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Mar Sem Fim

Jazidas minerais encontradas na Elevação do Rio Grande

Publicado em 17 maio 2021

Por João Lara Mesquita

A Elevação do Rio Grande fica ao largo do Estado do Rio Grande do Sul, a cerca de 1.500 km da costa, em águas internacionais. Mas em 2014 o Brasil ganhou autorização da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos para estudar a região por 15 anos, visando fazer um levantamento geológico atrás de sua possível riqueza mineral. A região era vista como um ‘pré-sal da mineração’. Agora a suspeita torna-se realidade, a mídia está anunciando que a ‘USP descobre jazida no fundo do mar’, um ‘tesouro submarino’ em forma de jazidas minerais.

Jazidas minerais encontradas na Elevação do Rio Grande

A população mundial cresce assustadoramente. Somos 7.8 bilhões de pessoas hoje, e a ONU calcula que seremos 8,8 bilhões em 2100. Os recursos naturais escasseiam nos 30% da área do planeta que fica em terra firme.

Foi isso que levou aos estudos sobre minerais submarinos que começam a ser explorados ainda que de forma experimental neste momento. Esta percepção levou o Brasil a requisitar o direito de explorar os recursos minerais da Elevação do Rio Grande que estão entre 800 e 3.000 metros de profundidade.

O sentimento de que ali poderia haver grande quantidade de minérios raros estava correto. Segundo matéria do site clickpetroleoegas.com.br/usp ‘Bactérias responsáveis por um processo de biomineralização que formou reservas submarinas de cobalto, níquel, molibdênio, nióbio, platina, titânio e telúrio, acabam de ser descobertas por oceanógrafos do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP)’.

O site conclui que ‘a nova descoberta dos pesquisadores brasileiros pode tornar o Brasil rico em energias renováveis!’

Uma boa notícia, mas perigosa

A confirmação de jazidas minerais na Elevação do Rio Grande é bem-vinda. Estudos recentes revelam que ela deve ter sido um arquipélago antes de afundar. Vestígios de praias, dunas, cavernas, canais fluviais e manguezais foram encontrados na cadeia montanhosa. Ela submergiu há cerca de 40 milhões de anos.

Quando escrevemos sobre a Elevação, em 2019, destacamos as descobertas que foram feitas a bordo do navio da USP Alpha Crucis, em expedição de 2018.

Na ocasião, os pesquisadores encontraram na região as primeiras ocorrências no Atlântico Sul da associação simbiótica entre a esponja Sarostegia oculata e a anêmona Thoracactis topsenti, formando ramificações semelhantes às de corais.

O biólogo Paulo Corrêa, também do IO-USP, disse que os estudos podem mostrar espécies ainda desconhecidas. O “ambiente é frágil” e “de renovação muito lenta”.

E é este o problema: o “ambiente é frágil” e “de renovação muito lenta”. E a exploração de jazidas minerais no subsolo oceânico apenas engatinha. Por isso dissemos que a descoberta é uma boa notícia, mas perigosa.

É boa por sabermos que há uma riqueza até agora não mensurada. Ela pode contribuir para as contas do País no futuro. Mas também perigosa, porque a atividade de mineração é sempre impactante mesmo em terra firme, mas muito mais perigosa e difícil no fundo dos oceanos.

A idade da jazida encontrada

De acordo com o site clickpetroleoegas.com.br/usp ‘a jazida se formou durante a separação do supercontinente Gondwana (que deu origem à África e à América do Sul). A Elevação Rio Grande era uma ilha que afundou há 40 milhões de anos devido ao peso da lava de um vulcão e à movimentação de placas tectônicas’.

‘A descoberta foi publicada recentemente pela revista Microbial Ecology e contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP. Além disso, as expedições foram a bordo do RRS Discovery, navio da realeza britânica’.

Existem apenas quatro áreas com o mesmo potencial da Elevação do Rio Grande

A maior de todas as ‘províncias minerais’ do mar até agora descoberta é a área Clarion Clipperton, no Pacífico (as outras seriam o monte submarino Takuyo-Daigo, no Pacífico Norte, além do monte submarino Tropic, no Atlântico Norte), onde testes estão sendo feitos neste momento e com grande preocupação por parte não só de ambientalistas, mas até mesmo de empresas interessadas nos minerais.

Só para área Clarion Clipperton a ISA já deu 29 licenças. Em matéria sobre o tema a BBC destacou: “ali, a 4 mil metros abaixo da superfície encontram-se vastos depósitos de nódulos de manganês, pedras ricas em níquel, cobre, cobalto. E outros minerais essenciais para a fabricação de equipamentos – de celulares a baterias para carros elétricos e painéis solares”.

