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Jovens cientistas querem construir carreira no país

Publicado em 16 dezembro 2011

RIO - Houve um tempo em que sair do país era destino inexorável para qualquer cientista que quisesse se destacar. Em um sem-número de áreas, o Brasil estava anos-luz atrás das nações desenvolvidas. A pesquisa parecia fadada ao esquecimento - a iniciativa privada não cultivava qualquer interesse, e o Estado preferia aplicar seus recursos em outras áreas. De uma década para cá, porém, este cenário mudou. Entre 2000 e 2008, houve aumento de 28% no gasto interno bruto em pesquisa e desenvolvimento, segundo a Unesco. O investimento chegou a R$ 32,8 bilhões, maior do que o de Itália e Espanha. E é no meio desta euforia que cresceram os jovens cientistas brasileiros, a maioria determinada a deixar o passaporte guardado e a montar seus laboratórios por aqui. Esta é uma das conclusões de um levantamento inédito do GLOBO feito com cem dos 112 membros mais jovens da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Para renovar seus quadros e se aproximar dos novos talentos, a ABC criou, em 2007, um quadro de membros afiliados, exclusivo para menores de 42 anos. A academia dividiu o país em seis regiões: Rio, São Paulo, Norte, Sul, Nordeste & Espírito Santo e Minas & Centro-Oeste. Cada uma delas elege, entre seus pares, os representantes. A maioria trabalha em áreas de pesquisa aplicada (biologia, física e química) e, como nem tudo muda muito rápido, a pesquisa científica ainda parece um Clube do Bolinha: são 83 homens e apenas 29 mulheres.

Mas, independentemente do sexo ou da região, o otimismo é quase unânime. Entre os entrevistados, 90% acreditam que a qualidade da produção científica brasileira melhorou na última década. Nove por cento consideram-na igual, e um não soube avaliar.

- O nível de publicações aumentou, não só numérica como qualitativamente - avalia o matemático Alexander Mendoza, de 32 anos. - Temos muitas publicações em revistas de alto nível. O fluxo de pesquisadores de outros países vindo ao Brasil aumentou e, assim, expandiu-se o leque de subáreas nas quais se faz pesquisa. Também cresceu o número de estudantes de pós-graduação desenvolvendo trabalhos muito bons.

A criação (ou fortalecimento) de fundos estaduais de amparo à pesquisa faz com que muitos cientistas estejam satisfeitos com a região onde estão instalados. Paulistas não trocam o seu financiamento, vindo da robusta Fapesp, por nada. Biólogos só têm olhos para Amazônia, campo de pesquisa insubstituível, que leva - ou mantém - muitos deles na margem da floresta. Mas a distância dos grandes centros urbanos não é unanimidade.

- Montei um laboratório onde foram investidos mais de R$ 200 mil, oriundos de um projeto alemão e, em parte, do financiamento de um edital do CNPq. Agora tenho um equipamento de R$ 60 mil parado por falta de uma peça de cristal que custa R$ 13.460 - lamenta o biólogo Marcelo Cohen, especializado em oceanografia. - As publicações continuam sendo realizadas por conta do apoio financeiro de projetos de colegas vinculados às instituições paulistas.

Exterior: quem vai quer voltar

Apenas um em cada cinco cogita transferir-se para outro estado. Ir para o exterior também não apetece à maioria, embora 38% digam que trabalhariam fora do Brasil. A diferença, comparando a algum tempo atrás, é que agora eles entram no avião com data para voltar.

- Tenho vontade de fazer pós-doutorado (no exterior). Claro que as condições em alguns países são melhores, mas aqui elas estão melhorando - pondera a biofísica Adriana Fontes. - Temos que apostar no país.

Não é um discurso ufanista, nem um apoio incondicional. Alguns dos entrevistados ressaltaram que, havendo problemas para conduzir seus projetos, o futuro é o aeroporto.

- Passei oito anos fazendo pesquisa nos EUA, onde a facilidade de se fazer pesquisa é ainda inigualável. Voltei ao Brasil com a intenção de fazer o mesmo aqui, mas, caso a situação não mude, penso em retornar - ressalta João Trindade.

O biólogo citou, como principal ponto fraco do país, a burocracia. Trinta e sete de seus colegas também se queixaram da dificuldade para importar materiais e equipamentos, além dos entraves para gerir seus próprios recursos.

Mas a lista de problemas para a ciência - cada entrevistado poderia citar dois - vai além. Corrupção, politização das instituições de fomento à pesquisa, educação básica fraca e falta de infraestrutura são queixas recorrentes.

Para atenuar a diferença de desenvolvimento entre as regiões, outro calcanhar de aquiles brasileiro, o governo federal criou uma recomendação. O Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia quer a estipulação de uma cota mínima de 30% das bolsas para pesquisadores do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A medida é controversa e dividiu quase pela metade os entrevistados: 53% são a favor, 40% manifestaram-se contra e 7% se abstiveram.

- Sou contra pela mesma razão que não deve existir uma regra dizendo que 30% dos prêmios Nobel devem ser concedidos para pesquisadores do Terceiro Mundo - argumenta um cientista, que não quis se identificar, do Rio. - É uma solução muito simplista.

- Uma vez que todo o Brasil precisa crescer, inclusive as áreas mais periféricas, me parece muito acertado o direcionamento da verba - opina a bióloga Camila Indiani, que fez graduação e doutorado na USP, e agora trabalha em Salvador. - Mas é necessário atrelar a bolsa a uma comprovação de produção. Resta a nós, das regiões beneficiadas, mostrar que as bolsas estão sendo bem empregadas.

A vontade de mostrar trabalho é um consenso nas entrevistas. A nova geração de pesquisadores incomoda-se com a estabilidade do serviço público, que permite a acomodação de colegas. E, ao mesmo tempo, exalta o dinamismo, a criatividade e a capacidade de improviso daqueles que ingressam hoje na academia.

- O brasileiro tem jogo de cintura e consegue contornar situações desfavoráveis e, ainda assim, fazer pesquisa de boa qualidade - analisa a química Gisele Olímpio.

Economia ajuda planos futuros

A nova geração é, em parte, ressabiada com o futuro. Não sabe se os recursos que turbinam seu trabalho há dez anos serão uma prática consolidada. Mas, enquanto a economia lhe é favorável, parece feliz com sua vida. Muitos disseram que, daqui a uma década, esperam estar na mesma instituição.

- Pretendo estar aqui, aproveitando o final da década de ouro do Rio e atraindo pessoas de fora da cidade e do país para cá, devido à qualidade de nossos trabalhos - planeja o químico Pierre Mothé Esteves. - Ou, então, em Estocolmo, testemunhando o primeiro brasileiro a ganhar um Prêmio Nobel.

Sonhar (e trabalhar por isso) não custa nada.

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Fonte: O Globo on line