Notícia

Tribuna do Norte (Natal, RN)

Jabuti premia o fazendeiro e poeta Manoel de Barros

Publicado em 02 maio 2002

O poeta Manoel de Barros não estranhou uma obra infanto-juvenil de poesia ter sido escolhida como o melhor livro de ficção do ano passado, eleição anunciada durante a entrega do Prêmio Jabuti, na noite de segunda-feira, durante a Bienal do Livro, no Centro de Exposições Imigrantes. "Surpreso mesmo fiquei por ter sido uma obra minha", disse ele à reportagem, por telefone, de Campo Grande (MS), onde, fazendeiro aposentado, cultiva o ócio e as palavras para os próximos livros. "Fico honrado com a escolha, mas não posso negar que é bom também um tutu no bolso", diverte-se, referindo-se aos R$ 15 mil que vai receber pela obra "O Fazedor de Amanhecer" (Salamandra) Um prêmio idêntico será destinado a Ruth Rocha e Anna Flora, autoras de "Escrever e Criar... Uma Nova Proposta!" (Quinteto Editorial), escolhida o melhor livro de não-ficção do ano passado. "É curioso como descobriram as obras infanto-juvenis". comenta Manoel de Barros que, aos 85 anos. acredita estar vivendo uma nova ascensão para a infância. "Como todo velho, sou uma criança nova e, com a memória mais aguda, relembro todos os bons momentos que vivi como menino. Enxergo o mundo agora de maneira mais inocente." Ia, sou encaminhado por ela, que se desdobra e aponta caminhos." CONTRA DEFICIÊNCIAS Também eufórico com o árduo trabalho de escrever vive o escritor Rubens Figueiredo, autor de "Barcoa Seco" (Companhia das Letras), vencedor do Jabuti de melhor romance. "Escrevo contra as minhas deficiências e contra as tendências automotivas da linguagem. É como estar no alto de um plano inclinado: minha reação é evitar o comum, ou seja, seguir a deriva", comenta. Com "Barcoa Seco". Figueiredo cria uma sensação de claustrofobia ao narrar as desventuras, de Gaspar, que conta sua história em primeira pessoa. Órfão expulso da casa da família postiça, ele luta para sobreviver - mais que um relato de suas dificuldades, o livro trata de sua capacidade de se manter vivo. "A história inicialmente era para se acomodar em um conto, mas as idéias foram surgindo, começaram a crescer, a sugerir uma maior exploração até atingirem o formato de romance", explica. Leitor dos sermões do padre Vieira, hábito que o ensinou ainda jovem, a admirar a formação e utilização das palavras, Manoel de Barros mantém o mesmo ritmo de trabalho: todos os dias às 7 horas, dirige-se ao andar superior de sua casa. onde se encontra o que chama de escritório de ser inútil', lá, fico horas consultando dicionários etmológicos, descobrindo a origem das palavras, buscando motivação", afirma. "Garanto que é uma viagem melhor que qualquer outra de avião." Estimulado, ele combina suas descobertas, entortando-as. "Para não cansar, a linguagem não pode ser comum, tradicional, senão cansa, t preciso entortá-las um pouco", explica o autor de frases como "As coisas que não existem são as mais bonitas" está na abertura do "Livro das Ignorãças", atribuída a Felisdônio. O esforço é necessário, pois Manoel de Barros não acredita em inspiração. "Trabalho com a palavra e, ao busca. Alheio às fórmulas restritas de criação, que muitas vezes automatizam a linguagem, Rubens Figueiredo comprova que a teimosia compensa ao perseguir uma idéia, mesmo que a tarefa necessite a recusa incansável do trabalho já feito. "Reescrevo várias vezes e não me preocupo tanto com o tempo gasto", conta o autor, que não dedica mais que duas horas diárias para escrever. "Em compensação, teria disposição para ficar trabalhando até dez anos em cima de um único texto, sem cansar." OS PREMIADOS COM O JABUTI ESTE ANO: - Livro do Ano Ficção: O Fazedor de Amanhecer, de Manoel de Barros (Salamandra) - Livro do Ano Não-Ficção: Escrever e Criar... Uma Nova Proposta! de Ruth Rocha e Anna Flora (Quinteto Editorial) - Romance: Barco a Seco. de Rubens Figueiredo (Cia. das Letras) - Contos e Crônicas: Livro Aberto, de Fernando Sabino (Record) - Poesia: Corola, de Claudia Roquette-Pinto (Ateliê Editorial) - Poesia - Categoria Especial: Socráticas, de José Paulo Paes (Cia. das Letras) - Infantil ou Juvenil: Meninos do Mangue, de Roger Mello (Cia. das Letrinhas) - Teoria Literária Lingüística: Matrizes da Linguagem e Pensamento de Lúcia Santaella (Iluminuras/Fapesp) - Economia, Administração. Negócios e Direito: A Década dos Mitos, de Mareio Pochmann (Contexto) - Ciências Naturais e da Saúde: Dependência de Drogas, de Sérgio Dano Seibel e Alfredo Toscano Jr. (Atheneu) - Ciências Exatas, Tecnologia e Informática: 0 Fim da Terra e do Céu. de Marcelo Gleiser (Cia. das Letras) - Ciências Humanas: Festa, organização de István Jancso e íris Kantor (Edusp/Fapesp/Imprensa Ofícial/Hucitec) - Educação e Psicologia: Os Meninos e a Rua, de Tânia Ferreira (Autêntica) - Reportagem e Biografia: JK - O Artista do Impossível, de Cláudio Bojunga (Objetiva) Didático 1°e2° Grau: Biologia, de Armênio Uzunian e Ernesto Bimer (Harbra) - Tradução: Ilíada de Homero, de Haroldo de Campos (Mandarim) - Capa: A Utopia Burocrática de Máximo Modesto, de Raul Loureiro (Cia. das Letras) - Produção Editorial: Brasiliana da Biblioteca Nacional, de Victor Burton (Nova Fronteira) - Ilustração Infantil ou Juvenil: Meninos do Mangue, de Roger Mello (Cia. das Letrinhas) - Prêmio União Latina/CBL de Tradução Científica: Lete-Arte e Crítica do Esquecimento, de Lia Luft (Bertrand Brasil)