor da consultoria Agroícone. “No cerrado há 11 milhões de hectares de pastagens aptas para a produção agrícola, mas que aguardam políticas públicas melhores”. Sim, há muito por fazer. Mas saber a direção certa aonde se quer chegar é um ótimo começo (Revista Exame, edição nº 1.152; digitado pelo BrasilAgro; 20/12/17)

Produtores em rede

O americano Mike Stern é um entusiasta da revolução digital na agricultura. À frente da Climate Corporation, subsidiária da multinacional de sementes Monsanto que oferece o Climate FieldView, plataforma digital para análise de dados de lavouras, Stern acredita que, no futuro, o compartilhamento de dados poderá trazer saltos de produtividade no campo.

Na entrevista a seguir, o presidente da Climate explica por que a análise de dados pode ser útil especialmente em regiões tropicais como o Brasil.

Qual a vantagem de usar a análise de dados no campo?

Com a tecnologia, os agricultores podem reunir num só lugar os indicadores da propriedade, como o volume produzido na lavoura. O mais importante: os dados agregados de vários produtores podem achar as melhores práticas – e ajudá-los a ter certeza na hora de tomar decisões sobre a lavoura. É um conhecimento em rede.

Como o conhecimento em rede ajudará a agricultura no Brasil?

O agronegócio brasileiro, por estar numa região tropical, sofre bastante com fatores incertos, como condições climáticas e infestações de pragas. É fundamental ter acesso a dados estatísticos nas tomadas de decisão, como os que mostram a melhor data para plantio ou combate a pragas.

Como garantir a privacidade da informação numa plataforma como a da Monsanto?

É o dono da fazenda que inclui o dado. Ele pode escolher com quem compartilha as informações e quando parar o compartilhamento. A Climate usa só os dados agregados.

Quais são os desafios para a agricultura digital no Brasil?

A conectividade em áreas remotas do país, especialmente nas fronteiras agrícolas da Região Norte. Nos Estados Unidos, os dados são enviados em tempo real da lavoura à nuvem. No Brasil, adaptamos nossa tecnologia para poder operar. Criamos uma função offline para o agricultor que está na lavoura poder inserir os dados no sistema, que posteriormente serão carregados na nuvem quando ele retornar à sede na fazenda, onde normalmente há conexão com a internet (Revista Exame, edição nº 1.152; digitado pelo BrasilAgro; 20/12/17)

Fazendas urbanas

O americano Jeff Bezos, fundador da Amazon, e o japonês Masayoshi Son, dono das empresas de telefonia Softbank e Sprint, são bilionários. Além disso, têm se mostrado visionários em suas respectivas áreas ao detectar tendência antes da maioria dos mortais. Se ambos investiram recentemente na emricana Plenty, uma startup de agricultura no Vale do Silício, é bom prestar atenção no que essa empresa está fazendo.

Criada em 2014, a Plenty recebeu 200 milhões de dólares de investidores em julho para financiar a expansão de seu modelo de fazendas verticais, construídas em galpões nos arredores de grandes metrópoles.

Na sede da empresa, uma antiga distribuidora de equipamentos eletrônicos, em paredões de 6 metros de altura, iluminados por fios de LED e repletos de sensores para coletar dados agronômicos, funcionários da Plenty cultivam alface, couve e uma grande variedade de hortaliças orgânicas.

Com o controle de iluminação artificial e de irrigação, o fundador da empresa, o economista Matt Bernard, diz que ela consegue cultivar algumas variedades de alimentos com produtividade 350 vezes superior à da agricultura tradicional – e usandol apenas 1% da água. A produção da Plenty ainda não é comercializada, mas a ideia é desenvolver uma cadeia de abastecimento capaz de suprir em questão de horas supermercados e restaurantes com produtos frescos e cultivados dentro da cidade.

A Plenty está na fronteira de um movimento que cresce nas grandes cidades: a agricultura urbana. De acordo com estimativas da FAO, órgão das Nações Unidas para a segurança alimentar, 800 milhões de pessoas plantam em zonas urbanas em todo o mundo – a maioria concentrada nos países pobres.

Nas nações ricas, a demanda por áreas verdes e a pressão dos consumidores por produtos cultivados próximos ao local de consumo são os motivos que fortalecem a criação de lavouras urbanas. A cidade americana de Detroit, que entrou em colapso com o declínio da indústria automobilística nos anos 90, apostou na revitalização verde em 2014.

Hoje, Detroit tem 1.600 fazendas e hortas orgânicas que fornecem alimentos a 50% da população da cidade gratuitamente. Cerca de 8 mil voluntários trabalham no cultivo de frutas e legumes.

No Brasil, embora não haja números confiáveis sobre o impacto da agricultura urbana, o movimento é quase inteiramente associado a ONGs e projetos sociais. Um dos principais exemplos na cidade de São Paulo é capitaneado peloa dministrador Hans Temp, que criou em 2003 o Cidade Sem Fome.

O projeto capacita comunidades a criar suas hortas e gerenciar a produção agrícola, vendida para restaurantes e supermercados de bairros. Já são 27 hortas comunitárias que ocupam uma área de 35 mil metros quadrados. Boa parte dos terrenos é cedida por empresas como AES Eletropaulo e EDP Bandeirantes, que têm grandes extensões de terra sob suas linhas de transmissão.

Por aqui, assim como no Vale do Silício, startups querem trazer inovações a uma agricultura ainda em gestação. Criada em Portugal em 2013, a startup Noocity veio para o Brasil no ano seguinte e trouxe seu sistema de módulos para cultivo de hortaliças e legumes, que estoca água e precisa ser reabastecido a cada três semanas.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento reconheceu a tecnologia como uma das mais promissoras na América Latina em 2016. Tudo isso, claro, ainda são os primeiros pasos do que poderá ser algo grande lá na frente. Mas a notícia é boa: nunca tanta tecnologia foi empregada para cultivar a própria alface no quintal

(Revista Exame, edição nº 1.152; digitado pelo BrasilAgro; 20/12/17)