Notícia

Correio da Paraíba

John Beddington: O Sir da ciência

Publicado em 09 outubro 2011

Por Milenium

O governo aproveita as ideias que vocês oferecem?

Penso que sim. Todo dia, em cada ministério, os conselheiros científicos avaliam se uma ideia é realmente boa ou inviável enquanto as políticas públicas estão sendo formuladas. Eles também são responsáveis por decidir sobre quanto gastar em cada área dos Conselhos de Pesquisa. Vou dar um exemplo, os biocombustíveis. Há dois anos, o Ministério de Mudanças Climáticas fez uma proposta para aumentar nos combustíveis para transporte a proporção de biocombustíveis. Havia alguma preocupação sobre o impacto disso nos preços dos alimentos e em produtos agrícolas. Então eu reuni um grupo com os conselheiros não só da área de transportes, mas também de alimentos e mudança climática. Chamamos especialistas para ajudar a formular recomendações ao governo e eles mudaram a decisão. Os conselheiros científicos também lidam com emergências. O governo tem um grupo de alto nível dos ministérios que forma a comissão COBR, que quer dizer cabinet office breefing room. É um nome ótimo. Quando há uma emergência, eu convoco um grupo, o Sage, scientific advisory group in emergencies [sage significa "sábio" em inglês]. Quando eclodiu a epidemia de gripe suína, reuni um grupo com conselheiros científicos do governo no departamento de saúde e no social - porque havia questões de emprego - e também especialistas de universidades, para aconselhar o governo sobre o que fazer. Em 2010, quando o espaço aéreo da Europa teve de ser fechado por causa do espalhamento das cinzas de uma erupção vulcânica, formei um grupo com os conselheiros científicos de todos os departamentos e especialistas independentes de universidades e do serviço geológico e meteorológico para recomendar o que poderia permanecer aberto ou não e o que poderia ser mudado nas regulamentações. Acabamos de completar outro sobre o desastre nuclear no Japão, para decidir se era necessário evacuar nossos cidadãos ou fechar a embaixada. Com engenheiros nucleares, meteorologistas e especialistas em radiação e saúde, novamente, de universidades, do governo e da indústria, aconselhamos a comissão COBR. Felizmente, concluímos que não era preciso evacuar, mesmo no pior dos casos os níveis de radiação não seriam muito graves.

O senhor tem de conciliar transparência com segredos, certo? Poderia dar exemplos de coisas que funcionam ou que não funcionam?

Uma área em que estamos trabalhando é segurança nacional. Uma de minhas realizações foi convencer o serviço de segurança a nomear um conselheiro científico... me desculpe, mas não posso contar o nome. Quando mostro, em apresentações, toda a equipe dos conselheiros, na foto aparece apenas a silhueta do que está no departamento de segurança. Os conselheiros científicos estão no coração desses assuntos: temos de pensar sobre as ameaças de terrorismo. Há coisas relativamente mais simples para resolver, como as explosões, mas o terrorismo também implica ataques biológicos ou de radiação. Também precisamos detectar redes de terroristas, por exemplo, rastreando o uso de telefones celulares. Há formas de usar a ciência não só para combater terrorismo, mas também o crime organizado.

Como convencer pessoas de outros grupos?

Esse é sempre um problema, mas o governo está comprometido em produzir políticas com base em evidências, que podem ser científicas, econômicas ou legais. Isso acontece nas altas esferas do governo, eu me reporto diretamente ao primeiro-ministro. Também chefio o Conselho de Ciência e Tecnologia, formado não só por cientistas estabelecidos, mas também por empresários importantes. O conselho também se reporta diretamente ao primeiro-ministro. Por exemplo, no ano passado, o conselho apresentou um relatório sobre a necessidade de desenvolver uma infraestrutura, obviamente de rodovias e ferrovias, mas também em um sentido mais amplo, de redes de computadores e de energia. O primeiro-ministro também se reúne regularmente com o conselho, a última vez foi há seis ou sete semanas, para ver como a ciência e a tecnologia podem se conectar com o coração do governo. O que é interessante é que apenas dois países da União Europeia têm conselheiros científicos chefes que respondem diretamente ao chefe de Estado: um é o Reino Unido e o outro, a República da Irlanda.

Todo país deveria ter conselheiros científicos?

