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Krieger na posse da nova diretoria da ABC: "Sem uma política clara de expansão geográfica não se atendem às necessidades regionais e não se incorporam novos contingentes de cientistas"

Publicado em 19 abril 2007

A nova diretoria da Academia Brasileira de Ciências (ABC) foi empossada na noite desta quarta-feira, na sede da entidade no Rio, em solenidade muito concorrida

Ela está assim constituída: Presidente — Jacob Palis Junior; Vice-presidente — Hernan Chaimovich Guralnik; Diretores — Evando Mirra de Paula e Silva, Ivan Antonio Izquierdo, Jerson Lima da Silva, Luiz Davidovich e Marco Antonio Zago. De todos eles, só Izquierdo não pôde comparecer.

A cerimônia, assistida por dezenas de convidados, teve três oradores: Eduardo Krieger, que deixava a Presidência da ABC após 14 anos de sucessivos mandatos; Jacob Palis, que assumia o cargo; e o ministro da C&T, Sergio Rezende.

Leia, a seguir, a íntegra do discurso de Krieger:

"Longe vai o tempo em que assumi a presidência da Academia.

Analisar o que foi realizado somente é possível dentro de uma ótica de trabalho coletivo, envolvendo os companheiros de diretoria, os colegas acadêmicos, os funcionários da casa e, principalmente, as circunstâncias nacionais e internacionais que condicionaram as ações e permitiram à nossa Academia exercer com eficiência as suas atividades.

Primeiro, é indispensável reafirmar que na nossa gestão o que era essencial na ABC não mudou, foi dada continuidade à tarefa maior de promover a ciência de qualidade, reconhecer o mérito e premiar a qualidade, elegendo-se anualmente os melhores cientistas nacionais para integrar os nossos quadros.

Isso se fazia antes, nas gestões Aristides Pacheco Leão, Mauricio Peixoto e Oscar Sala, para só citar os presidentes mais recentes, e continuou sendo feito com toda a seriedade assegurando assim a credibilidade tradicional de nossa Casa, e a legitimidade conferida pela qualidade dos seus integrantes.

Evidentes mudanças no cenário nacional influenciaram marcadamente as nossas atividades.

No início de 1990, passadas duas décadas da implantação da pós-graduação, já era notável o crescimento da produção científica brasileira, concentrada em umas poucas regiões, suscitando o desafio de expandir-se a base científica para que os benefícios da ciência, especialmente na educação, tivessem uma maior abrangência nacional.

No entanto, a escassez de recursos gerou impasse inevitável: aumentar os grupos de pesquisa ou apoiar os grupos de excelência existentes.

A nossa Academia nunca aceitou que essas duas vertentes fossem excludentes, mas sim que fossem consideradas complementares, e igualmente importantes para o país.

Sem os núcleos de excelência, carecemos o referencial de qualidade indispensável na inserção internacional, na geração do conhecimento novo que continuamente alarga as fronteiras da ciência e, nos dias atuais, é insumo que alimenta a inovação.

Também, e de forma muito especial, é o local de formação de novos cientistas bem qualificados que irão criar os novos grupos de pesquisa e expandir a pós-graduação.

Por outro lado, sem uma política clara de expansão geográfica não se atendem às necessidades regionais e não se incorporam novos contingentes de cientistas, para aprimorar a educação e promover o desenvolvimento sócio-econômico do país de forma mais intensa, justa e harmônica.

Por isso, a Academia sempre batalhou para que esses dois aspectos da base científica nacional fossem igualmente contemplados nas políticas governamentais.

Outro fato notável, que em muito influenciou nossas atividades, foi a criação dos fundos setoriais pelo grande volume de recursos que mobilizou para o sistema e por exigir para o seu funcionamento eficiente uma nova modalidade de gestão, compartilhada entre o governo, seus diferentes Ministérios setoriais, a comunidade científica e tecnológica e os empresários.

Mudanças no comando do Ministério de C&T alteraram o projeto original de administração dos fundos setorias sem o devido planejamento de novos mecanismos que substituiriam os existentes, prejudicando seriamente o seu funcionamento.

Felizmente, os últimos titulares do MCT, particularmente os ministros Eduardo Campos e Sergio Rezende, empenharam-se para reorganizar a gestão dos fundos, principalmente melhorando a atuação da Finep e acionando mais a competência instalada no CGEE.

A ABC participou ativamente nesse setor mobilizando e coordenando a representação dos cientistas nos comitês gestores, tarefa na qual contou sempre com a parceria da SBPC e dos empresários lá, também, representados.

