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Joaquim Manuel de Macedo, um escritor multifacetado

Publicado em 07 junho 2011

Por Manuel Alves Filho

A historiografia literária classificou, de modo geral, o escritor Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) como o autor de A Moreninha e de outros romances assemelhados, todos com teor melodramático. Tese de doutorado de Juliana Maia de Queiroz, apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, faz emergir um escritor pouco conhecido do público, dono de uma obra bastante diversificada. "Macedo tem uma produção muito vasta e diversa, que dialoga com os diversos papéis sociais que ele desempenhou na sua época", afirma a pesquisadora, que foi orientada pela professora Márcia Abreu e contou com bolsa fornecida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

De acordo com Juliana, embora tenha trabalhado com diferentes gêneros literários e abordado inúmeros temas em seus livros, Macedo entrou para a história como um autor menor, unicamente de romances melodramáticos. Com base nas investigações que fez, valendo-se de consultas a fontes primárias como jornais e catálogos de editoras do Século XIX, a pesquisadora levantou algumas hipóteses para explicar o estigma pespegado ao literato carioca. Uma delas diz respeito às relações políticas do escritor, que foi deputado e tinha excelente trânsito com o imperador Pedro II. "Além de político, Macedo também foi professor de História, e deu aula para as filhas do imperador. Com a queda do Império, caiu também toda a mentalidade vigente. Uma das hipóteses interpretativas é a de que isso poderia ter feito com que Macedo fosse praticamente ignorado pela crítica a partir de então", explica Juliana.

A outra suposição levantada pela autora da tese diz respeito a uma possível discriminação sofrida pelo escritor, também por parte da crítica, em razão de seus livros terem caído no gosto popular. Ao consultar catálogos e anúncios publicados em jornais do período, Juliana constatou que os títulos assinados por Macedo apareciam ao lado de escritores reconhecidamente populares, sendo que boa parte deles sequer foi registrada pela historiografia literária. "Naquele período, a ideia de bom romance começou a mudar. Os críticos passaram a valorizar as obras ditas mais "elevadas". Desse modo, um escritor que caísse demais no gosto popular era considerado um "autor fácil". Ou seja, se era popular, logo não tinha qualidade, segundo essa categorização", acrescenta a pesquisadora.

Além das fontes já citadas, Juliana também analisou em detalhes três romances escritos por Macedo na segunda metade do século XIX: A carteira de meu tio (1855), Memórias do sobrinho de meu tio (1868) e A luneta mágica (1869), volumes que acabaram ganhando tímida apreciação por parte da crítica literária e dos historiadores da literatura dos séculos XIX e XX. Esses livros, conforme a pesquisadora, não guardam qualquer relação com A Moreninha. "Eles fogem do viés mais amoroso e melodramático que caracterizou uma parte da obra de Macedo. Ele de fato escreveu romances de temática amorosa, mas também produziu muitas outras coisas", insiste.

Nos livros analisados, continua Juliana, Macedo se mostra um observador sagaz dos costumes e acontecimentos de seu tempo. Nos textos, ele também exibe o seu lado crítico, principalmente em relação à política e ao comportamento social dos moradores do Rio de Janeiro, seu Estado natal. "A carteira de meu tio foi o primeiro romance que analisei. O livro fez enorme sucesso na época. Primeiro, saiu em forma de folhetim. Depois, teve três edições em pequeno espaço de tempo. Em Memórias do sobrinho de meu tio, ele deu sequência à narrativa. Trata-se do mesmo narrador-personagem, o que constituiu uma inovação na prosa ficcional do século XIX. O narrador é um sujeito irreverente, cujo sonho é se tornar político, uma vez que não gosta de trabalhar. Ou seja, o romance traz embutida uma forte crítica à política da época", analisa Juliana.

Estudando este segundo livro, a autora da tese conta ter descoberto que um dos temas discutidos naquele período era justamente a política da conciliação. Os partidos Liberal e Conservador se alternavam no poder, com a intenção de manter o status quo. Para a população, todavia, tal sucessão não resultava em melhorias tangíveis. No caso de A luneta mágica, de acordo com Juliana, Macedo emprega um tom de mistério e fantasia no texto. "Neste romance, Macedo faz referências a acontecimentos da época e reserva uma crítica ferrenha às relações sociais e políticas de então. Ele também critica as relações familiares. O narrador da história é apresentado como míope, tanto em termos físicos quanto morais. Ou seja, ele não consegue distinguir entre o bem e o mal. Macedo se vale disso para fazer uma discussão sobre esses dois conceitos, que são tão caros ao modelo romântico", explica a autora da tese.

Segundo a pesquisadora, nas três obras não surge o modelo fechado que contempla o vilão, a mocinha e o herói. "Ou seja, nenhuma delas sequer se aproxima em termos de enredo e temática de A Moreninha. Na minha tese, eu defendo a ideia de que essa diversidade dialoga diretamente com os variados papéis sociais que Macedo desempenhou na época. Além de médico, político e professor, ele também foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e cronista. Assim, as experiências acumuladas em todas essas atividades aparecem refletidas em seus livros, ora de forma mais direta, ora de maneira mais sutil". Além de romances e crônicas, Macedo escreveu também poemas, peças de teatro e memórias.

O escritor

Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí, no Rio de Janeiro, em 24 de junho de 1820. Formou-se em Medicina, mas praticamente não exerceu a profissão. No mesmo ano da conclusão do curso publicou o seu mais conhecido romance, A Moreninha, que lhe garantiu reconhecimento quase instantâneo. Em 1849, fundou com Araújo Porto-Alegre e Gonçalves Dias a revista Guanabara, onde apareceu grande parte do seu poema-romance A Nebulosa, que alguns críticos consideram como um dos melhores do Romantismo. Macedo foi professor de História e Geografia do Brasil no Colégio Pedro II.

Militou no Partido Liberal, pelo qual se elegeu deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-68 e 1873-81). Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Além de A Moreninha (1884), publicou, entre outros, os livros O moço louro (1845), Os dois amores (1848), Rosa (1849), Vicentina (1853), O forasteiro (1855); A carteira de meu tio (1855), Memórias do sobrinho do meu tio (1867-68), A luneta mágica (1869) e As mulheres de mantilha (1870). Para o teatro, escreveu 16 peças. Macedo morreu no Rio de Janeiro, em 11 de abril de 1882.