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Joaquim José Engler fala de sua trajetória de estudante da Esalq a Diretor da Fapesp

Publicado em 28 setembro 2014

Por Danielle Ricci

Diretor administrativo da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) há 21 anos, o engenheiro agrônomo Joaquim José de Camargo Engler é um dos nomes em destaque da pesquisa voltada à agricultura e economia brasileiras.

Formado pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), sua trajetória profissional teve início na década de 1960 no respeitado IAC (Instituto Agronômico de Campinas), passando posteriormente por instituições internacionais, como a Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, onde tornou-se PhD em Economia, por um programa de administração universitária na Michigan State University e como professor visitante no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Portugal.

Ao retornar ao Brasil, assumiu o Departamento de Economia e a coordenação da pós-graduação da Esalq, tornandose figura central na consolidação dos programas de mestrado e doutorado oferecidos pela instituição.

Entre 1982 e 1986, foi diretor da Esalq e colaborador da Reitoria da USP como assessor de planejamento e orçamento.

Essa trajetória, somada à excelência de seu trabalho, o tornou reconhecido e premiado no meio acadêmico e de pesquisa.

A mais recente honraria concedida a ele pelo IAC foi o prêmio Personalidade da Pesquisa 2014, por seu mérito científico e desempenho institucional de destaque para a agricultura no Estado de São Paulo e no Brasil.

“Essa premiação muito me honra principalmente pelo fato de o IAC ser uma instituição mais do que centenária, dedicada à pesquisa no Brasil, com grandes trabalhos realizados e renome internacional”, disse Engler durante solenidade de entrega do prêmio, que ocorreu durante os eventos comemorativos do 127º aniversário do instituto.

Engler é autor de 75 artigos científicos publicados e relatórios de pesquisa.

Como é ser reconhecido como destaque pela instituição onde o senhor começou sua carreira?Minha iniciação científica tem como principal referência o IAC, onde realizei o primeiro estágio, ainda como estudante de graduação na Esalq. Em 1962 e 1963, participei das atividades de pesquisa da Seção de Climatologia do IAC, acompanhando os trabalhos de pesquisadores como Angelo Paes Camargo, Francisco da Costa Verdade, Álvaro Zingra do Amaral, Jorge Vicente Chiarini, Arnaldo Guido Coelho e outros. Desta forma, retornar depois de aposentado à instituição em que iniciei minha carreira é extremamente gratificante, ainda mais para receber um prêmio relacionado com minha atividade profissional.

Qual a importância desse prêmio para a atual fase de sua carreira? A indicação para o prêmio Personalidade de Pesquisa pelo IAC é sumamente honrosa. O instituto é uma instituição com 127 anos de atividades dedicadas ao desenvolvimento científico, com relevantes serviços prestados à agricultura paulista e brasileira, com reconhecimento internacional. Trata-se de um instituto de pesquisa mais do que centenário e sempre inovador, aliando sua tradição e credibilidade com a modernidade de suas atividades, gerando e transferindo tecnologia para o agronegócio.

O conjunto de suas pesquisas o levou à premiação. Qual delas o senhor considera a de maior destaque? Entre os diversos projetos de pesquisa que realizei durante minha carreira docente, destaco a pesquisa Alternative Enterprise Combinations Under Various Price Policies in Brazil, que foi minha tese apresentada na The Ohio State University, em Columbus, Ohio, nos Estados Unidos, como parte dos requisitos para obtenção do título de doutor em Filosofia (PhD) na área de Economia. Utilizando informações básicas coletadas, pessoalmente, em diversas regiões do Brasil, foi desenvolvido um modelo econométrico, que simulava a competição e a resposta de vários produtos agropecuários às mudanças tecnológicas e de preço. Essa pesquisa deu continuidade aos trabalhos de Análise da Produtividade de Recursos na Agricultura, que resultara na tese apresentada à Esalq para obtenção do título de doutor em Agronomia. Essa linha de pesquisa objetivava a avaliação da produtividade agropecuária, dos fatores que poderiam influenciar sua melhoria, com a consequente redução nos custos de produção, melhor desempenho do agronegócio e de sua contribuição ao desenvolvimento brasileiro.

O senhor foi estagiário do IAC na década de 1960. Qual a principal lição daquela época que levou por toda sua trajetória? Ao lado dos conhecimentos científicos que adquiri durante o estágio no IAC, uma grande lição que aprendi com a equipe do agronômico e adotei durante minha vida profissional, foi a importância de realizar um trabalho honesto e responsável, como retribuição às oportunidades profissionais que tive.

Como o senhor enxerga o futuro da agricultura no Brasil, considerando as transformações que vêm ocorrendo em relação ao meio ambiente? Vejo um futuro promissor, pois temos pesquisadores brilhantes e entidades sérias e competentes, como o IAC, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e as universidades, realizando pesquisas inovadoras. Não posso deixar de mencionar a importância dos agricultores, que têm contribuído com seu trabalho para o desenvolvimento da agricultura.

