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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Laplane, o argentino que vai cuidar de estudos estratégicos para o Brasil

Publicado em 26 julho 2011

Luiz Sugimoto

O professor Mariano Francisco Laplane foi empossado na presidência do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) no último dia 20 pelo ministro Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia. Sua missão é gerir estudos que norteiam as políticas públicas voltadas para a ciência, tecnologia e inovação. Ele já deixou a direção do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, mas virá ao menos uma vez por semana a Campinas porque não pode nem gostaria de abandonar algumas aulas regulares e seus orientandos de mestrado e doutorado.

Laplane foi escolhido para quatro anos na presidência do CGEE pelo Conselho de Administração, depois de um concorrido processo de seleção com sete inscritos altamente qualificados. Cientista social graduado pela Universidade Hebraica de Jerusalém, o ex-diretor do IE possui mestrado em economia pela Universidade da Califórnia e doutorado pela Unicamp. "Acredito que contribuiu para minha escolha a longa atividade na área de desenvolvimento político-industrial e políticas de competividade".

O docente supõe que outro aspecto considerado pelo Conselho foi a militância dentro do próprio Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCT&I), primeiro na Unicamp e depois como membro do Conselho Técnico-Científico da Capes e coordenador da área de Economia da Fapesp. "Tudo isso me deu um rico panorama do funcionamento da estrutura e do potencial da ciência brasileira em todas as áreas do conhecimento".

Fanático por futebol, o argentino Mariano Laplane torce pelo San Lorenzo de Almagro e, no Brasil, em detrimento dos times grandes e da Ponte Preta, escolheu a torcida do Guarani - "é parecida com as da Argentina" - para continuar frequentando o estádio. "Não fazia sentido torcer pelo Flamengo diante da televisão". Na entrevista abaixo, o bem humorado economista não vai fugir da provocação de que, fosse futebol, o nosso torcedor ficaria com a pulga atrás da orelha ao ver um argentino pensando estratégias para o Brasil.

Portal da Unicamp - Qual é o papel do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos?

Mariano Laplane - O CGEE foi criado em 2001 e, ao longo desses dez anos, veio sofrendo mudanças e ajustes. Hoje atua vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, que através do órgão realiza estudos visando otimizar o funcionamento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Em alguns casos os estudos são prospectivos, em outros de avaliação da eficácia de políticas para fortalecimento e expansão do sistema, ou ainda para buscar alternativas de reposicionamento institucional.

Portal - E como está estruturado o CGEE?

Laplane - O CGEE possui uma capacidade própria e de muita qualidade para realizar determinados estudos, mas procura utilizar esta capacidade para coordenar a participação de outros atores. Os trabalhos normalmente mobilizam toda a comunidade do SNCT&I que, como em qualquer país, é bastante complexo, envolvendo instituições de ensino e pesquisa, instituições somente de pesquisa, interlocutores do setor privado que fazem inovação, associações científicas. Uma coordenação ágil é essencial.

A equipe é de aproximadamente 40 pesquisadores e igual número de funcionários administrativos; quando acionado pelo MCT, pode contar com colaboradores ad doc, cuja participação se inicia e se encerra junto com um estudo. Esses números variam muito, dependendo do volume, duração e tema da pesquisa. No momento, existem perto de 90 ações em execução, com participação de uma quantidade enorme de instituições. Mais de 80% dos estudos resultam de demandas específicas do MCT.

Portal - Quais prioridades o senhor elegeu para a sua gestão?

Laplane - O CGEE já tem certa quilometragem e uma personalidade. Nos últimos quatro anos, durante a gestão da professora Lúcia Melo, ele passou por uma etapa de consolidação, visto que o surgimento de um órgão novo em sistema tão complexo sempre provoca tensões - era preciso encontrar seu posicionamento, que os outros entendessem sua função. Esta etapa foi cumprida e o que pretendo é uma combinação de continuidade com o aprofundamento desta identidade do Centro, que já goza de prestígio dentro do sistema. Acho que devemos explorar este potencial basicamente em três direções. A primeira é fornecer com muita agilidade as informações nas três linhas de atuação - ciência, tecnologia e inovação. O SNCT&I não existe no ar, ele sente que deve responder às demandas e desafios que a própria evolução da economia e da ciência mundial coloca para o Brasil.

