Notícia

Jornal da Tarde

Já temos o mapa genético do homem

Publicado em 27 junho 2000

Cientistas britânicos e norte-americanos anunciaram ontem que está virtualmente pronto o primeiro mapa do código genético humano. A descoberta é uma das mais importantes do século XX, tão ou mais do que a fissão do átomo, nos anos 40.0 projeto, que durou dez anos e consumiu quase US$ 3 bilhões, foi compartilhado pelo consórcio internacional Projeto Genoma Humano (HGP) - financiado por recursos públicos e que reuniu centros de pesquisa universitários de cerca de 20 países, sob o comando dos Estados Unidos - e a empresa privada americana Celera Genomics. O mapeamento de 97% do DNA humano prova cientificamente que 99,8% dos seres humanos são similares entre si, isto é, em cada 1.000 letras genéticas, há apenas duas diferenças entre as pessoas. O estudo dos genes permite desvendar o mecanismo molecular de ação de muitas doenças, abrindo novas possibilidades na área de desenvolvimento de drogas mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Isso sem falar nas possibilidades da terapia gênica ou seja, de corrigir eventuais defeitos genéticos causadores de doenças. A conclusão do seqüenciamento genético do DNA humano representa um marco histórico: é a última etapa do primeiro passo para que o homem possa conhecer, em nível molecular, todos os meandros de sua própria constituição e funcionamento. PROEZA CIENTÍFICA Os cientistas conseguiram colocar em ordem a maioria dos cerca de 3,5 bilhões de "letras químicas" (nucleotídeos) que constituem a receita básica para a "criação" e o funcionamento de um ser humano. O Brasil contribuiu com o projeto Genoma Humano disponibilizando 300 pesquisadores em 54 laboratórios espalhados por todo o Estado de São Paulo (leia mais na página 4D). O anúncio oficial da descoberta foi feito pelo presidente dos EUA, Bill Clinton, e pelo primeiro-ministro britânico Tony Blair (através de vídeo conferência) na Casa Branca. "É um dia para as eras", definiu Clinton, que comparou o mapeamento do código genético às descobertas de Galileu e ao trabalho dos exploradores Lewis e Clark, que desbravaram o interior da América do Norte. "Hoje aprendemos o idioma com que Deus escreveu a vida. E aumentamos nosso espanto perante a complexidade, a beleza e a maravilha do seu maior presente." O primeiro-ministro britânico Tony Blair saudou a conclusão do trabalho e afirmou que, em termos de medicina, o genoma supera "em muito" a descoberta dos antibióticos. Ainda este mês, o Projeto Genoma Humano oficial prevê concluir a mesma tarefa, com a diferença de que todos os dados produzidos pelo Projeto Genoma serão imediatamente colocados a disposição do público, por meio de seu banco de dados na Internet. VIDA LONGA No genoma humano encontram-se, entre outras coisas, os elementos que determinam nosso envelhecimento e morte, assim como boa parte dos segredos que tornam certas pessoas mais suscetíveis que outras a algumas doenças. Por isso, decifrar o significado da imensa massa de informações é agora a grande tarefa (apenas iniciada) dos pesquisadores. Concluir este trabalho será revolucionar as possibilidades na área de prevenção e diagnóstico precoce de enfermidades. Doenças com causa genética poderão vir a ser tratadas diretamente na raiz, no nível molecular. Será possível detectar, no nascimento, a quais doenças a pessoa é mais vulnerável. E mais: iniciar um tratamento capaz de estender a expectativa de vida além do que já se considerou possível. A cada ano morrem, só nos EUA, 100 mil pessoas por efeitos não desejados de remédios, que não eram apropriados para sua configuração genética. Com o mapeamento do genoma humano essa situação "tende a mudar", na opinião de alguns pesquisadores. "Dentro de cinco anos será possível submeter os pacientes a testes genéticos antes de prescrever qualquer tipo de medicamento." O trabalho que resta pela frente, entretanto, é colossal. Para identificar todos os genes contidos nesse material levaremos ao menos cinco anos e mais um século para conhecer as funções exatas de cada gene e a estrutura de cada proteína que codificam", calcula Andrew Simpson, diretor