O estreitamento dessas parceiras foi, e é importante, para colaborar com o MCT na definição das políticas e aprimoramento do sistema de CT&I.

É justo reconhecermos o muito que já foi feito, mas há que se reconhecer o muito que ainda há para fazer. Destacaríamos a aprovação da Lei do FUNDCT que fornecerá os instrumentos legais para a gestão compartilhada dos fundos e, também, de grande importância o funcionamento regular do CCT e suas comissões.

Essas duas instâncias, o Conselho Diretor do FUNDCT deliberando sobre a aplicação das verbas do FNDCT, e o CCT, com o MCT, propondo políticas mais abrangentes para a totalidade dos recursos governamentais investidos no setor, são fundamentais para o aperfeiçoamento do sistema, para criar e implementar uma política de Estado em CT&I, mobilizando o que há de melhor de nossa competência instalada.

Uma palavra é pertinente sobre as relações da ABC e o CGEE, instituição cujas finalidades e objetivos apoiamos desde os momentos iniciais e, principalmente, durante as crises que a envolveram, o que foi destacado publicamente pelo primeiro presidente do CGEE, Evando Mirra, hoje diretor da ABC, que qualificou a relação da entidade com a ABC como ¨o amigo certo das horas incertas¨.

Nada mais expressivo para descrever o reconhecimento da atuação da ABC na criação de organismos de vanguarda e de novas modalidades de gestão em C&T, como são as organizações sociais, do que o fato de a presidência da ABC exercer a presidência dos conselhos de administração do CGEE e do Impa, duas entidades de enorme sucesso e que testemunham o acerto na criação dessa nova modalidade de gestão.

Guardadas as proporções, repete-se o ocorrido na criação do CNPq, quando o Presidente da ABC, Álvaro Alberto, foi eleito Presidente da nova entidade.

Questão sempre delicada e comum às Academias de Ciências mais atuantes em seus países é a relação que elas mantêm com os respectivos governos.

Na França, Inglaterra e EUA, por exemplo, elas receberam desde a criação a incumbência explícita de servir de conselheiras do governo em assuntos de ciência, o que elas fazem até hoje com inteira independência, mesmo recebendo deles financiamentos para os seus estudos e atividades.

Nossa Academia não recebeu mandato legal, mas há muito é reconhecida como entidade que serve a Sociedade e ao Governo em assuntos de ciência.

Isso não impede, no entanto, de mantermos total independência nos estudos e pronunciamentos, fato amplamente reconhecido pelo MCT e as suas agências com quem negociamos contratos para nossas múltiplas atividades ligadas à ciência e a sua promoção junto à sociedade.

Durante a nossa gestão houve seis mudanças de titular no Ministério de C&T, em dois governos de partidos distintos. Com todos mantivemos estreita colaboração e todos estabeleceram diálogo com a ABC desde as primeiras horas, sem haver interrupção nos tradicionais laços de cooperação e do compromisso mútuo de bem servir ao país, no campo da C&T.

A ABC integrou delegação oficial do Governo em visitas ao exterior tanto com o Presidente Fernando Henrique Cardoso como com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o ministro Ronaldo Sardenberg bem como com ministro Sergio Rezende.

Quero destacar que o reconhecimento e legitimidade das posições da ABC estão, e sempre estiveram, diretamente relacionados primeiro com a excelência de seus quadros, o que possibilita que suas manifestações tenham respaldado do melhor conhecimento científico e, segundo e muito importante, porque a ABC só se manifesta em assuntos de sua estrita competência e após os estudos pertinentes, evitando polemizar, mas antes, fornecendo à Sociedade e ao Governo o que se sabe, e o que não se sabe cientificamente sobre determinado assunto, para que se tomem decisões baseadas na melhor ciência.

Quanto à composição dos nossos quadros, houve mudanças importantes em nossa gestão pela inclusão de novas áreas: as ciências da engenharia, da saúde, as agrárias e, também, as sociais e humanas, completando-se assim a representação do todo do saber em nossa Casa.

Mudanças nos estatutos aperfeiçoaram e modernizaram diferentes procedimentos, inclusive o da eleição de novos acadêmicos. A criação de escritório da ABC em Brasília vem sendo de grande utilidade para apoiar nossas atividades na capital e os escritórios regionais, alguns ainda em fase de implantação, são importantes para expandir e descentralizar nossas ações.