Portal - Realmente, agilidade parece uma questão central.

Laplane - Por que enfatizar a agilidade na obtenção, processamento e interpretação das informações, seja em estudos prospectivos, de avaliação das políticas ou de reposicionamento institucional? Porque temos um mundo numa crise, profunda e duradoura, que não é a primeira nem será a última. E o que aprendemos de crises anteriores, no que diz respeito aos esforços e estratégias dos países ricos, é que eles sempre procuram uma porta de saída na inovação e no desenvolvimento científico e tecnológico: novas oportunidades, novos produtos, novos processos, novos materiais. Este investimento é a receita universal para sair de qualquer crise. Sabemos que os países ricos, mesmo atormentados por todas as questões fiscais e cortes e mais cortes no orçamento, estão ampliando seus esforços em desenvolvimentos científicos e tecnológicos e inovação - e fazendo com que este conhecimento chegue rapidamente ao sistema produtivo.

Precisamos, então, fazer prospecção com agilidade e ver para onde esses países apontam. Identificando esse movimento dos ricos e os avanços que conquistam, podemos descobrir oportunidades para o Brasil. Não é apenas por conta da crise, mas toda a economia mundial vem evoluindo na direção de uma maior consciência da questão ambiental, dos recursos naturais, dos impactos da produção e do consumo. E tem havido avanços, que a crise só potencializa. Devemos estar atentos para essa questão.

Portal - Em termos de recursos naturais, muitas oportunidades surgem para nós.

Laplane - É outro ponto que ia mencionar. Independentemente da crise e da questão ambiental, a economia mundial tem trazido novas oportunidades no agronegócio pujante, na mineração, na biodiversidade. Mas também sofremos ameaças, precisamos ser responsáveis no uso dos nossos ricos recursos naturais, mesmo daqueles que são renováveis - não é só o petróleo, a floresta e a água também podem acabar, o que requer consciência cada vez maior sobre as implicações da produção de alimentos e do uso de defensivos agrícolas em grande escala no solo e na água. Isso não deve nos apavorar, nem levar a atitudes ingênuas: então não se mexe, então não se faz. O pulo do gato está justamente em conseguir preservar quantidade e qualidade, mas aumentando a produtividade de alimentos e a exploração de minérios e do petróleo. Disso depende o bem-estar das futuras gerações de brasileiros. Por isso, considero uma prioridade aumentar a capacidade do CGEE de fornecer informações e respostas às demandas do Estado e da sociedade com muita agilidade.

Portal - Quais seriam as outras prioridades?

Laplane - A segunda é a internacionalização, o que é fácil de entender: o Centro não funciona sozinho, é peça de um grande sistema, e não apenas do brasileiro, pois todos os outros países têm seus sistemas e órgãos semelhantes dentro deles. Devemos fortalecer o intercâmbio, a capacidade de diálogo e cooperação com agências similares de outros países, em particular daqueles que enfrentam problemas e desafios parecidos com os nossos - ou que já enfrentaram, com graus de sucesso variáveis. O Centro também tem um reconhecimento internacional importante e devemos tirar proveito disso. A terceira prioridade é enfatizar o fortalecimento da capacidade dos nossos recursos humanos. O Centro consegue desenvolver enorme quantidade de ações, com uma equipe relativamente compacta, porque são pessoas extremamente qualificadas.

Portal - Em sua opinião, quais são os desafios colocados ao SNCT&I?