É difícil generalizar. No caso do Brasil, um país comparável, em termos geográficos, são os Estados Unidos. O presidente Obama tem um conselheiro científico, John Holdren, que trabalha na Casa Branca. Os Estados Unidos também têm um Conselho de Ciência e Tecnologia do presidente, que agrupa não só ganhadores do Prêmio Nobel, mas também representantes de empresas. Eles têm cientistas em praticamente todos os departamentos, mas não conseguem se reunir com frequência. Isso é mais fácil em um país pequeno como o Reino Unido do que em um país grande como o Brasil. Todos moramos em Londres, então marcar um café da manhã é bem mais fácil. Não há um modelo que sirva para todos. A França e a Alemanha não têm uma pessoa assim; o Japão tem, os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia, o Canadá também. Há um grupo de conselheiros científicos chefe e ministros de Ciência, Carnegie Group, formado pelos G8+5, que inclui México, Brasil e China, e nos encontramos uma vez por ano. É um encontro em que não podemos tomar notas.

É um encontro secreto?

Não. Significa apenas que não precisaremos ler sobre essas conversas mais tarde. Temos discussões detalhadas sobre alguns temas. No ano passado, por exemplo, falamos muito sobre medicamentos falsos. São gangues criminosas que fazem produtos com menos ou nenhum princípio ativo e embalagens idênticas às dos medicamentos reais, é uma indústria imensa.

E o que decidiram?

Não vou contar!

Quais são suas prioridades como conselheiro científico chefe do Reino Unido?

Como o primeiro-ministro, estou muito preocupado em fazer a ciência e a engenharia ajudarem mais efetivamente no crescimento econômico.

E como usar a ciência para ajudar no crescimento econômico?

É o que estou discutindo com a FAPESP. Por exemplo, podemos pensar em desenvolver técnicas para biorrefinarias, em modos mais eficientes de usar produtos agrícolas ou usar computadores para tornar os processos de manufatura mais eficientes, em qualquer área. No Conselho de Ciência e Tecnologia, que reúne cientistas, engenheiros e empresários de alto nível, estamos reorganizando as formas de financiamento à ciência. Agora, uma pessoa, o diretor-geral de conhecimento e inovação, Sir Adrian Smith, cuida de toda a ciência, todas as universidades e toda a inovação no Reino Unido. Ele é um matemático, dirigiu o Departamento de Matemática do Imperial College, depois esteve à frente do Queen Mary College, uma das universidades de Londres, antes de ingressar no governo. Ele tem agora um orçamento de 16 bilhões de libras esterlinas por ano (cerca de R$ 40 bilhões) para fazer a pesquisa das universidades chegar às empresas.

Outras prioridades?

Outra prioridade em que espero trabalhar: quais são os desastres potenciais que devem acontecer? Uma das áreas que destacamos recentemente é o fato de o Sol estar se movendo para uma fase mais ativa, e mudanças no clima espacial podem causar danos nos satélites e nas redes de comunicações. Escrevi um artigo com John Holdren, dos Estados Unidos, publicado no New York Times, alertando que devemos levar o espaço mais a sério. Não temos pesquisa suficiente para lidar com esses problemas potenciais. Nosso mundo está muito mais vulnerável do que era.

Como estão as negociações sobre mudanças climáticas no Reino Unido?

Vou evitar responder, porque sou um conselheiro científico, não um comentador político. Diria que há evidências crescentes de que a mudança climática é real, está acontecendo, é perigosa e é causada pelo ser humano.

O senhor está conseguindo reunir as pessoas e instituições para trabalhar juntos e lidar com esse problema?

Sim. No Reino Unido temos o Hadley Center, o departamento de energia e de mudanças climáticas, o de ambiente e alimentação trabalhando juntos. Há um ministério responsável pela adaptação às mudanças climáticas e outro pela adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Há conselhos de pesquisa atuando nessa área, com programas de pesquisa, e estamos desenvolvendo colaborações, por exemplo, com a FAPESP. Também temos colaborações com grupos de pesquisa nos Estados Unidos, Europa, China, Índia, Canadá, Austrália, entre outros. Nossas embaixadas, nos principais países, têm pessoas que integram a rede de ciência e inovação e estão atentas para possibilidades de novas colaborações e de inovações, como aqui em São Paulo, em Délhi, em Pequim e em Washington. Como disse em minha apresentação, colaboração é o caminho do futuro.

