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Jornalista e historiador lançam livro com depoimentos de Renato Archer

Publicado em 17 janeiro 2007

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Renato Archer (1922-1996) não era cientista nem engenheiro — era oficial da Marinha. Nem por isso deixou de ter importância central no debate científico do País: defensor do programa nuclear, participou ativamente, entre as décadas de 1950 e 1990, dos principais eventos relacionados à política científica e tecnológica. Em 1985, tornou-se o primeiro ministro brasileiro da Ciência e Tecnologia.
Em uma série de entrevistas, feitas entre 1992 e 1996 pelo jornalista Alvaro Rocha Filho e pelo historiador João Carlos Vitor Garcia, Archer deu um testemunho sobre a história recente da política de C&T no País, com destaque para questões relativas à busca da autonomia tecnológica. O longo depoimento foi transformado no livro Renato Archer: energia atômica, soberania e desenvolvimento , lançado em dezembro.
De acordo com Rocha Filho, o relato de Archer mostra como a institucionalização da política de C&T no Brasil tem sua gênese na implantação de uma política nuclear pelo então presidente Getúlio Vargas. "É o resgate histórico da visão que Vargas tinha de uma política nuclear como instrumento de desenvolvimento econômico, científico e de soberania", declara.
O livro conta também, a partir do depoimento de Archer, como ocorreu uma tentativa de desmonte da política nuclear durante o curto governo Café Filho, de 24 de agosto de 1954 a 8 de novembro de 1955 — a partir da atuação do general Juarez Távora — e como o ex-presidente Juscelino Kubitschek atuou para restaurar a política.
"O livro é um retrato da trajetória acidentada da questão nuclear no Brasil e dá a exata medida de como desperdiçamos oportunidades históricas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com a sinalização atual, ainda tímida, para a retomada do programa atômico, achamos que se tratava de um momento oportuno para lançá-lo", disse Rocha Filho.

Trajetória política
Archer se afastou da carreira militar ao se eleger deputado federal, pelo Maranhão, nas eleições de 1954, aos 32 anos. Em 1956, como membro da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a questão da energia atômica no Brasil, fez denúncias contra o general Távora, que, segundo ele, havia atuado deliberadamente no desmantelamento do programa atômico.
Admirador do almirante Álvaro Alberto — fundador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT) e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen/MCT) —, Archer representou o governo brasileiro na Agência Internacional de Energia Atômica e continuou na carreira política até ser cassado pelo regime militar, em 1968.
Archer se destacou ainda por apoiar iniciativas como a da criação do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS/MCT), em Campinas (SP), e a aproximação com a China — em 1988 foi criado o programa sino-brasileiro de satélites de recursos terrestres.
Lançou, nos anos 1980, a campanha pela criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Em 1985, depois de ajudar a eleger o presidente Tancredo Neves no colégio eleitoral, foi nomeado para o novo ministério. Foi presidente da Embratel de 1992 a 1994.
Segundo Rocha Filho, assim que Archer deixou o ministério, em 1987, os autores do livro agora lançado tiveram a idéia de elaborar o roteiro de uma entrevista que resgatasse sua trajetória na área de ciência e tecnologia. "Assim que ele assumiu a Embratel, patrocinou a organização dos arquivos do almirante Alberto. Eles serviram para orientar a entrevista", disse.
Archer morreu quando a série de depoimentos chegava perto do fim — começava a narrar sua trajetória na Embratel. "Com isso, o projeto ficou arquivado. Após dez anos de sua morte, e no atual contexto, consideramos importante retomar a idéia e trazer ao público este retrato da história da política e da ciência brasileiras", disse Rocha Filho.
As informações são de Fábio de Castro, da Agência Fapesp