Devo constatar, no entanto, que por mais que tivéssemos procurado melhorar a nossa infra-estrutura e, de fato, houve avanços e grande dedicação de nossos funcionários, ela ficou e continua acanhada e defasada frente às enormes necessidades decorrentes do crescimento de nossas atividades, tanto nacionais como internacionais. De um certo modo, estamos sendo penalizados pelo nosso próprio sucesso.

O reconhecimento inegável do papel que a Academia vem desempenhando no cenário nacional certamente auxiliará a nova Diretoria a obter o apoio necessário para aprimorar as facilidades que dispomos.

Nesse particular não se justifica que a nossa Academia fique muito aquém das Academias dos outros países, mesmo de alguns com projeção científica muito menor que a nossa e que têm sedes muito mais representativas.

Seria desejável, também, que o financiamento das atividades permanentes e regulares da ABC fosse assegurado de forma independente das negociações anuais que realizamos com as agências governamentais para projetos específicos.

Em síntese, no cenário nacional foram intensificadas as ações que são inerentes à nossa Casa: promover e ser o referencial da ciência de qualidade, desenvolver projetos de natureza interdisciplinar nas áreas de grande interesse nacional, melhoria da educação, incluindo-se a defesa da Universidade Pública e, principalmente, pleitear para que as políticas de Ciência sejam consideradas como política de Estado e para que um sistema de CT&I aprimorado responda aos anseios de um rápido desenvolvimento sócio-econômico nacional.

No cenário internacional, na última década, as Academias de Ciências, tradicionalmente voltadas em promover a Ciência sensu stricto tornaram-se, também, muito ativas no trato dos grandes temas interdisciplinares que preocupam a sociedade como um todo: mudanças climáticas, água, alimentos, energia, saúde, educação, meio-ambiente e outros tópicos que necessitam de um tratamento global para alcançarmos um desenvolvimento sustentável. Integramos desde os momentos iniciais o Steering Committee para a criação do Inter Academy Panel (IAP) organizando uma das reuniões preparatórias aqui no Rio de Janeiro em 1997.

Na criação oficial do IAP, em Tóquio, em 2000, fomos distinguidos com a eleição para co-presidir a entidade representando os países em desenvolvimento. Em 2003 na Assembléia Geral, no México, quando terminou o nosso mandato, vimos com satisfação o Brasil ser eleito para o Executive Committee do IAP com a maior votação entre as demais Academias.

O mesmo, isto é, a primeira colocação entre os países em desenvolvimento, ocorreu na recondução recentemente votada na Assembléia, realizada em dezembro último, em Alexandria, seguramente refletindo o reconhecimento da atuação internacional de nossa Casa.

Ilustra o destaque alcançado ter sido a nossa Academia escolhida como a líder do programa de águas do IAP. Esse programa, graças a competente coordenação do prof. Tundisi, se tornou um dos programas de maior visibilidade do IAP.

Outro exemplo é o Ianas, a rede das Academias das Américas, que sob a liderança dos professores Hernan e Howard é hoje um exemplo de sucesso dentre as organizações regionais do IAP.

Em Tóquio, em 2000, foi também criado o Inter Academy Council como braço executivo para prospecção e estudos do IAP. A nossa foi uma das 15 Academias eleitas para compor o seu Board e foi reeleita recentemente para mais um mandato.

Nos dois mais importantes estudos realizados pelo IAC, tivemos dois colegas nossos como coordenadores, Jacob Palis no estudo lançado na ONU por seu secretário Kofi Annan Inventing a Better Future e José Goldenberg em Energia.

Recentemente, fomos indicados para coordenar um estudo, com a participação dos co-chairs do IAP e o IAC, para rever a interação entre as duas organizações visando otimizar a cooperação entre elas e o aproveitamento mútuo de facilidades de infra-estrutura.

Na TWAS, nossa atuação tem sido muito intensa desde os primeiros momentos com a presidência do nosso colega, o Acadêmico José Israel Vargas, culminando com a eleição no ano passado do Jacob Palis para presidi-la.

O escritório da TWAS para a America Latina sediado na ABC vem desenvolvendo, sob a liderança do acadêmico Carlos Aragão, importantes atividades na região. Na mais antiga de nossas organizações internacionais, a ICSU, sempre participamos ativamente.

Já ocuparam a vice-presidência da entidade nossos colegas Jacob Palis e José Tundisi e, no momento, contamos nessa posição com o Hernan Chaimovich.