O governo aproveita as ideias que vocês oferecem?

Penso que sim. Todo dia, em cada ministério, os conselheiros científicos avaliam se uma ideia é realmente boa ou inviável enquanto as políticas públicas estão sendo formuladas. Eles também são responsáveis por decidir sobre quanto gastar em cada área dos Conselhos de Pesquisa. Vou dar um exemplo, os biocombustíveis. Há dois anos, o Ministério de Mudanças Climáticas fez uma proposta para aumentar nos combustíveis para transporte a proporção de biocombustíveis. Havia alguma preocupação sobre o impacto disso nos preços dos alimentos e em produtos agrícolas. Então eu reuni um grupo com os conselheiros não só da área de transportes, mas também de alimentos e mudança climática. Chamamos especialistas para ajudar a formular recomendações ao governo e eles mudaram a decisão. Os conselheiros científicos também lidam com emergências. O governo tem um grupo de alto nível dos ministérios que forma a comissão COBR, que quer dizer cabinet office breefing room. É um nome ótimo. Quando há uma emergência, eu convoco um grupo, o Sage, scientific advisory group in emergencies [sage significa "sábio" em inglês]. Quando eclodiu a epidemia de gripe suína, reuni um grupo com conselheiros científicos do governo no departamento de saúde e no social - porque havia questões de emprego - e também especialistas de universidades, para aconselhar o governo sobre o que fazer. Em 2010, quando o espaço aéreo da Europa teve de ser fechado por causa do espalhamento das cinzas de uma erupção vulcânica, formei um grupo com os conselheiros científicos de todos os departamentos e especialistas independentes de universidades e do serviço geológico e meteorológico para recomendar o que poderia permanecer aberto ou não e o que poderia ser mudado nas regulamentações. Acabamos de completar outro sobre o desastre nuclear no Japão, para decidir se era necessário evacuar nossos cidadãos ou fechar a embaixada. Com engenheiros nucleares, meteorologistas e especialistas em radiação e saúde, novamente, de universidades, do governo e da indústria, aconselhamos a comissão COBR. Felizmente, concluímos que não era preciso evacuar, mesmo no pior dos casos os níveis de radiação não seriam muito graves.

O senhor tem de conciliar transparência com segredos, certo? Poderia dar exemplos de coisas que funcionam ou que não funcionam?

Uma área em que estamos trabalhando é segurança nacional. Uma de minhas realizações foi convencer o serviço de segurança a nomear um conselheiro científico... me desculpe, mas não posso contar o nome. Quando mostro, em apresentações, toda a equipe dos conselheiros, na foto aparece apenas a silhueta do que está no departamento de segurança. Os conselheiros científicos estão no coração desses assuntos: temos de pensar sobre as ameaças de terrorismo. Há coisas relativamente mais simples para resolver, como as explosões, mas o terrorismo também implica ataques biológicos ou de radiação. Também precisamos detectar redes de terroristas, por exemplo, rastreando o uso de telefones celulares. Há formas de usar a ciência não só para combater terrorismo, mas também o crime organizado.

Como convencer pessoas de outros grupos?

Esse é sempre um problema, mas o governo está comprometido em produzir políticas com base em evidências, que podem ser científicas, econômicas ou legais. Isso acontece nas altas esferas do governo, eu me reporto diretamente ao primeiro-ministro. Também chefio o Conselho de Ciência e Tecnologia, formado não só por cientistas estabelecidos, mas também por empresários importantes. O conselho também se reporta diretamente ao primeiro-ministro. Por exemplo, no ano passado, o conselho apresentou um relatório sobre a necessidade de desenvolver uma infraestrutura, obviamente de rodovias e ferrovias, mas também em um sentido mais amplo, de redes de computadores e de energia. O primeiro-ministro também se reúne regularmente com o conselho, a última vez foi há seis ou sete semanas, para ver como a ciência e a tecnologia podem se conectar com o coração do governo. O que é interessante é que apenas dois países da União Europeia têm conselheiros científicos chefes que respondem diretamente ao chefe de Estado: um é o Reino Unido e o outro, a República da Irlanda.

Todo país deveria ter conselheiros científicos?

