Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Laboratório se une a empresas em favor da pesquisa

Publicado em 19 março 2019

Gigantes farmacêuticas têm se unido em laboratórios da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) num novo modelo de parceria público-privada com o objetivo de reduzir custos em testes e pesquisas de novos medicamentos. Empresas como Aché e Eurofarma, por exemplo, já desenvolvem desde 2016 moléculas potentes e seletivas para proteínas-alvo específicas que podem resultar em novos medicamentos através de um projeto conjunto com Centro de Química Medicinal (CQMED).

Até o fim deste ano, outras três indústrias farmacêuticas ou de biotecnologia também devem se unir nas pesquisas. Atualmente, o desenvolvimento de uma nova droga pode levar uma década e custar o equivalente a US$ 1 bilhão, um investimento impeditivo para muitas farmacêuticas nacionais. No caso das pesquisas cooperativas e emacesso aberto com um centro, as empresas podem dividir o risco, economizar recursos e reduzir a redundância na pesquisa, ao evitar testes desnecessários com moléculas que não foram aproveitadas anteriormente — vale lembrar que, de cada 10 mil moléculas desenvolvidas, apenas uma chega ao final do processo de pesquisa com evidências científicas robustas para se obterum novo fármaco, segundo dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).

As pesquisas colaborativas seguem o modelo de inovação aberta. No caso do CQMED, o centro foi criado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O modelo estabelece que todo o conhecimento gerado até a fase de validação de moléculas é de domínio público e pode ser usado para o avanço das pesquisas em fase pré-clínica e clínica por grupos acadêmicos ou indústrias farmacêuticas em qualquer parte do mundo.

Após o término dessa fase pré-competitiva, as farmacêuticas que conseguirem aprimorar ainda mais as moléculas iniciais e comprovar a eficácia terapêutica de compostos derivados em estudos clínicos poderão patenteá-las. “A parceria com as indústrias farmacêuticas é fundamental para a identificação e o desenvolvimento de moléculas que possam resultar em novos medicamentos”, disse Paulo Arruda, professor da Unicamp e coordenador do CQMED. Enquanto os pesquisadores do CQMED se dedicam aos estudos de biologia básica — que são o foco do centro —, os pesquisadores da empresa podem se voltar à parte de química medicinal, ou seja, de desenvolvimento de moléculas. Entre os projetos em andamento na Unicamp, o Aché tem desenvolvido inibidores de enzimas ligadas à proliferação celular relacionadas ao desenvolvimento de câncer.

A colaboração nos projetos foi formalizada em 2017 quando o CQMED se tornou uma Unidade de Inovação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Por meio do acordo, a Embrapii passou a dar uma contrapartida financeira a cada novo projeto entre o CQMED e as empresas. No mesmo ano, a Eurofarma também iniciou sua colaboração com o centro da Unicamp. Com investimento inicial de R$ 8,4 milhões por seis anos, o acordo visa pesquisar novas moléculas para o desenvolvimento de medicamentos voltados ao tratamento de câncer pelo Aché, e anti-infecciosos, como antibióticos e antiparasitários, pela Eurofarma.

“A parceria com o CQMED possibilita a realização de projetos para desenvolver moléculas para alvos terapêuticos que ainda não são explorados internacionalmente. Não conseguiríamos fazer esses estudos sozinhos”, disse Gabriela Barreiro, gerente de desenvolvimento pré-clínico da Eurofarma. Outro benefício do acordo, na avaliação de Barreiro, é possibilitar a formação de pesquisadores em desenvolvimento de fármacos no País. Por meio dos projetos, a empresa mantém pós-doutorandos em dois laboratórios de química orgânica da Unicamp.