Eu mesmo fui presidente de uma de suas comissões internacionais, o COSTED. Hoje celebramos um ponto alto de nossas relações com a ICSU com a inauguração do seu escritório regional para a América Latina e o Caribe em nossa sede.

Quero reafirmar nossa satisfação por esse acontecimento, cumprimentando o ICSU nas pessoas do seu vice-presidente, prof. Hernan, do seu Diretor Executivo, Thomas Rosswall, da Diretora do Escritório, Alice Abreu e os colegas do ICSU Regional Committee for Latin America and the Caribbean na pessoa do seu presidente, José Antonio de La Peña.

Em síntese, nossa Academia se beneficiou muito de um cenário internacional no qual as Academias, começando pelas mais tradicionais, tornaram-se mais ativistas.

Nos programas de cooperação internacional desenvolvidos pelas 95 Academias que integram o IAP, a ABC é considerada uma das mais atuantes.

Nas reuniões anuais do Science and Technology in Society Forum, em Kyoto, e na elaboração dos documentos das Academias para as reuniões do G-8 nossa colaboração está sendo marcante.

A inauguração hoje do Escritório Regional do ICSU, que se adicionou aos escritórios já existentes da TWAS e do Ianas/IAP, dará à ABC uma oportunidade pioneira de otimizar recursos e as ações dessas organizações internacionais que têm muitas atividades convergentes e complementares.

Evidentemente, não pretendemos apresentar em nossa fala um relatório detalhado de nossa gestão, mas, sim, destacar cenários e acontecimentos ocorridos na esfera nacional e internacional que possibilitaram à nossa Academia ocupar a posição de destaque que certamente ela ocupa hoje, e isso graças ao esforço e dedicação de muitos.

Primeiro graças ao reconhecimento e a possibilidade de participação da ABC na construção das políticas de CT&I do nosso país promovidos pelos ministros Vargas, Bresser Pereira, Sardenberg, Amaral, Campos e agora o ministro atual, o nosso colega acadêmico Sergio Rezende.

Também devido ao apoio e aos projetos realizados em colaboração com o CNPq e Finep e várias Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, em particular a Faperj e a Fapesp. Nossa participação na criação do CGEE, já mencionada, foi plenamente justificada pelo que a entidade representa hoje para o nosso sistema de CT&I, e pela colaboração que estamos mantendo.

Dos funcionários, guardarei a melhor das recordações pela dedicação que devotam à nossa Casa, que deles é também.

A todos quero agradecer e saudar nas pessoas da D. Sônia, nossa secretária e o Storino, um dos mais antigos funcionários da Casa. É justo destacar a atuação de nossa assessoria internacional que, sob a liderança de Paulo de Góes, é hoje reconhecida como uma das melhores entre as Academias do IAP.

Nos múltiplos mandatos - e foram muitos - em todos contei como companheiro de Diretoria o Carlos Eduardo Rocha Miranda, nosso Diretor residente. Espírito nobre, cientista dos mais competentes, verdadeiro Scholar, na sua pessoa quero agradecer a todos os colegas de Diretoria com quem compartilhei esses anos agradáveis em que tive a honra de presidir a ABC.

Minhas última palavras, naturalmente, estão reservadas para saudar e augurar sucesso aos colegas que hoje tomam posse na direção de nossa Casa: o presidente Jacob Palis, o vice Hernan Chaimovich e os diretores Ivan Izquierdo, Luiz Davidovich, Evando Mirra, Jerson Lima e Marco Antonio Zago.

O Jacob já era vice, o Hernan, o Ivan e o Luiz já eram diretores e, portanto, todos com competência amplamente testada e íntimo conhecimento e dedicação à nossa Casa.

O Evando, o Jerson e o Zago constituem o sangue novo, mas possuem todos, além de reconhecimento como cientistas, comprovada experiência administrativa já demonstrada em diversas organizações científicas.

Está, portanto, a ABC de parabéns com a nova diretoria liderada pelo Jacob Palis, um dos exemplos maiores de cientista com intensa atividade em sua área, com prestígio internacional amplamente reconhecido, mas igualmente dedicado as causas maiores da Ciência e da Educação em nosso país, para quais vem dedicando generosamente boa parte de suas atividades e inegável competência.

É com a boa e agradável sensação de dever cumprido que passo a Presidência ao Jacob. Grande parte dessa sensação deriva de sabermos todos que, com o Jacob e os colegas que hoje assumem a Diretoria, o sucesso da ABC está assegurado graças à comprovada competência e dedicação dos seus novos dirigentes."