Na mesma época outro ícone do jornalismo, a National Geographic, também abordou o assunto e alertou: “a mineração em águas profundas pode acabar tendo a maior pegada de qualquer atividade humana no planeta em termos de área de impacto”, diz o oceanógrafo da Universidade do Havaí, Craig Smith.

Os perigos da mineração submarina

Os oceanos passam por momento delicado, fruto da superpopulação mundial e seus rejeitos. Como se sabe, parte deles acaba no mar. O plástico é apenas um deles, mas não o único.

Fertilizantes e agrotóxicos usados na agricultura nos vales dos grandes rios, como o Mississipi, são frequentemente levados para o mar depois das chuvas que lavam os campos, acumulam os materiais nos leitos dos rios que depois os despejam no mar. Não por outro motivo uma das maiores zonas mortas dos oceanos fica no Golfo do México, na foz do Mississipi.

A pesca industrial é outro flagelo, com suas redes de arrasto que chegam a ter o tamanho de até 13 aviões jumbo, depredando o que resta de vida marinha, além de revolver o subsolo a ponto de liberar o dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa ali armazenado.

Os oceanos são o maior sumidouro de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa, da atmosfera. Mas o arrasto está alterando dramaticamente o solo oceânico, levando à desertificação do fundo do mar, e liberando na coluna d’água o CO2 armazenado, tornando as águas ainda mais ácidas, e impedindo que mais CO2 seja sequestrado da atmosfera.

O mesmo processo vai acontecer quando as enormes máquinas começarem a revolver o subsolo marinho. E além de liberar ainda mais dióxido de carbono, a vida marinha será severamente atingida não só no local da exploração, mas em todo o entorno.

A formação das jazidas minerais submarinas: até 14 milhões de anos!

Em 2020 reproduzimos matéria do New York Times a respeito de um estudo sobre a mineração submarina e seus perigos. Os autores alertavam: ”Mas, como nós e nossos colegas observamos recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os impactos da mineração submarina serão pronunciados e debilitantes não apenas no fundo do mar. Mas também em toda a coluna de água profunda que se estende por cerca de 600 pés abaixo da superfície até o fundo, onde ocorre a extração.”

“Os minerais procurados se formam e se acumulam de forma extremamente lenta no fundo do oceano, com taxas de crescimento de apenas alguns milímetros por milhões de anos.”

“Um nódulo do tamanho de uma bola de tênis no fundo do mar e consistindo em grande parte de valiosos metais de terras raras pode ter mais de 14 milhões de anos.”

“Quando um nódulo é arrancado e aspirado do fundo do mar, ele é bombeado para um navio de superfície por meio de um oleoduto. Os minerais são removidos e, em seguida, o fluido lamacento, sedoso e enriquecido com toxinas é bombeado de volta ao mar como o que é chamado de “pluma de desidratação”.

“Partículas mais pesadas irão afundar no fundo do mar, mas devem passar por milhares de metros de água intermediária antes de se assentarem. Além disso, o lodo fino irá derivar e fluir por milhas e meses nas correntes oceânicas. É assustadoramente claro que o impacto dessa nuvem flutuante nos ecossistemas de águas abertas será severo, variado e em escala global.”

Conclusão sobre a descoberta na Elevação do Rio Grande

Assim como é uma dádiva que um País em desenvolvimento, e desigual como o Brasil, tenha petróleo no pré-sal, é também uma benção saber que existem Jazidas minerais importantes na Elevação do Rio Grande.

Mas a sua exploração de forma sustentável ainda está muito distante das atuais tecnologias. Não por outro motivo, a preocupação com a saúde dos oceanos, em março de 2021 gigantes como as montadoras BMW e Volvo, e ainda a Samsung, e o Google anunciaram que apoiam uma moratória para a mineração submarina.

Para saber mais ouça a entrevista que fizemos com Alexander Turra, professor titular do Departamento de Oceanografia Biológica da Universidade de São Paulo, a USP.

Fontes: https://clickpetroleoegas.com.br/usp-descobre-jazida-no-fundo-do-mar-e-tesouro-submarino-torna-o-brasil-rico-em-energias-renovaveis/; https://www.nytimes.com/2020/08/14/opinion/deep-ocean-mining-pollution.html?fbclid=IwAR0cjmFbiF-Hzg61KxEzZWzmKQiOOhAb18QiS56sxdXWTUMD7zVe5MGwOt0.

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