Notícia

Revista Globo Rural

Lapidação do zebu

Publicado em 01 junho 2003

Por LUIS ROBERTO TOLEDO
A BR 050, rodovia que liga o norte paulista ao sul de Goiás, recebe um apelido ao atravessar o Triângulo Mineiro, nas proximidades de Uberaba: 'Vieira Souto do zebu'. A comparação com a avenida à beira-mar do bairro carioca de Ipanema - onde estão alguns dos endereços mais famosos e tradicionais do Rio de Janeiro - não é sem razão. Uberaba é conhecida como a capital do zebu, o gado de origem indiana, e a rodovia é sua principal vitrine. A cidade tem se consolidado como o centro irradiador do que há de melhor entre as raças zebuínas praticamente desde que os primeiros animais começaram a ser trazidos da Índia, na segunda metade do século 19. A avenida reúne recintos para leilões, duas centrais de coleta e venda de sêmen bovino, alguns dos principais criatórios voltados à seleção e melhoramento genético e as estrelas mais cintilantes da elite do zebu no país. A principal atividade local é o apuro genético das diversas raças que compõem a grande família do gado zebu - nelore, gir, tabapuã, brahman, guzerá, indubrasil e sindi. Forjar o superzebu, o boi ideal em conformação (que produz maior quantidade das carnes mais valorizadas) e precocidade (para diminuir o tempo de abate e garantir carne mais macia) é o objetivo desses fazendeiros modernos. Esses animais turbinados valem ouro. Na fazenda Nova Índia, onde se construiu até um prédio inspirado em um palácio indiano, reina o touro Ranchi da Fazenda Ipê Ouro. Há 4,5 anos em coleta, Ranchi já produziu 120 mil doses de sêmen, o que garantiu faturamento de 3 milhões de reais, em valores corrigidos. Na Chácara Mata Velha, propriedade da Brasif Pecuária, vivem as nelores Fairany, comprada há dois anos por 910 mil reais; Olímpica, que teve metade de sua posse arrematada no ano passado por 1,6 milhão de reais; e Helen da Terra Boa, adquirida por um consórcio que inclui a Brasif por 1,19 milhão de reais, o valor mais alto dos leilões da ExpoZebu neste ano. Esta feira de Uberaba, a maior do ramo, movimentou no mês passado 68 milhões de reais apenas com a venda de animais em leilão. Estar com a mercadoria exposta nesta vitrine é valioso neste ramo de negócios. O pecuarista Jovelino Mineiro, que concentra a maior parte das suas atividades em São Paulo, pretende inaugurar em setembro, na 'Vieira Souto', um ponto de venda de material genético da raça brahman. Mineiro é um peso-pesado da atividade. Está financiando metade de uma pesquisa pioneira que será desenvolvida pela Fapesp - Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, que pretende decifrar parte do código genético do nelore (leia 'Boi transgênico?'). O produtor também participa de um projeto com a Unesp - Universidade Estadual Paulista, que desenvolve o chamado novilho superprecoce, um boi que atinge 16 arrobas em apenas 20 meses. APERFEIÇOAMENTO O melhoramento genético é a ponta mais tecnológica e glamourosa de um negócio bilionário e pulverizado. Os zebus compõem cerca de 80% do plantel nacional, estimado em 170 milhões de cabeças - o maior rebanho comercial do planeta. Ou seja, são compostos predominantemente por zebuínos os 35,5 milhões de animais abatidos, os 7 milhões de toneladas de carne produzidas no país e o milhão de toneladas de carcaças exportadas no ano passado. Pode-se inferir que o valor bruto da produção de carne das raças de origem indiana, dentro das fazendas, representou mais de 16 bilhões de reais em 2002, usando-se como base os 20,8 milhões de reais estimados pela CNA - Confederação Nacional da Agricultura, como valor total do segmento no ano passado. É o principal negócio da agropecuária brasileira, maior até do que a soja. O rebanho está em constante aperfeiçoamento. Nos últimos 10 anos diminuiu em cerca de 20% a idade média de abate, graças principalmente a melhorias na alimentação, segundo a consultoria FNP. Também houve avanços genéticos na população bovina, que em cerca de 70% dos casos já apresentam algum traço de melhoramento. Na outra ponta, a dos mais eficientes rebanhos comerciais, a produtividade dobrou. Eles atingiam o peso ideal para abate aos cinco anos, enquanto hoje já podem chegar ao frigorífico com metade dessa idade graças apenas ao melhoramento genético, segundo José Olavo Borges Mendes, presidente da ABCZ - Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, sediada em Uberaba. "O potencial genético dos animais criados aqui é repassado cada vez com mais rapidez ao gado comercial", garante Mendes. Apesar dos avanços, os custos de se trabalhar com material genético de primeira linha nem sempre cabem no bolso do produtor médio (leia "União barateia tecnologia"). "A alta genética ainda é para poucos. Não existe no mercado um 'touro popular'", reclama José Vicente Ferraz, diretor da FNP. Mesmo entre a nata dos superzebus, ainda há o que ser lapidado. "Hoje, valoriza-se o animal com costelas