do Projeto Genoma brasileiro. Além de corrigir os erros e lacunas desse primeiro rascunho do DNA humano, os cientistas têm de identificar onde estão os segmentos relevantes. Cada um dos 3,5 bilhões de nucleotídeos constitui um dos "degraus" do DNA (ácido desoxirribonucléico) humano, que tem a forma de uma escada retorcida em espiral. Os degraus foram quase todos ordenados (seqüenciados), mas resta descobrir onde começa e onde termina cada um dos cerca de 80 mil genes que contêm a receita para a síntese dos milhares de proteínas que formam o ser humano. O problema é que apenas entre 3% e 5% de todo nosso material genético é constituída de genes. O restante tem funções secundárias ou é apenas resíduo evolutivo. Mais complicado ainda: segmentos desse resíduo encontram-se não só entre os genes como intercalados com segmentos de um mesmo gene (exons). Uma vez separado o trigo do joio restará ainda descobrir a função exata de cada gene. Até o momento foram identificados apenas cerca de 11 mil dos 80 mil genes que se estima formam o genoma humano, sendo que são conhecidas algumas funções apenas de metade deles. Somente dois dos 23 pares de cromossomos humanos já estão totalmente seqüenciados. Feito isso, caberá descobrir onde estão escritas as ordens que determinam que apenas alguns genes se manifestem em cada um dos nossos tecidos, uma vez que a maioria das tão diversas células humanas possui o genoma completo. Restará ainda também desvendar o que determina que um mesmo gene ora se expresse com todos os seus fragmentos (os introns), ora apenas com parte deles, fazendo com que a maioria dos genes seja capaz de sintetizar mais de uma proteína. Por último, a gigantesca tarefa de conhecer a forma e função exata de cada uma delas. CURA DO CÂNCER Os cientistas britânicos envolvidos no Projeto Genoma acreditam que o mapeamento do DNA humano pode ter um impacto profundo na batalha contra o câncer - uma das doenças que mais matam em todo o mundo. O estudo dos genes humanos permitirá aos cientistas assinalar as causas e o melhor tratamento contra um determinado tipo de câncer. "Para mim, seria inconcebível que isso ocorresse antes de 20 ou 30 anos", afirmou o diretor do projeto britânico Genoma Câncer, do instituto Sangre Centre, Mike Stratton. "É preciso lembrar que o câncer é uma doença do DNA, principalmente", explicou Stratton, que foi um dos pesquisadores que identificou o gene que produz o câncer de mama. Os cientistas vão comparar agora os genes de células cancerosas para procurar a diferença entre genes com câncer e genes normais. Os resultados da equipe do doutor Stratton poderão eliminar de quase 200 tipos de câncer e 20 genes anormais, começando pelos mais mortais, como o do pulmão, próstata, ovário e colo. "Este é um momento de grande esperança", suspirou o cientista. BASTARÁ APENAS UM EXAME DE SANGUE Andrew Simpson, médico pesquisador do Instituto Ludwig, conta como o Projeto Genoma vai poder ajudar a nossa Saúde. O inglês Andrew Simpson, 45 anos, mora em São Paulo desde 1990. Ele é médico-pesquisador do Instituto Ludwig, sediado em Zurich e com representações espalhadas pelo planeta, que se dedica à luta contra o câncer. Aqui, ele conta como o Projeto Genoma vai facilitar nossa saúde e nos proteger muito mais. Jornal da Tarde - Como o mapeamento beneficiará as pessoas na prática ? Andrew Simpson - Em primeiro lugar com o aperfeiçoamento de diagnósticos de doenças, que serão mais informativos, darão mais informações para o médico tratar melhor do paciente. Vamos tomar o câncer como exemplo. Existem pessoas com predisposição à doença e nesses casos é possível preveni-la, pois no câncer o importante é identificar o tumor quando ele ainda se encontra numa fase microscópica. É fácil de curar. Os conhecimentos adquiridos com o Projeto Genoma permitem justamente verificar as alterações celulares com a antecedência necessária. Em segundo lugar, talvez no mesmo grau de importância, esses conhecimentos vão aperfeiçoar os remédios. Vai surgir uma nova geração de medicamentos específicos. Vamos tomar o câncer como exemplo outra vez. Os tumores cancerígenos são muito complexos. Um tumor