Laplane - É visível a ênfase e a compreensão do atual governo de que o Brasil precisa dar um salto muito importante e muito rápido na sua capacidade de traduzir o conhecimento gerado na academia e nos institutos de pesquisa em produção de bens e prestação de serviços de qualidade para a população. A ciência brasileira tem progredido e nossa capacidade começa a ser percebida no mundo inteiro, mas temos esse calcanhar de Aquiles. Outro desafio é melhorar a qualidade de vida da população. Economicamente, conseguimos promover inclusão social, com certa redução da pobreza e da desigualdade, mas isso não basta. Os indivíduos colocados para dentro do mercado e transformados em consumidores vão querer se tornar também cidadãos: ter iluminação, segurança, transporte público de qualidade, saúde, habitação, educação - já querem, com toda a justiça. Precisamos aprender a traduzir a nossa capacidade de conhecimento em resultados. Disse na minha posse que é preciso combinar inclusão social com inclusão de conhecimento, a fim de melhorar a vida da população.

Portal - O senhor é argentino. De quando vem a sua ligação com a Unicamp?

Laplane - Estava nos Estados Unidos, onde fiz mestrado, com possibilidade de lá permanecer. Mas já tinha muito tempo longe da Argentina e, com três filhos que precisavam de escola, senti enorme necessidade de voltar para a nossa América. Vim ao Brasil por causa da Unicamp, para fazer o doutorado em 1983, depois de receber informações de brasileiros com os quais jogava futebol aos domingos, no campo da Universidade de Berkeley - na Argentina não havia doutorado e sua pós-graduação continua pouco desenvolvida. Vocês precisam ter consciência de que o Brasil é único país da América Latina que tem um sistema de pós-graduação complexo, consolidado e de altíssima qualidade.

Como o Brasil fica tão perto, pensei em cumprir dois anos de crédito e depois voltar para a Argentina escrever minha tese, mas me apaixonei pela Unicamp. Primeiro pelo Departamento de Economia: tendo passado por vários países, nunca tinha visto um esforço coletivo e sistemático para desenvolver ideias originais sobre economia, e não uma reprodução de conceitos consagrados nos manuais norte-americanos e franceses - nem no departamento de Berkeley, um dos melhores do mundo. Depois me apaixonei por Campinas, onde me senti rapidamente à vontade e decidi que criaria meus filhos. E, na medida em que fui viajando a trabalho, me apaixonei pelo Brasil, por estranho que pareça um argentino se apaixonar pelo Brasil.

Portal - Sendo um amante do futebol, não acha que nosso torcedor pode ver com desconfiança um argentino cuidando de estudos estratégicos para o Brasil?

Laplane - Isso me passou pela cabeça. Acho natural a observação, mas tenho muita clareza, por ter vivido na pele, que o Brasil é um país extremamente generoso. Com tantas carências e pessoas necessitando do básico, não havia nenhuma razão para receber um estrangeiro e dar-lhe uma bolsa do CNPq para o doutorado numa universidade pública gratuita; e, em 85, ter me oferecido uma vaga de docente, quando nem havia concurso. Poucos países possuem esse grau de generosidade e abertura. Gostaria que todo brasileiro soubesse que tenho uma enorme gratidão pelas oportunidades que me foram dadas. Ser argentino não muda nada, pelo contrário, me faz sentir mais devedor do que se tivesse nascido no Brasil.

De mais a mais, me perguntam várias vezes se ainda tenho um vínculo afetivo com a Argentina, ou mais diretamente: quando jogam Brasil e Argentina, para quem torço? Respondo que torço pela Argentina contra qualquer outro país, assim como pelo Brasil. Mas quando se enfrentam Brasil e Argentina, meu amigo, tenho um problema sério. Tenho pela Argentina um amor de filho (lá estão meus irmãos e parentes, há a memória dos meus pais já falecidos), é um amor filial. E o Brasil é um caso de paixão: você pode amar seu pai, sua mãe e, ao mesmo tempo, se apaixonar por uma mulher, é isso.

Portal - Mas, afinal, num jogo Brasil versus Argentina, para quem o senhor torce?

Laplane - Fico dividido, me dá um desconforto muito grande. Torço para que esses jogos não aconteçam, como na Copa América, quando os dois não se cruzaram. Tanto brasileiros como argentinos sonham com uma grande final entre Brasil e Argentina na Copa do Mundo. Para mim, não é sonho, é pesadelo.