de maior profundidade, proporcionais aos membros, para suportar mais volume de carne", indica Rômulo Kardec de Camargos, diretor da Brasif Pecuária. A vaca nelore Página, que pertence à Brasif e recebeu neste ano o título de grande campeã da ExpoZebu, é, de acordo com Camargos, um ótimo exemplo do que a seleção de animais de elite procura atualmente. "Ela associa o pedigree e a beleza racial à funcionalidade", justifica, explicando que Página, que completa agora 27 meses, pariu antes dos dois anos e já está prenhe novamente. O preço elevado desses animais não está ligado apenas a suas qualidades, mas também às possibilidades atualmente oferecidas pela ciência de melhor aproveitamento e multiplicação da genética de primeira classe. Na Agropecuária Diamantino, outra propriedade com acesso pela BR 050, são usadas técnicas como a transferência de embriões e a fertilização in vitro no programa de melhoramento. Segundo Frederico Diamantino, responsável pela condução do negócio, deverão ser obtidos 300 embriões que serão futuramente utilizados como gado de pista e 600 bezerros, que servirão como base para a formação de tourinhos de campo. No Rancho da Matinha, em Uberaba, onde são produzidos animais de elite a pasto, a ênfase recai na busca pela precocidade sexual. Luciano Borges Ribeiro, o proprietário, afirma que seu principal interesse está em preparar animais aptos a reproduzir em condições de campo. "Mas é imprescindível que a seleção tenha por base informações científicas", afirma o pecuarista e engenheiro civil, que há oito anos mantém parceria com pesquisadores do campus de Ribeirão Preto da USP - Universidade de São Paulo, para avaliação genética do rebanho e aplicação do programa de melhoramento. PRECOCES Ribeiro quer fêmeas que atinjam a maturidade sexual por volta dos 14 meses de idade, para que essa característica possa chegar aos rebanhos comerciais. Isso adiantaria a entrada no período reprodutivo em mais de um ano. Atualmente, ele mantém na Matinha um lote de 25 fêmeas com mais de um ano e meio de vida que emprenharam com aquela idade. No ano passado obteve 17 fêmeas com essa mesma condição; delas, 11 efetivamente conceberam, mas duas não tinham leite suficiente para manter bem suas crias. "É um processo contínuo, que vai melhorando ano a ano, no qual também são avaliadas outras características, como a habilidade materna, por exemplo", ressalta o pecuarista. Essas vacas precoces irão gerar os touros usados na reprodução da fazenda e que serão multiplicados para a venda a outros produtores. Eduardo Penteado Cardoso, da Fazenda Mundo Novo, também é criador de animais de "elite a pasto". A genética de seu rebanho é da chamada linhagem Lemgruber. "É dela que provêm os nelores mais antigos dos quais se têm registro no país, datados de 1878", conta Cardoso. O nome da linhagem é devido a Manuel Lemgruber, fazendeiro de Carmo, RJ, que trouxe os primeiros exemplares da Inglaterra, de uma companhia especializada em animais para circos e zoológicos, já que à época era mais fácil encontrar zebuínos nesses locais do que no campo. A empresa de fertilizantes Manah manteve um rebanho com sangue dessa linhagem em Brotas, SP, de 1974 até dois anos atrás, quando a companhia foi incorporada pela multinacional Bunge, que se desfez dos animais. O rebanho de 3,6 mil cabeças foi adquirido por Eduardo e seu irmão, Fernando, que acharam por bem fazer os animais "migrar" para a Mundo Novo, na região da "Vieira Souto do zebu". Ou melhor, da "Avenida Paulista do nelore", como se refere Eduardo Cardoso, nascido em São Paulo. Os exemplares Lemgruber, de acordo com o pecuarista, são rústicos, robustos e apresentam couro mais abundante na barbela, por exemplo. "Esse local tem mais glândulas sudoríparas, funcionando como um radiador para o animal, 'refrigerando-o' com mais eficiência", conta Cardoso. Como a linhagem se manteve "fechada", sem muita interferência de outro sangue, é uma boa alternativa para cruzamentos, uma vez que as importações de zebuínos da Índia estão proibidas desde a década de 60 por questões sanitárias. SANGUE NOVO Evitar a endogamia em rebanhos nelore, aliás, vem se tornando uma questão complexa, em virtude desse impedimento e também pela disseminação de material genético de determinados exemplares, que somam dezenas de milhares de doses de sêmen comercializados no país todo, tornando os rebanhos muito aparentados. Em virtude disso, a Brasif Pecuária há dois anos está envolvida no projeto de seleção de animais e montagem de laboratório na Índia. A idéia é coletar embriões e submetê-los a tratamento para a isenção de contaminação por aftosa e outros doenças. "Já temos 30 exemplares registrados pela ABCZ para produzir embriões que trarão um 'refrescamento de sangue' para o plantel brasileiro", conta o diretor Rômulo de Camargos. "Este ano talvez já consigamos autorização do governo brasileiro para fazer as primeiras importações". O