é diferente em cada pessoa. De modo que, com remédios específicos para o tipo de tumor, ficará mais fácil tratar. Esses remédios específicos podem atacar a causa da doença e não os fatores periféricos. É bom lembrar que já existe uma droga específica para câncer de mama e para leucemia. Mas como se nota, o desenvolvimento nessa área ainda é bem restrito. O médico do paciente vai estar preparado para fazer uso desses conhecimentos. Por exemplo, um médico de família, de convênio de saúde? Esse médico não precisará ser um especialista em Projeto Genoma ou mapeamento genético. Ele simplesmente pede um exame de sangue ao seu paciente, cujo mostra será enviada a um laboratório da análise, que se encarregará de informá-lo. De posse dessa informação, o médico iniciará o tratamento com o remédio específico. Mas evidentemente, todos os dados do Projeto e os testes de diagnósticos serão divulgados à classe médica. Quando essas maravilhas vão estar ao alcance de todos? Os laboratórios vão desenvolver a aplicação dos conhecimentos conquistados. Mas eu acredito que, dentro de cinco anos, já existirá um kit prático para exames. A verdade é que o mapeamento vai influenciar tudo que se refira à saúde e aos tratamentos de saúde dos seres humanos. Está aberto um caminho cuja tendência é a de se alargar cada vez mais. Nos próximos 10 anos, a medicina terá um avanço proporcional ao que teve nos últimos 50 ou 60 anos. E as doenças hereditárias, as malformações...? O mapeamento completará o conhecimento que temos ou definir aquelas que são pouco conhecidas como o Mal de Alzheimer. Em ambos casos estará abrindo caminho para prevenção ou tratamento mais eficiente. Quer dizer que, nos próximos anos, o Genoma vai estar nos exames pré-nupciais (como o RH do sangue)? No futuro poderão ser sugeridas possibilidades como essa. Mas o importante é que o uso desses conhecimentos científicos passe por uma discussão na sociedade. Pode, por exemplo, haver mau uso desses conhecimentos em favor de manipulações de caráter genético com finalidades raciais ou para satisfazer vaidades. É por isso que a sociedade deve decidir e regulamentar sobre o uso dessas informações. PARA 25 DOENÇAS MORTAIS, TESTES DE PREPOSIÇÃO ATÉ 2010 Em 2010, testes de predisposição genética para as 25 maiores causas de doença e morte nos países desenvolvidos estarão disponíveis, prevê Francis S. Collins, chefe do Projeto Genoma Humano do Instituto Nacional de Saúde do governo Clinton. A dúvida do doutor é se as terapias para evitá-las estarão ao alcance dos pacientes. Collins persegue respostas para o que virá no fim do túnel: onde irá levar esta pesquisa? Usar a genética para organizar e desenvolver a assistência à saúde será a principal contribuição do projeto de mapeamento genético, desde que leis efetivas sejam aprovadas para proteger a privacidade, prevenir o uso de informações que possam privar um indivíduo de obter seu seguro-saúde ou o emprego, e proibir qualquer forma de discriminação genética. Esse é o raciocínio de Collins, que considera urgente um levantamento que determine quando os testes estarão disponíveis, em função de pressões comerciais que possam persuadir pacientes e médicos a fazer uso deles antes mesmo que sejam aprovados. Ainda que poucas dessas previsões se efetivem, problemas políticos e econômicos surgirão. O poder das novas informações genéticas irá agravar as desigualdades no acesso à assistência médica dentro de cada país e entre aqueles desenvolvidos em relação às nações do Terce iro Mundo. Atualmente, sabe-se que 4000 enfermidades decorrem da ação de um gene único, o que permite pensar numa intervenção genética relativamente simples. Mas a idéia de homem perfeito permanece impossível. Em 2010, o genoma vai identificar pessoas com alto risco de doenças especificas, possibilitando monitorar a prevenção. Nos casos de câncer, testes poderão identificar fumantes com alto risco de câncer de pulmão. Testes para câncer de próstata vão levar ao uso mais preciso do antígeno especifico prostático, o PSA. identificando os que correm riscos de progressão mais rápida do tumor. Testes genéticos adicionais deverão guiar tratamentos