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Correio Popular

Lava-pés, uma praga globalizada

Publicado em 04 março 2011

Por Patrícia Azevedo

A formiga lava-pés (Solenopsis invicta), muito comum no Brasil, é uma das principais pragas invasoras no mundo. Um artigo publicado na revista Science mostra que a formiga se desloca entre países e promoveu uma verdadeira invasão mundial. No estudo, a cientistas Marina Ascunce, do Centro de Entomologia Médica, Agrícola e Veterinária do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, descreve a história do processo de invasão mundial da formiga.

Prejuízo causado pela formiga nos EUA é de bilhões de dólares

A Solenopsis invicta é nativa da América do Sul, mas há um século se deslocou pelo continente e chegou ao Sul dos Estados Unidos, onde se estabeleceu. Segundo os pesquisadores, de lá a formiga migrou para a Califórnia, Caribe, China, Taiwan, Filipinas e Austrália em pelo menos nove invasões distintas.

A pequena formiga causa um impacto econômico grandioso nos EUA. Lá a praga dá um prejuízo de US$ 6 bilhões por ano. A lava-pés afeta comunidades locais de insetos, promovendo desequilíbrio ecológico e favorecendo o desenvolvimento de organismos nocivos à agricultura.

Os cientistas sequenciaram o genoma da formiga no fim de janeiro e prosseguiram os estudos analisando variações genéticas de 2.144 colônias de formigas lava-pés em 75 locais no mundo. A intenção do grupo era traçar a sua proliferação.

Os pesquisadores descobriram que o Sul dos EUA foi o ponto de partida para todas as invasões identificadas. Apenas a invasão a Taiwan aconteceu por meio das formigas instaladas na Califórnia. Eles acreditam que a Solenopsis invicta chegou aos seus destinos por meio de navios e ressaltam que o aumento no comércio e turismo globais pode incorrer em novas invasões da formiga pelo mundo.

Elas causam danos a equipamentos eletrônicos. "Podem causar danos a equipamentos eletrônicos, pois os ninhos podem ser alojados dentro deles. Nesses casos, podem roer os fios elétricos e causar curto-circuitos", conta a pesquisadora Ana Eugênia de Carvalho Campos, da Unidade Laboratorial de Referência em Pragas Urbanas do Instituto Biológico.

Segundo ela, as agressivas lava-pés também podem causar alergias e até choque anafilático em pessoas extremamente sensíveis ao seu veneno. Ana Eugênia conta que são conhecidas mais de 12.600 espécies de formigas, mas estima-se que esse número possa chegar a 20 mil espécies. Apesar de alguns danos, as formigas são organismos extremamente benéficos para todos os ecossistemas terrestres. "Promovem a aeração do solo, incorporam nutrientes no solo, polinizam plantas, são eficientes predadoras de outros artrópodes, manipulam sementes para sua alimentação promovendo a germinação de algumas espécies de plantas, que sem esta interferência não germinariam com sucesso", enumera a cientista.

Ela conta que até mesmo as formigas cortadeiras (como a saúva) são importantes. "Quando presentes em ambientes naturais, elas são fundamentais para promover o crescimento vegetativo de uma variedade de espécies botânicas por causa do corte das suas folhas. Sem as formigas cortadeiras, muitas espécies de plantas correriam o risco de extinção", diz. (Com Agência Fapesp)

Saiba mais

A Solenopsis invicta recebeu o nome de lava-pés por causa da sua característica de subir rapidamente pelas pernas quando alguém pisa no ninho. Quando pica alguém, a lava-pés injeta um veneno de alcaloides que provoca dor intensa. Além de dolorida, sua picada provoca bolhas, alergias e até choque anafilático. A espécie se alimenta de plantas, animais e alimentos domésticos.

Segundo biólogos, a formiga é o bicho mais abundante da Terra. Se for feito um quadrado na floresta Amazônica de 100x100 metros, serão encontradas 8 milhões de formigas no solo.

Casas, Jardins, hospitais; elas estão em todos os lugares

Existem milhares de espécies de formiga, mas as mais comuns no Brasil são a lava-pés em áreas abertas, como calçadas, parques, jardins e praças e áreas rurais. "As formigas cortadeiras, saúvas e quenquéns ocorrem nas plantações e também nas cidades, em quintais, jardins, parques e praças. Outras espécies comuns em residências são a formiga fantasma, a formiga louca e a carpinteira. Essas têm o hábito de fazer os ninhos nas residências, fábricas de alimento e até em hospitais. Em casa causam grande desconforto por freqüentarem os alimentos, nas fábricas de alimento e hospitais servem como vetores de microrganismos, contaminando o alimento, o ambiente e equipamentos esterilizados", conta a pesquisadora do Instituto Biológico Ana Eugênia de Carvalho Campos.

A alimentação varia de acordo com a espécie de formiga. "Algumas são caçadoras e alimentam- se de outros artrópodes, outras são onívoras, comendo de tudo, desde plantas até o alimento humano e as formigas cortadeiras, que usam o material vegetal como base para cultivar um fungo cuja função é alimentar os membros da colônia", acrescenta.

As formigas que encontramos em ambiente doméstico, podem carregar bactérias e fungos. Elas são perigosas quando estão nos hospitais, uma vez que transferem bactérias resistentes a antibióticos de um setor para o outro. Deve- se evitar o consumo de alimentos por onde as formigas passaram. (PA/AAN)