Notícia

Jornal da USP

Labores recompensados

Publicado em 05 outubro 2009

Inaugurada no dia 29 de setembro no Departamento de Letras Modernas, a Cátedra de Estudos Irlandeses William Butler Yeats é o ponto culminante de quase três décadas de pesquisas na USP sobre a cultura da Irlanda

Para mim, é um dia muito feliz, resumiu a professora Munira Hamud Mutran para falar do dia 29 de setembro, uma terça-feira. "É um momento que eu esperava muito."A data marcou a assinatura do convênio que formalizou a criação da Cátedra de Estudos Irlandeses William Butler Yeats no Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. "A cátedra é o ponto alto da trajetória de 29 anos de estudos irlandeses na USP", salientou a professora Sandra Nitrini, diretora da FFLCH, referindo-se ao núcleo instituído em 1980.

Nessa história, confundem-se a vida da professora Munira com a presença na USP de trabalhos sistemáticos sobre uma tradição literária que deu ao mundo nomes como George Bernard Shaw, Oscar Wilde, Samuel Beckett, James Joyce e o próprio Yeats - para ficar em apenas alguns. A tese de doutorado de Munira Mutran sobre Sean 0`Faolain, em 1977, "representou o início do processo que resultou na formação de um núcleo de estudos irlandeses na Universidade de São Paulo", salientam Zoraide Carrasco de Mesquita e Sandra Mary Stevens num dos artigos do livro A new Ireland in Brazil, publicado no ano passado para homenagear a professora, recém-aposentada.

"Devemos muito à professora Munira Mutran pelo seu entusiasmo e dedicação em fazer a literatura irlandesa melhor conhecida", disse na assinatura do convênio o embaixador da Irlanda no Brasil, Michael Hoey, que veio de Brasília especialmente para a cerimônia. No evento, realizado na Reitoria da USP, Hoey doou à biblioteca da FFLCH um exemplar com reproduções do Livro de Kells, manuscrito ilustrado com motivos ornamentais feito por monges celtas por volta do ano 800. Do vice-reitor da USP, Franco Lajolo, o embaixador recebeu um livro e o selo comemorativo dos 75 anos da Universidade. O vice-reitor manifestou o desejo de que a cátedra impulsione cada vez mais a presença de alunos irlandeses na USP e brasileiros nas universidades da Irlanda.

Ampliação

A embaixada da Irlanda vai doar anualmente 12 mil (cerca de R$ 30 mil), nos primeiros três anos, para a manutenção da Cátedra Yeats. De acordo com Michael Hoey, no futuro a intenção é aumentar esse valor e incentivar outros patrocínios. O convênio formaliza o que já vinha ocorrendo com base em recursos próprios. "Nosso carro-chefe continuará sendo a vinda de escritores importantes", diz a professora Laura Izarra, coordenadora da cátedra. Já estiveram na USP autores como John Banville, em 2002, Colm Tóibín, em 2007, e Claire Keegan, no ano passado.

Para Laura, um dos ganhos mais importantes a partir da assinatura do convênio é a possibilidade de estender os estudos irlandeses de forma interdisciplinar para outras áreas da Universidade. "Nossa ideia é não só oferecer cursos, mas criar fóruns de discussão que reúnam ciências políticas, relações internacionais, antropologia, sociologia, história, literatura, artes, economia etc", ressalta a professora. Os cursos de graduação e pós-graduação, além de outros abertos a toda a comunidade, serão ampliados. Também está nos planos realizar na cidade eventos como mostras de cinema e música da Irlanda.

Para os cursos, devem vir professores irlandeses e de outros países que tenham centros de estudos semelhantes. Além deles, participarão acadêmicos formados na própria USP - a professora Munira foi orientadora de 12 doutores e mestres. Mesmo aposentada, ela continua atuando na pesquisa, na pós-graduação, na, coordenação de publicações e em entidades como a Associação Brasileira de Estudos Irlandeses (Abei), da qual é presidente. Também é responsabilidade sua - desta vez em parceria com o poeta Haroldo de Campos - a celebração do Bloomsday em São Paulo, que ocorre desde 1988. O dia 16 de junho, feriado na Irlanda, marca a caminhada de Leopold Bloom por Dublin no livro Ulisses, de James Joyce.

Dramaturgia

Entre os alunos que a professora Munira formou está Domingos Nunez, diretor da Cia. Ludens, que iniciou em 2004 a produção de peças de autores irlandeses e no momento encena o quarto texto nessa série, O fantástico reparador de feridas, de Brian Friel. A peça, dirigida e traduzida por Nunez, permanece em cartaz até o dia 1° de novembro no Centro Cultural São Paulo. O diretor, que compareceu à assinatura do convênio, foi um dos uspianos pioneiros na bolsa-san-duíche para a Irlanda e permaneceu um ano na Universidade Nacional da Irlanda em Maynooth, a 20 quilômetros de Dublin.

Frutos como esse refletem o resultado de uma das áreas de atuação da professora Munira, que tem se ocupado, entre outras coisas, do teatro contemporâneo irlandês. Ao mesmo tempo, ela prepara a publicação do material que resultou do projeto Da Irlanda para o Brasil - Textos Críticos, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O primeiro volume trará ensaios inéditos em português de Wilde, Yeats e Shaw.

Para a professora, nada melhor do que dar a uma cátedra de estudos irlandeses o nome de William Butler Yeats, poeta e dramaturgo nascido em Dublin (1865-1939) e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1923. "Acho que ele é o maior poeta irlandês", afirma. "Não só poeta, mas também dramaturgo. Ele não é lembrado na sua dramaturgia e principalmente nos seus ensaios críticos, que são essenciais para o conhecimento da literatura."

Em seu discurso na entrega do Nobel, Yeats falou à Real Academia Sueca exatamente sobre o movimento dramático irlandês. "Escolhi esse tema porque, quando lembro a grande honra que vocês me conferiram, não posso esquecer de muitas pessoas conhecidas e desconhecidas. Talvez meu nome jamais tivesse sido enviado se eu não tivesse escrito peças nem crítica teatral, se minha poesia não tivesse qualidade para ser declamada no palco", disse. Por isso, salientou que gostaria de falar "sobre os labores, triunfos e problemas dos meus colegas". Graças aos esforços de acadêmicos como a professora Munira Mutran, parte dos labores, triunfos e problemas do próprio Yeats tem sido finalmente conhecida em português pelos leitores brasileiros.