O que, de sua experiência na Universidade Estadual de Ohio, o senhor aplicou de mais importante em suas pesquisas? A experiência vivida em Ohio foi muito gratificante e relevante na minha atividade profissional. A vivência por mais de três anos de um intenso programa de pesquisa, com modernas metodologias de análise, contribuiu indelevelmente para minha vida acadêmica. Durante a estada nessa instituição, participei intensivamente da sua administração como membro convidado de diversos colegiados, o que ampliou minha visão acadêmica, que se completou com um programa de administração universitária na Michigan State University e como professor visitante no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Portugal.

Quais os desafios como diretor administrativo da Fapesp? Em seus mais de 50 anos de existência, a Fapesp vem cumprindo exemplarmente seus objetivos de apoio à pesquisa científica e tecnológica em todas as áreas do conhecimento, com respeitabilidade internacional. Sua autonomia constitucional gera grandes responsabilidades e sua eficiência administrativa é exigida inclusive na lei de sua criação e no seu estatuto, que determinam que as despesas com seu custeio não podem ultrapassar o limite de 5% de seu orçamento. O diretor administrativo é responsável pela infraestrutura necessária para o desenvolvimento das atividades de apoio, informação e comunicação com os pesquisadores, desde a elaboração do Termo de Outorga dos Auxílios e Bolsas até sua conclusão, com a análise das prestações de contas. Estão sob sua coordenação as áreas de Recursos Humanos, Informação, Administração, Finanças, Aquisições, Licitações, Patrimônio, Infraestrutura Física e de Informática, Importação, Exportação e Auditoria. A principal missão da Diretoria Administrativa é apoiar o pesquisador na realização de seu projeto, minimizando a burocracia institucional, porém respeitando as normas legais vigentes. Como parte de suas atividades, realiza programas de treinamento para as equipes institucionais, que devem dar apoio administrativo e gerencial ao pesquisador, desde a formulação do projeto, sua contratação, aquisição de bens requeridos pela pesquisa, liberação dos recursos, prestação de contas, atendendo às normas vigentes e específicas das diversas modalidades de bolsas e auxílios que a Fapesp concede. A meta destes programas é auxiliar os cientistas na gestão e administração dos seus projetos, permitindo que possam se dedicar melhor à pesquisa e à orientação dos alunos. Um serviço de grande relevância para a comunidade científica é o apoio na importação de bens para a realização das pesquisas. Esta área é muito ampla e abrangente. A diversidade de materiais importados é grande. Dentre eles, temos reagentes; produtos químicos perecíveis; camundongos; turfa rubia para o desenvolvimento de tecnologia de produção de plantas e fungos micorrízicos; microscópios; radioativos como radioisótopos que podem ser aplicados em gestantes com histórico familiar de distrofia muscular para diagnóstico da presença ou não desta doença genética que causa o enfraquecimento progressivo do tecido muscular; navio destinado às pesquisas oceanográficas; radiotelescópio; telescópio que estuda as explosões solares que podem afetar as comunicações e os sistemas de navegação via satélite; equipamentos para o desenvolvimento de estruturas leves e resistentes para atender às necessidades nos setores aeronáuticos, automobilísticos, exploração de petróleo e gás e produção de energia eólica; aparelho de ressonância magnética de 7 Tesla, que será o primeiro equipamento desta magnitude no hemisfério sul e será utilizado em pesquisas na área da saúde através do diagnóstico realizado por um processo de autópsia por imagem e, portanto, não invasiva. Recentemente, a Fapesp, com o objetivo de simplificar os procedimentos e otimizar suas concessões de auxílios à pesquisa, implantou a flexibilização no uso de seus recursos. Assim, o outorgado não precisa solicitar alteração do Termo de Outorga para a movimentação dos valores concedidos entre as alíneas concedidas. Exemplo: material permanente, consumo, serviço de terceiros ou entre moedas, dólares americanos para reais e viceversa. Esta nova sistemática permitirá ao pesquisador maior agilidade no uso dos recursos concedidos pela Fapesp.

De que forma a tecnologia contribui para a sustentabilidade da agricultura nacional? A inovação tecnológica, em qualquer área, e em especial na agropecuária, só se justifica se respeitar e contribuir para o desenvolvimento das melhores práticas de sustentabilidade ambiental.

O IAC já desenvolveu grandes projetos para o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes a doenças. Na contramão, há linhas de pesquisas que colocam os sistemas de combate biológico de pragas como mais saudáveis à agricultura. Qual o caminho para uma agricultura saudável? As pesquisas do IAC, que visam o desenvolvimento de variedades e cultivos mais produtivos e resistentes às doenças e pragas, não estão na contramão das pesquisas relacionadas com o controle biológico de pragas. Elas são complementares e têm entre seus parâmetros básicos uma agricultura sustentável.

Com as novas regras da queimada da cana, muitos produtores estão optando por outras culturas na região, em especial o milho e a soja. São plantios adequados para a nossa região e se sustentam num futuro? Qual seria a alternativa para o produtor local, considerando a declividade do solo piracicabano? A mencionada opção do produtor de cana-de-açúcar por outra cultura é racional e deve seguir as recomendações das instituições de pesquisa como o IAC e Embrapa, relacionadas com a vocação e as condições de solo e clima da região.