É difícil generalizar. No caso do Brasil, um país comparável, em termos geográficos, são os Estados Unidos. O presidente Obama tem um conselheiro científico, John Holdren, que trabalha na Casa Branca. Os Estados Unidos também têm um Conselho de Ciência e Tecnologia do presidente, que agrupa não só ganhadores do Prêmio Nobel, mas também representantes de empresas. Eles têm cientistas em praticamente todos os departamentos, mas não conseguem se reunir com frequência. Isso é mais fácil em um país pequeno como o Reino Unido do que em um país grande como o Brasil. Todos moramos em Londres, então marcar um café da manhã é bem mais fácil. Não há um modelo que sirva para todos. A França e a Alemanha não têm uma pessoa assim; o Japão tem, os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia, o Canadá também. Há um grupo de conselheiros científicos chefe e ministros de Ciência, Carnegie Group, formado pelos G8+5, que inclui México, Brasil e China, e nos encontramos uma vez por ano. É um encontro em que não podemos tomar notas.

É um encontro secreto?

Não. Significa apenas que não precisaremos ler sobre essas conversas mais tarde. Temos discussões detalhadas sobre alguns temas. No ano passado, por exemplo, falamos muito sobre medicamentos falsos. São gangues criminosas que fazem produtos com menos ou nenhum princípio ativo e embalagens idênticas às dos medicamentos reais, é uma indústria imensa.

E o que decidiram?

Não vou contar!

Quais são suas prioridades como conselheiro científico chefe do Reino Unido?

Como o primeiro-ministro, estou muito preocupado em fazer a ciência e a engenharia ajudarem mais efetivamente no crescimento econômico.

E como usar a ciência para ajudar no crescimento econômico?

É o que estou discutindo com a FAPESP. Por exemplo, podemos pensar em desenvolver técnicas para biorrefinarias, em modos mais eficientes de usar produtos agrícolas ou usar computadores para tornar os processos de manufatura mais eficientes, em qualquer área. No Conselho de Ciência e Tecnologia, que reúne cientistas, engenheiros e empresários de alto nível, estamos reorganizando as formas de financiamento à ciência. Agora, uma pessoa, o diretor-geral de conhecimento e inovação, Sir Adrian Smith, cuida de toda a ciência, todas as universidades e toda a inovação no Reino Unido. Ele é um matemático, dirigiu o Departamento de Matemática do Imperial College, depois esteve à frente do Queen Mary College, uma das universidades de Londres, antes de ingressar no governo. Ele tem agora um orçamento de 16 bilhões de libras esterlinas por ano (cerca de R$ 40 bilhões) para fazer a pesquisa das universidades chegar às empresas.

Outras prioridades?

Outra prioridade em que espero trabalhar: quais são os desastres potenciais que devem acontecer? Uma das áreas que destacamos recentemente é o fato de o Sol estar se movendo para uma fase mais ativa, e mudanças no clima espacial podem causar danos nos satélites e nas redes de comunicações. Escrevi um artigo com John Holdren, dos Estados Unidos, publicado no New York Times, alertando que devemos levar o espaço mais a sério. Não temos pesquisa suficiente para lidar com esses problemas potenciais. Nosso mundo está muito mais vulnerável do que era.

Como estão as negociações sobre mudanças climáticas no Reino Unido?

Vou evitar responder, porque sou um conselheiro científico, não um comentador político. Diria que há evidências crescentes de que a mudança climática é real, está acontecendo, é perigosa e é causada pelo ser humano.

O senhor está conseguindo reunir as pessoas e instituições para trabalhar juntos e lidar com esse problema?

Sim. No Reino Unido temos o Hadley Center, o departamento de energia e de mudanças climáticas, o de ambiente e alimentação trabalhando juntos. Há um ministério responsável pela adaptação às mudanças climáticas e outro pela adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Há conselhos de pesquisa atuando nessa área, com programas de pesquisa, e estamos desenvolvendo colaborações, por exemplo, com a FAPESP. Também temos colaborações com grupos de pesquisa nos Estados Unidos, Europa, China, Índia, Canadá, Austrália, entre outros. Nossas embaixadas, nos principais países, têm pessoas que integram a rede de ciência e inovação e estão atentas para possibilidades de novas colaborações e de inovações, como aqui em São Paulo, em Délhi, em Pequim e em Washington. Como disse em minha apresentação, colaboração é o caminho do futuro.