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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Labeurb debate as políticas do consenso durante VI Encontro Internacional

Publicado em 31 outubro 2008

Por Jeverson Barbieri

O Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) realiza, de segunda-feira (3) a 6 de novembro, o VI Encontro Internacional Saber Urbano e Linguagem: As Políticas do “consenso”. A abertura está marcada para o dia 3, às 17h30, no Salão Vermelho da Prefeitura Municipal de Campinas. Nos demais dias, a programação ocorrerá no auditório da Agência de Formação Profissional da Unicamp (AFPU), localizado ao lado da reitoria da Universidade. Na página do Labeurb é possível conferir a programação, obter mais informações e até fazer a inscrição, que é gratuita.

Para a professora Eni Orlandi, coordenadora do Labeurb e organizadora do encontro, as reflexões que sustentam esse encontro resultam de um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Trabalhamos durante quatro anos e agora estamos apresentando os resultados desse projeto. Como consideramos importante circular e confrontar as idéias e os resultados, convidamos pesquisadores franceses e tunisianos para esse encontro”, esclareceu Eni. O objetivo, de acordo com a organizadora, é colocar em discussão políticas públicas que estão investidas nos fundamentos da política de consenso. “Dessa maneira, buscamos compreender como o espaço urbano e os sujeitos que o habitam são significados”, afirmou Eni. Confira, a seguir, a entrevista realizada pelo Portal Unicamp com a professora Eni Orlandi.

Portal – O “consenso” é positivo ou negativo?

Eni – O consenso é algo positivo visto do ponto de vista de uma sociedade democrática que precisa encontrar algum consenso sobre o qual ela vai poder organizar políticas públicas. O que estamos questionando é qual o significado de consenso nessa nossa sociedade dita democrática. Porque percebemos que no mesmo lugar que se pensa estar construindo o consenso, também se está construindo a segregação. A questão posta para as políticas públicas, em face dos processos sociais que resultam em exclusão e violência, é de promover mecanismos que permitam criar um espaço público enquanto estância mediadora que permita juntar e separar as pessoas, prevenindo que elas sejam obstáculos umas para as outras, instituindo um bem estar comum.

Portal – A mídia é responsável por isso?

Eni – É uma das responsáveis. O que a mídia faz é justamente ecoar e reproduzir, ao invés de refletir e criticar determinados assuntos. A mídia nem permite que haja uma circulação maior da reflexão sobre aquilo que é público. A mídia está se afastando muito do que é público e está virando realmente um instrumento do poder, mera e simplesmente.

Portal – O que se propõe então?

Eni – O que estamos querendo propor é que se trabalhe na direção inversa da segregação. É preciso reforçar a nossa reflexão sobre encontrar meios de aumentar a possibilidade de contato entre as pessoas, ou seja, nós consideramos que problemas como a segurança são resolvidos na medida em que se reforçam os laços sociais ao contrário de levá-los a uma dissolução e a um enfraquecimento. Da maneira como está funcionando, está acontecendo um enfraquecimento dos laços sociais. Para compreender essas diferenças é preciso, então, que as políticas públicas se fizessem no sentido de recoletivizar os fenômenos que foram individualizados, restituindo esses fenômenos ao processo social no qual eles são produzidos e determinam o que fica fora ou dentro, incluído ou excluído, no centro ou na margem. Isso para nós é uma condição para instituir uma prática democrática.

Portal – O que a pesquisa realizada pelo Labeurb detectou?

Eni – Nós fazemos uma distinção entre o político e as políticas públicas. É possível perceber que as políticas públicas não estão, na verdade, se situando de maneira adequada face ao político. As políticas públicas urbanas promovem, desse modo, mecanismos de identificação que constituem os sujeitos e ao mesmo tempo a materialidade do espaço que resultam das suas práticas no processo em que seu funcionamento apaga o político. Nós achamos que as políticas públicas se assentam sobre o administrativo e o jurídico e o terceiro elemento que está faltando justamente para que essas políticas públicas sejam eficazes no sentido de criar uma sociedade realmente pacificada em que as relações sociais sejam produtivas é o político. Para nós, diz respeito ao funcionamento das relações humanas necessariamente marcadas por relações de poder sendo ele estruturante de todas as instâncias da vida social como as instâncias jurídicas e administrativas, por isso o político deveria estar sendo pensado aqui. Como o funcionamento desse político não é transparente, é preciso reconstituir os mecanismos pelos quais ele opera nessas diferentes esferas como a educação e a web, por exemplo. E quem é, para nós, o grande responsável dessa história é o Estado, porque ele representa numa sociedade como a nossa, o lugar de articulação do político com a sociedade e a gente percebe que o Estado está funcionando pela falha, ou seja, ele não tem estado presente onde deveria estar e com isso essas políticas se falseiam.