laboratório foi montado em Ongole, província de onde veio a maioria dos animais que formaram o nelore no Brasil - essa raça não existe na Índia, sendo Nelore, na verdade, o nome do porto onde eram embarcados os bovinos que vieram para cá. A renovação do intercâmbio com a Índia pode ajudar os zebuínos brasileiros a alcançar mais rapidamente um objetivo bastante ousado: a conquista do mundo. A ABCZ já deu o primeiro passo, criando um núcleo de exportação para fomentar o envio de animais vivos e material genético das raças de origem indiana, denominado Brazilian Cattle Genetics. Os principais alvos são os países da América Latina e África, nos quais os zebuínos têm tudo para apresentar a mesma adaptação que no Brasil. A intenção é passar a comercializar anualmente 300 mil doses de sêmen, 20 mil embriões e 35 mil animais vivos. Até 2007, a ABCZ espera arrecadar com essas operações o equivalente a 200 milhões de dólares. Colaborou Daniel Tavares BOI TRANSGÊNICO? Os genes da principal raça brasileira, a nelore, equivalente a 80% da população de zebuínos, serão esquadrinhados até o final de 2004 por um estudo pioneiro, batizado Projeto Genoma Funcional do Boi. A idéia é desenvolver produtos e tecnologias que possam ajudar os pecuaristas a obter maior produção. "Queremos descobrir, por exemplo, os genes responsáveis por características que trazem vantagens comerciais, como precocidade sexual, maciez da carne e resistência a doenças e parasitas", diz um dos coordenadores do projeto, Luis Lehmann Coutinho, pesquisador da Esalq - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. São todos gargalos da pecuária. Somente no combate ao carrapato gastam-se 2 milhões de dólares por ano no país. Na primeira etapa serão coletados tecidos para a formação de uma biblioteca de genes e, em seguida, será realizado o seqüenciamento de 100 mil fragmentos de DNA do nelore, o que corresponde a aproximadamente 3% de seu material genético. "O projeto vai possibilitar o melhoramento da raça, a produção de medicamentos e, no futuro, possivelmente também a produção de animais transgênicos", afirma Coutinho. O custo do projeto, de um milhão de dólares, é dividido meio a meio entre a Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo, e a Central Bela Vista Genética Bovina, do produtor Jovelino Mineiro. Nesta batalha da guerra comercial pelos mercados mundiais de carne, o Brasil sai na dianteira. Os Estados Unidos devem começar pesquisa semelhante somente em setembro. RECEITA DO SUPERZEBU Conheça algumas das características que os melhoradores vêm procurando imprimir ao gado zebuíno: - aumento do volume da garupa, onde estão os cortes mais nobres da carne; - corpo com maior profundidade (costelas mais compridas) e amplitude (maior arqueamento e largura); - precocidade sexual de machos e fêmeas; - primeira parição antes dos dois anos de idade e prenhezes anuais; - habilidade materna, isto é, fêmeas que permanecem junto às crias e com boa produção de leite; - bom ritmo de ganho de peso, e não apenas grande peso; - resistência a doenças e ectoparasitas, como mosca-do-chifre e carrapato; - temperamento dócil mesmo nos reprodutores, para evitar problemas no manejo; - bom acabamento de carcaça, com mais musculatura e gordura superficial, desejável para proteger a carne durante congelamento. UNIÃO BARATEIA TECNOLOGIA O acesso ao melhoramento genético não é exclusivo dos grandes produtores, mas a falta de informação, a dificuldade com o transporte do sêmen e os custos dessa tecnologia restringem o acesso dos pequenos criadores. No Brasil, a formação de cooperativas, sobretudo as de leite, ainda é uma das principais alternativas aos produtores de menor porte. Na região de Uberaba, MG, por exemplo, a Coopervale se organizou para melhorar pequenos rebanhos, cobrando em média 10 reais pela dose de sêmen holandês ou gir, além de pequenas taxas. Por enquanto, apenas 60 dos mil cooperados se interessaram pelo programa. "Mas quem faz não se arrepende, pois conseguimos aumentar a produção de leite de 10 para 25 litros diários por animal em algumas fazendas", conta Ricardo da Silveira, coordenador de inseminação da Coopervale. No Rio Grande do Sul, a Emater - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, incentiva a formação de grupos para dividir os custos da compra de um botijão de conservação de sêmen e da profissionalização de um cooperado para inseminar as vacas da localidade. Atualmente, há mais de 100 grupos de inseminação no sul do estado, em cidades como Pelotas, Rio Grande, Morro Redondo e Canguçu. Há três anos, a Emater-RS e a Embrapa Clima Temperado se uniram no "Clube do Embrião", projeto atuamente em fase de teste para a venda a preços mais acessíveis de produtos de vacas holandesas e jersey. Segundo a veterinária da Emater gaúcha Mara Helena Saalfeld, um embrião que vale no mercado mais de 7 mil reais poderá ser vendido por aproximadamente 150 reais.