Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Laser mais barato incentiva pesquisa

Publicado em 11 julho 2008

Por Patrícia Azevedo

Equipamentos eficientes e compactos prometem impulsionar estudos científicos principalmente na área de física

O desenvolvimento de lasers contínuos mais eficientes, baratos e compactos do que os encontrados atualmente no mercado promete impulsionar as pesquisas científicas, principalmente na área da física. O mecanismo foi criado pelo Grupo de Lasers e Aplicações do Departamento de Eletrônica Quântica do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sob a direção do professor Flávio Caldas Cruz. “Trata-se de uma inovação no desenho de uma classe de lasers, que pode beneficiar a pesquisa científica através da disponibilidade de equipamentos mais robustos, mais simples e de melhor desempenho”, resume o cientista.

A tecnologia foi descoberta devido à necessidade de novos instrumentos para o desenvolvimento das pesquisas realizadas no Grupo de Lasers e Aplicações. Segundo o pesquisador, os equipamentos existentes são muito caros, mais difíceis de manusear (exigem treinamento para sua utilização) e não são encontrados facilmente no mercado.

Além de ser mais barato e acessível, o novo laser inova por ser um sistema classificado de laser de estado sólido, que emprega um cristal de safira dopado com titânio. Também chamado de laser de titânio-safira, o equipamento pode gerar um feixe contínuo de luz e pulsos ultra-rápidos. Os sistemas convencionais de laser contínuos de titânio-safira custam até US$ 100 mil. “Com a inovação é possível que o custo final caia pela metade”, acredita Cruz. Ele reforça, no entanto, que ainda é prematuro arriscar um valor porque o planejamento da comercialização ainda não foi feito.

A tecnologia desenvolvida no Instituto de Física Gleb Wataghin simplifica o desenho de uma classe de lasers, através de mudanças no projeto óptico. “A inovação reduz as dimensões deste tipo de laser, permitindo montagens extremamente compactas. Além disto reduz bastante o custo e aumenta a eficiência, ou seja, a quantidade de luz extraída do laser em relação à energia fornecida a ele”, explica o pesquisador.

A nova tecnologia permite um tamanho muito menor para este tipo de laser. “Além de ser mais simples e permitir uma significativa redução de custos”, completa o físico. A descoberta também possibilita que os pesquisadores dediquem “menos tempo aos meios necessários para a pesquisa, como a operação e manutenção de instrumentos científicos, muitas vezes sofisticados e que requerem tempo de treinamento e pessoal qualificado”. Isso se reverte em mais tempo dedicado à finalidade última da pesquisa.

O desenvolvimento do novo tipo de laser foi feito ao longo de anos. “Trata-se de uma inovação resultante de um desenvolvimento contínuo e cumulativo realizado através de anos, estimulado pela necessidade de instrumentos melhores, mais simples e de menor custo para atividades de pesquisa na área de fotônica e manipulação de átomos com laser do Instituto de Física da Unicamp”, resume Cruz.

Investimento

O invento, cujo pedido de patente foi protocolado no final de 2007, está pronto para ser transferido para a indústria e deve estar no mercado em até um ano. “Mas depende de investimentos para colocação do produto no mercado nacional e internacional”, completa o pesquisador. Cruz conta que um protótipo foi testado com sucesso em laboratório.

Segundo o cientista, a tecnologia está pronta para ser aplicada em escala industrial. Faltam, segundo ele, definir apenas aspectos que otimizem a etapa de produção e o design final do equipamento. O pedido de registro da patente do invento foi efetuado por meio da Agência de Inovação Inova Unicamp. De acordo com o pesquisador, em um ano, a tecnologia deve ser registrada em outros países que têm maior mercado para esta tecnologia, como Estados Unidos e países da Europa e Ásia. “Para isso estamos depositando uma patente provisória em outros países em 2008, posteriormente as patentes internacionais serão depositadas”, completa Cruz.

E a expectativa é de que o invento desperte o interesse da comunidade científica. “Em nossa opinião, o invento deve gerar grande interesse, em razão das vantagens que oferece e por aplicar-se a outros tipos de laser e não apenas ao titânio-safira”, argumenta.

A pesquisa de Cruz contou com apoio do Centro de Pesquisa em Optica e Fotônica, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Tecnologia tem aplicações no cotidiano da população

Muita gente pensa que as pesquisas científicas desenvolvidas em caros laboratórios de física só estão sob o alcance da comunidade científica. O que muitos sequer imaginam é que esta nova tecnologia desenvolvida no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo professor Flávio Caldas Cruz tem aplicações no cotidiano do resto da população.

O professor conta que o laser contínuo tem aplicação, por exemplo, no processo de gravação de CDs e DVDs. “É uma classe de lasers que é usada para a detecção de poluentes na atmosfera, análise química, metrologia de comprimento e tempo, resfriamento de átomos com laser, holografia, gravação de CDs e DVDs”, explica o físico.

Cruz conta que o benefício para a população é indireto, uma vez que estes lasers são usados como ferramentas para várias pesquisas. “Redução de custos e simplicidade, duas das vantagens desta inovação, são fatores que costumam contribuir para a disseminação do uso de determinada tecnologia”, completa. (PA/AAN)

SAIBA MAIS

O laser, que significa amplificação da luz por emissão estimulada de radiação, é um dispositivo que produz

radiação eletromagnética com características especiais: ela é monocromática (possui freqüência muito bem definida) e coerente (possui relações de  fase bem definidas), além  de ser colimada (propaga-se como um feixe).