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O Hoje (Goiânia, GO)

Laboratório estatal chega a técnica disruptiva para etanol de 2ª geração

Publicado em 27 novembro 2020

Por Econômica / Lauro Veiga Filho

A pesquisa brasileira anda a passos largos na produção de inovações para o agronegócio, numa corrida em que os grandes grupos multinacionais ainda levam vantagem. Em algumas áreas, no entanto, a distância pode estar sendo encurtada. A produção de etanol de segunda geração, também conhecido como etanol celulósico, poderá se consolidar mais rapidamente do que o esperado no País, transformando o Brasil em protagonista no mercado global de biocombustíveis, antevê Mário Murakami, diretor científico do Laboratório Nacional de renováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNBR/CNPEM). Imaginava-se que o desenvolvimento de uma tecnologia genuinamente nacional para a produção de enzimas com capacidade para “ descontruir ” a biomassa ignocelulósica, tornando-a disponível para a produção de açúcares simples, não seria possível em menos de uma década. Pois a equipe de pesquisadores comandada por Murakami e pelo diretor executivo do LNBR, Eduardo Couto e Silva, conseguiu o feito em dois anos e meio, uma façanha reconhecida pela revista nature chemical biology. A rota escolhida pelos pesquisadores brasileiros, conforme Murakami, tomou emprestada a mesma técnica de edição genética, conhecida pela sigla CRISPR/Cas9, que levou as cientistas em mau elle charpentier, do Instituto Max Planck, da Alemanha, e Jennifer Dou dna, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA, a compartilhar o prêmio Nobel neste ano. “ Conseguimos alterar geneticamente o metabolismo de uma cepa do fungo Tric hoder maree sei para a produção de um coquetel de enzimas a partir do melaço de cana. Nossa proposta sempre foi desenvolver uma tecnologia nacional competitiva, pensando nas singularidades do setor usineiro ”, comenta Murakami. Atualmente, as usinas utilizam enzimas importadas para transformar palha e bagaço de cana em açúcares utilizados no processamento do etanol, numa tecnologia dominada por empresas europeias e que pode representar metade do custo de produção do etanol celulósico, incluindo o pagamento de royalties.

 

A nova plataforma, que reduz os custos do processo em um quarto aproximadamente, deverá estar no mercado nos próximos dois anos, acredita Murakami. Inovador e mais barato Mais barato do que os concorrentes importados, o bio processo desenvolvido no CNPEM atingiu uma concentração de 80 gramas de enzimas por litro, o que se compara ao valor máximo registrado pela literatura científica nesta área, em torno de 37 gramas por litro para o tipo de fungo definido pelo centro. Murakami atribui os resultados ainda ao ecossistema de inovação instalado em torno do CNPEM, que estimulou o desenvolvimento de uma “ tecnologia tão disruptiva em curto espaço de tempo ”. Numa estimativa, a segunda geração de etanol pode acrescentar 15,0 bilhões de litros à produção brasileira, o que significaria aumentar em 42,0% a produção realizada na safra 2019, que alcançou 35,6 bilhões de litros.

BALANÇO e Segundo Murakami, a robustez e estabilidade da rota tecnológica escolhida para a produção de etanol, além de outros produtos renováveis, foram testadas na planta piloto do CNPEM, que permitiu demonstrar ainda a viabilidade econômica do processo. Na sua visão, o modelo de negócio do setor sucroalcooleiro deverá ganhar maior estabilidade econômico-financeira com a segunda geração de etanol, surgindo ainda a possibilidade de as usinas se tornarem fornecedoras de enzimas para outras finalidades. e Todo o trabalho, prossegue Murakami, permitiu que o CNPEM fizesse o depósito no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) de dois pedidos de registro de patentes, envolvendo, no primeiro caso, o processo escolhido pelos pesquisadores para desenvolver a tecnologia. A segunda patente está relacionada ao microrganismo “ engenheira do ” pela pesquisa, ou seja, o fungo alterado geneticamente para, literalmente, “ digerir ” o melaço da cana e produzir o coquetel de enzimas utilizado para quebrar as ligações de carbono da celulose contida no bagaço e na palha. e Em regime de licenciamento, o laboratório deverá fornecer o fungo alterado geneticamente às usinas interessadas, que terão mais uma fonte de receitas relevante, dando maior estabilidade econômico-financeira ao modelo de negócios já adotado no setor.

As usinas poderão calibrar a cogeração de energia e a produção de etanol conforme as condições de mercado, destinando mais bagaço e palha para uma linha ou para a outra. e A mesma técnica de edição genômica foi adotada por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), da Unicamp, para chegar à proteína que responde pelo controle da resposta do milho a eventos climáticos severos, como a seca, e ainda aciona mecanismos de defesa da planta contra pragas. SG Com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), detalha Paulo Arruda, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenador do GCCRC, a proteína foi descoberta entre outras mais de 30 mil que regulam o metabolismo da planta, com a investigação atingindo a estrutura molecular mais básica, em nível atômico.$ Sob condições normais, a proteína evita que os genes de resposta ao estresse entrem em ação. “ Quando ocorre uma seca ou um ataque por patógenos, os níveis da proteina são diminuídos e o milho desencadeia a resposta necessária para controlar os efeitos da seca, do calor ou do ataque de patógenos ”, detalha Arruda.