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Mar Sem Fim

José Bonifácio de Andrada e Silva, o ecologista do Império

Publicado em 24 novembro 2021

Por João Lara Mesquita

Ele foi um pioneiro. Filho do Iluminismo, acreditava no progresso da ciência. Viveu 36 anos na Europa, falava e escrevia em seis idiomas e lia em 11. Um erudito, ávido leitor de estudos das diferentes áreas do pensamento. Foi membro das principais academias de ciências do planeta, mas acabou mais conhecido na história do Brasil como o “Patriarca da Independência”. Defendeu a reversão das terras não cultivadas à Coroa. Pediu reflorestamento obrigatório e preservação de um sexto das matas originais de toda propriedade. O assunto de hoje é José Bonifácio de Andrada e Silva, o ecologista do Império.

José Bonifácio de Andrada e Silva, dados biográficos

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu em 1763, em Santos. Era filho de pai rico. Estudou em São Paulo e no Rio de Janeiro. Com 20 anos foi cursar Direito, Filosofia, e Ciências Naturais na Universidade de Coimbra. Poucos anos depois, em 1789, entrou para a Academia de Ciências de Lisboa.

No ano seguinte foi mandado para estudar na França e Alemanha, onde se dedicou à Mineralogia e Silvicultura. Foi o primeiro cientista brasileiro a fazer pós-graduação no exterior. Viveu 36 anos na Europa. Voltou ao Brasil em 1819, aos 56 anos, pensando em se aposentar.

Mas, em vez do ócio, abraçou a política. Foi ministro do reino, e dos negócios Estrangeiros entre 1822 e 1823. Teve papel decisivo na Independência do Brasil. Acabou brigando com o imperador que o demitiu. Banido, exilou-se na França durante seis anos. E deu a volta por cima outra vez.

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Voltou ao Brasil, reconciliou-se com o imperador e acabou como tutor de seu filho, Pedro II, até 1833 quando foi novamente demitido, desta vez pelo governo da Regência. Em 6 de abril de 1838, morreu em casa, na Ilha de Paquetá, Rio de Janeiro.

O ecologista do Império

Dizem os que estudaram a vida do Patriarca, que uma de suas maiores influências foi um dos professores da Universidade de Coimbra, o naturalista italiano Domingos Vandelli, célebre à época, e grande amigo de Lineu, que havia sido contratado para lecionar história natural e química.

A visão crítica da destruição da natureza

Teria sido com Vandelli que José Bonifácio adquiriu a visão crítica da destruição da natureza, a partir de quando teria desenvolvido grande preocupação com a questão ambiental.

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Curso de química na França

Durante o primeiro período europeu, fez curso de química na França com Antoine François de Fourcroy, químico e político, responsável pela criação do Museu Nacional de História Natural, pela reorganização do ensino superior, e dos liceus e colégios da época.

Conheceu Humboldt e teve aulas com Kant

Na Alemanha conheceu as melhores cabeças da época, como Humboldt, curiosamente também conhecido como o primeiro ambientalista, e teve aulas com ninguém menos que Kant. Visitou as minas da Boêmia, e fez pesquisas na Dinamarca e Suécia.

A preocupação com a natureza

Ao falarmos que foi ‘ecologista do Império’ queremos destacar seu conhecimento e preocupação com a natureza, muito mais do que o que representa o termo ‘ecologista’ hoje. Naquela época não passava pela cabeça das pessoas o esgotamento das riquezas naturais tal qual vemos hoje.

Segundo José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e autor de Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (Zahar), ‘para Bonifácio, o desenvolvimento não poderia basear seu crescimento na destruição anticientífica das florestas, pois essas ações ameaçariam o futuro’.

Palavras de José Bonifácio de Andrada e Silva em 1828:

Nossas preciosas matas desaparecem, vítimas do fogo e do machado, da ignorância e do egoísmo. Sem vegetação, nosso belo Brasil ficará reduzido aos desertos áridos da Líbia. Virá então o dia em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos crimes

Pádua defendeu a tese de doutorado ‘A Decomposição do Berço Esplêndido’, que investiga as raízes da ecologia no Brasil. Para ele, “José Bonifácio foi um pioneiro. Foi o primeiro político a integrar a ecologia em um projeto nacional, um ecologista muito à frente de seu tempo’.

A ecologia e um projeto de nação

O professor José Murilo de Carvalho, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, citado em matéria da Super Interessante, declarou: “Ele inovou ao passar do naturismo para o ecologismo, superando a admiração passiva da natureza para incorporá-la racionalmente a um projeto de nação.”

Criticando o ensino no Brasil do século 19

No Brasil, as ciências e as boas letras estão por terra. Tudo o que interessa é vender açúcar, café, algodão e tabaco

Uma viagem pela Mata Atlântica

Um ano depois de voltar ao Brasil, em 1820, fez uma viagem com um de seus irmãos, Martim Francisco, pelo sertão paulista, local de origem da Mata Atlântica. O que era para ser uma viagem mineralógica deixou profunda impressão.

Logo no início JB lamenta o ‘miserável estado em que se acham os rios Tietê (Até hoje problemático. Saiba mais em Núcleo União Pró-Tietê) e Tamanduateí, sem margens nem leitos fixos, sangrados em toda parte por sarjetas que formam lagos que inundam essa bela planície’. E, nos arredores de Itu, observa que ‘todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado.’

