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O Eco

Lagarto invasor desembarca na Baixada Santista

Publicado em 28 março 2017

Por Daniele Bragança de Souza

Moradores da Baixada Santista, litoral de São Paulo, já estão familiarizados com aqueles lagartos esverdeados, com uns 15 centímetros de comprimento, que vivem nos quintais e até mesmo dentro das casas. Com o dobro do tamanho de uma lagartixa doméstica, eles podem inflar a pele na altura da garganta e exibir um atrativo colorido. Mas para pesquisadores, a presença dele no Brasil foi uma surpresa e é um risco.

Ele foi identificado como o Anolis porcatus, espécie endêmica de Cuba, portanto exótica no Brasil, que já chegou à Flórida (Estados Unidos) e à República Dominicana, onde pelo que se tem notícia expulsou espécies nativas de Anolis que viviam por lá. No litoral paulista, ele foi encontrado apenas em ambientes domésticos. Mas ainda não foram feitas buscas em outras áreas.

“O problema é que a espécie, do ponto de vista ecológico, é muito flexível, ocorre em áreas de mata em Cuba, está no dossel de árvores, está em savanas. A preocupação é que saia do ambiente doméstico e ocupe outros ambientes do Brasil”, afirma o herpetólogo Ivan Prates, que estuda a relação deste gênero de lagartos com alterações climáticas, durante o doutorado na Universidade da Cidade de Nova Iorque (EUA).

A imagem do lagarto chamou a atenção de Ivan Prates em agosto de 2015, quando foi postado em uma rede social pelo então estudante de biologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Santos, Ricardo Samelo. Era um animal diferente das espécies conhecidas no Brasil. Tinha cor, proporção do tamanho do crânio e cristas que o diferenciavam da espécie de Anolis conhecida da Mata Atlântica.

Prates entrou em contato com Samelo e aproveitou uma vinda ao Brasil para descer à Baixada Santista e encontrar o bicho. Foram identificadas populações do lagarto em Santos, São Vicente e Guarujá, sempre perto de áreas onde existe infraestrutura portuária.

Em princípio, suspeitava-se que era uma espécie nativa dos Estados Unidos (A. carolinensis), um pet exótico. Algum bicho de estimação poderia ter escapado e dado origem a uma população local. Porém, estudos genéticos revelaram que se tratava de outra espécie, nativa de Cuba. Os pesquisadores acreditam que tenha chegado ao Brasil, transportado em contêineres, a partir da Flórida, onde o bicho chegou há algumas décadas.

Os estudos para coletar e identificar o lagarto foram financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Fundo Nacional de Ciência dos Estados Unidos. A ocorrência foi descrita no South American Journal of Herpetology.