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Diário de Sorocaba

JK mais humano é apresentado em estudo

Publicado em 22 março 2006

Acadêmicos apontam excessos históricos de novela JK em artigo publicado nesta semana na Revista Pesquisa FAPESP. O trabalho trata do modo menos heróico e mais humano a história do mais famoso dos presidentes brasileiros.
Pouco mais de 40 anos depois, a foto se tornara apenas a referência de um episódio do passado de contexto bem diferente do Juscelino mostrado na minissérie JK, exibida a partir da primeira semana de janeiro pela Rede Globo, publicada em 8 de junho de 1964, na Revista Manchete, mostra no presidente um aspecto de tristeza e desolação.
O desânimo se justificava pela cassação anunciada em uma revista que ele acabara de ler, entregue por um de seus assessores em 8 de junho de 1964.
O mundo ruía sob seus pés. O sonho de voltar à Presidência em 1965 estava sepultado, numa manobra de seus principais adversários, Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, governadores de Minas Gerais e da Guanabara, respectivamente, que o transformou num dos vilões do regime militar que começava. Nunca tivera a imagem tão arranhada. Além de responsabilizado pela "deterioração" do governo pelo general Costa e Silva, seu nome chegou a ser ligado a denúncias de corrupção na construção de Brasília.
Apresentado como visionário, Juscelino virou símbolo da modernidade de uma época cada vez mais idealizada e romantizada, marcada pela construção de uma nova capital para o país, Brasília, pelo florescimento da indústria automobilística e de eletrodomésticos e pelo seu êxito em superar as crises de instabilidade e chegar até o fim de seu mandato. Compreender esse fenômeno tem se tornado um desafio em importantes universidades brasileiras.
A "heroicização" de Juscelino Kubitschek vem desde o início da Nova República — embora cinco anos antes o filme de Silvio Tendler Os anos JK (1980) já tivesse deflagrado o processo, que dignificou tanto ele quanto João Goulart (1918-1976) — em Jango (1984) —, só que numa outra perspectiva, não só do documentário como também para trazer a história recente do país que massacrara a trajetória desses personagens. É o que explica a cientista social carioca Mônica Almeida Kornis, autora da tese de doutorado em comunicação "Uma história do Brasil recente nas minisséries da Rede Globo".
Tanto que, lembra ela, a primeira cédula criada no governo José Sarney, de Cr$ 100.000,00, ainda em 1985, antes mesmo do padrão cruzado, trazia o rosto de JK estampado, juntamente com imagens de Brasília e outras realizações importantes de seu governo. "Ele renasceu naquele momento e passou a ser o ícone da democracia brasileira. O que a minissérie faz agora é reafirmar esse lugar", diz Mônica, cujo estudo foi defendido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).
Agência FAPESP