Potencial perdido pelo atraso e ‘desleixo’

Segundo a historiadora Berenice Cavalcante, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e autora de José Bonifácio: razão e sensibilidade (FGV), citada em excelente artigo da revista Fapesp, “diante do que encontrou, lamentou o imenso potencial perdido pelo atraso e ‘desleixo’ dos brasileiros no cultivo da terra. Irritou-se com a destruição despropositada da natureza e previu que, após esgotarem os recursos, as populações migrariam constantemente, dificultando ainda mais a chegada da civilização.”

Miriam Dolhnikoff, da Universidade de São Paulo (USP) e autora da biografia José Bonifácio (Companhia das Letras), também citada no artigo da revista Fapesp, diz que “a sua defesa da abolição seguia o mesmo princípio. A escravidão criava uma elite ociosa e violenta e, logo, inculta, obstáculo para o desenvolvimento. Também era responsável pela destruição inútil das matas.”

Propôs o confisco de terras improdutivas

Segundo esta autora, José Bonifácio ‘Bateu de frente com os grandes proprietários ao propor que as terras sem cultivo fossem confiscadas pelo governo e vendidas, destinando o dinheiro para os pobres, para que pudessem se incluir socialmente’.

‘Memória sobre a Pesca de Baleias e Extração de seu Azeite’

Este é dos célebres trabalhos de José Bonifácio, que mais uma vez destaca a sua faceta ecologista. Ele o redigiu em 1790, na Academia de Ciência de Lisboa, e se mostrava indignado com as ‘irracionalidades’ que aqui aconteciam.

Em um trecho do trabalho ele registra “as desordens que vi e observei em algumas armações de baleias no Brasil”, promovidas por “feitores estúpidos e inteiramente ignorantes na arte de pescar baleias”.

Inconformado com a morte de baleias bebês

JB não se conformava com o costume de arpoar baleotes de mama, desmontando a cadeia reprodutiva, já que “por uma dessas sábias leis da economia geral da natureza as baleias só parem de dois em dois anos um único filho, morto o qual perecem com ele todos os seus descendentes.”

País que desmata e a desertificação

Sobre este problema tão atual, e ainda pouco compreendido por muitas autoridades nacionais, dizia o Patriarca: “Todos os que conhecem por estudo a grande influência dos bosques e arvoredos da Economia geral da Natureza, sabem que os Paizes, que perderão suas matas, estão quasi de todo estereis, e sem gente. Assim succedeo à Syria, Phenicia, Palestina, Chypre, e outras terras, e vai succedendo ao nosso Portugal.”

As futuras gerações

Algumas passagens da vida de José Bonifácio são emblemáticas, e demonstram como era avançado para a época. Veja este texto de 1821:

Destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?

Em matéria da BBC, diz o historiador José Augusto Pádua: “Bonifácio foi um personagem muito importante, apesar de ainda pouco reconhecido, na construção dessa preocupação com o ambiente e o futuro das florestas em escala mundial.

Na mesma matéria, o historiador e jornalista Jorge Caldeira comenta: “Ele explicava com detalhes sobre a importância de preservar os bosques do Reino, isso não era nada comum nos tempos dele.”

Em defesa da preservação das baleias

Segundo Caldeira, ‘Era um ecologista prático, bastante apurado para os dias de hoje. Tanto é que seu primeiro trabalho científico foi em defesa da preservação das baleias.”

A ótima matéria da revista Fapesp, de autoria de Carlos Haag, define José Bonifácio como ‘cientista reconhecido por seus pares, com carreira de nível mundial, raridade no século 18’.

E também, ‘É o único brasileiro ligado à descoberta de um novo elemento químico, o lítio, e, em sua homenagem, a granada de ferro e cálcio foi batizada de andradita’.

Carlos Haag, na abertura de sua matéria faz uma provocação aos atuais políticos, que usaremos para fechar este breve texto.

‘Pesquisa feita em 2011 pelo Congresso Nacional revelou que apenas 8% dos 652 deputados e senadores têm mestrado ou doutorado. No Senado, 9,5% dos parlamentares nem sequer ingressaram num curso superior.’

E conclui Carlos Haag: ‘As estatísticas, talvez, não afetem o desempenho dos congressistas, como querem alguns especialistas, mas a comparação com o currículo de um político do passado, José Bonifácio, dá o que pensar’.

Importância da educação

O Mar Sem Fim não tem dúvida de que, para sair do buraco em que está, o Brasil deveria fazer o que fizeram os Tigres Asiáticos ( Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan, assim chamados na década de 70) com os quais o País já foi comparado: investir maciçamente em educação e qualificação profissional.

Mas nunca fizemos isso com seriedade e a obstinação necessárias, não por outro motivo patinamos indefinidamente no fundo do poço. Enquanto os Tigres aumentaram barbaramente sua renda com a exportação de produtos com alto valor agregado, e muita tecnologia aplicada, o Brasil segue vendendo apenas commodities, ou seja, produtos básicos não industrializados (nada contra elas, mas tudo contra APENAS elas), mantendo assim uma das piores divisões de renda do planeta.

Para finalizar, recomendamos ao leitor que conheça o portal José Bonifácio – Obra Completa.

Imagem de Abertura: Google

Fontes: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-patriarca-da-ciencia/; https://super.abril.com.br/historia/patriarca-da-ecologia/; https://www.bbc.com/portuguese/geral-49572818; https://redib.org/Record/oai_articulo2312096-o-pensamento-ambiental-em-jos%C3%A9-bonif%C3%A1cio-de-andrada-e-silva.