Notícia

Comércio da Franca

Lábio leporino: falta de informação diminui eficácia do tratamento

Publicado em 08 setembro 2002

O cirurgião plástico Marcos Grillo, diretor da Clínica de Cirurgia Plástica Marcos Artigas Grillo, de Curitiba, está fazendo um alerta para a falta de informação sobre o lábio leporino, um problema de malformação congênita de origens ainda não totalmente explicadas. Dados da Associação Inglesa de Fissuras Pálato-labiais indicam que uma em cada 750 crianças apresenta o problema ao nascer no Reino Unido. Nos Estados Unidos, essa proporção é de uma em cada 700 crianças. No Brasil, a incidência é uma em cada 650. De acordo com Grillo, a taxa de mortalidade é de 30% no primeiro ano de vida, considerada alta pelos especialistas. "E a falta de informação dos pais é o que geralmente impede o tratamento adequado da criança", diz Grillo. O especialista informa que "quando a criança com lábio leporino é tratada por uma equipe multidisciplinar - formada por cirurgião plástico, pediatra, dentista, fonoaudiólogo, otorrinolaringologista, geneticista, psicólogo e assistente social, desde o nascimento, as chances de uma solução rápida, e portanto com menos seqüelas, são bem maiores", diz. A fissura nos lábios e no céu da boca dificulta a alimentação adequada do bebê e a fala, afeta a dentição e a audição. Com o rosto desfigurado e grande dificuldade de comunicação, estas crianças acabam vítimas de preconceito social, que pode afetar de forma grave seu desenvolvimento psicológico. O QUE É? O lábio leporino é uma malformação congênita que acontece entre a quarta e a décima segunda semana de gestação. Nesta fase da gravidez, três segmentos deveriam se unir para formar o palato e isto não acontece. A criança então nasce com uma ou duas fissuras no lábio superior, quando atinge apenas o lábio, ou sem o céu da boca, quando atinge o palato. Nos casos mais graves ocorrem fissuras no lábio superior e no palato, e ainda atingir o nariz. Há riscos de nascimento prematuro e de anomalias paralelas na região dos olhos, das mãos e de alguns órgãos internos. As fissuras da face correspondem a 25% de todos os defeitos congênitos no Brasil onde se estima que existam 180.000 pessoas com o problema. Dos bebês fissurados lábio palatais, 70% são meninos. No caso das fissuras parciais, a incidência maior ocorre em meninas. A origem desta malformação intriga os médicos. Uma pessoa com lábio leporino tem 4% de chance de ter um filho com o mesmo problema, indicando um componente hereditário. E também indicações de que o consumo de drogas e de certos medicamentos e o contágio com doenças infecciosas como rubéola e toxoplasmose durante a gravidez possam gerar o problema. Entre os medicamentos de risco estão os corticóides, hidantoína (anticonvulsivos), vitamina A artificial e ácido acetilsalicílico (analgésicos). A contaminação por agrotóxicos, exposição a radiações (raio X e outros) e a diabete da mãe também podem contribuir. Um bom acompanhamento pré-natal ajuda a prevenir a ocorrência do lábio leporino, ou diagnosticá-lo antes do nascimento, através da ultrassonografia. De forma geral, o ideal é que a cirurgia reparadora seja feita logo depois do nascimento ou até o terceiro mês de vida. Isto, no entanto, não inviabiliza a correção ao longo da vida. Há casos de pacientes que passaram pela cirurgia reparadora aos 70 anos. A importância de se fazer o reparo mais cedo está ligada às dificuldades geradas pelas fissuras. "Embora a cirurgia seja mais aconselhada nos primeiros meses de vida, adultos que não tiveram acesso à cirurgia quando crianças também podem beneficiar-se de seus resultados", diz Grillo. Além de restaurar a deformação, a cirurgia plástica restaura a função muscular. AMAMENTAÇÃO O tratamento inclui também a orientação sobre como amamentar o bebê. Para que não haja devolução de alimentos, os pais devem alimentar a criança sempre na vertical. Nos casos de grandes fissuras, a comida deve ser dada aos poucos, com uma colher. O tamanho da deformação também pode diminuir a eficiência da cirurgia. Nestes casos, há uma nova tecnologia desenvolvida por uma equipe multidisciplinar do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de São Paulo (USP), divulgada em julho de 2000 pela Fapesp, que substitui a cirurgia pelo uso de próteses especiais. O acompanhamento médico deve ser feito até o completo desenvolvimento da face, que acontece entre os 17 e 18 anos.