para cânceres de mama e ovários. Três ou quatro testes vão prever o desenvolvimento de distúrbios coronários. Através deles, poderá se determinar quando prescrever remédios e outros apoios terapêuticos, reduzindo a necessidade de cirurgias. Testes de alto risco para diabetes servirão para encorajar paciente a controlar peso. Os que apresentarem alto risco poderão tomar remédios antes mesmo que os sintomas apareçam. Os cientistas tem uma visão ainda parcial da osteoporose. Collins acha que, com os próximos progressos, "você pode imaginar combinar um tipo de teste com a decisão de aplicar uma terapia baseada em cálcio e vitamina D antes que a perda de material ósseo aconteça". Testes antes do nascimento, hoje uma rotina nos consulto rios, serão realizados antes que um embrião seja implanta do no útero. Muitos casais vão recorrer a eles para reduzir a chances de gerar crianças com risco de desenvolver não exata mente condições "patológicas mas indesejáveis". Se isso acontecer, o capitulo seguinte serão debates sobre ética. Em 2020, os médicos estarão seguros em torno das varia ações genéticas individuais pa ra prescrever velhos e novos remédios, escolhendo também as doses. Uma droga específica irá atingir as moléculas de um tumor cancerígeno. Por sinal que uma delas, Herceptin, desenvolvida a partir de estudos genéticos, já é empregada no tratamento de câncer de mama em estágio avançado. "Uma das maiores contribuições da Medicina Genômica será no tratamento de doenças mentais, como esquizofrenia e distúrbios maníaco-depressivos", declara Francis S. Collins, convicto de que novos processos terapêuticos ajudarão pacientes hoje submetidos a drogas pesadas. Em 2030, pesquisadores do mapa genético vão desenvolver modelos computadoriza dos completos das células nu manas, podendo analisar todos os genes humanos, proteínas e suas interações, segundo Collins. Disso vai decorrer um resultado incrível: as experiências hoje realizadas em laboratórios com animais ou eventualmente com cobaias humanas serão totalmente completadas em computador, Collins aconselha: "Se eu fosse um estudante de Medicina, eu seguiria essa trilha profissional." Em 2040, a terapia genética e os remédios geneticamente desenvolvidos estarão disponíveis para a maioria das doenças. A expectativa de vida alcançará 90 anos. FORNECEDORES DO DNA SÃO MANTIDOS INCÓGNITOS A quem pertence o DNA que foi seqüenciado pela Celera? A várias pessoas, pois a empresa usou células coletadas de americanos nas pesquisas. O material inicial veio de Los Angeles e Buffalo, no Estado de Nova York. Na época, os cientistas estavam usando também amostras de DNA estocadas para outras experiências. Depois, foi usado o DNA de voluntários em Rockville, Maryland. Foram recolhidas amostras - sangue das mulheres, sangue e esperma dos homens de 30 pessoas de várias etnias e, desse total, seis foram selecionada são acaso para isolamento e purificação. Embora a maior parte do genoma seqüenciado pela Celera represente um só indivíduo, pequenos segmentos de DNA dos outros cinco foram usados na pesquisa. Segundo Heather Kowalski, assessora de imprensa da Celera, a empresa vai preservara identidade dos doadores, que jamais vão saber se estavam ou não entre os seis escolhidos. Mas, enquanto centenas de pesquisadores iam em busca do genoma - padrão, outros estão atrás da diversidade, algo que os levou ás savanas africanas & aos desertos gelados do Ártico. Trata-sedo Projeto da Diversidade do Genoma Humano, iniciado em 1992, dois anos após o Projeto Genoma Humano. Seu objetivo é mapear as minúsculas diferenças existentes em certos códigos genéticos. "Procuramos pelas variações nos seres humanos; sabemos que descendemos de um pequeno grupo africano que começou a se espalhar pelo mundo há 55 mil! anos", explica o professor Luigi Luca Cavalli-Sforza, da Universidade Stanford. "Nesse! período, houve variações, mas não o bastante para provocar grandes mudanças, por isso há tão poucas diferenças entre as populações humanas." 300 BRASILEIROS NA PESQUISA MUNDIAL Com a conclusão do seqüenciamento genético do homem, mais uma vez o Brasil - e o mundo - vê a ciência desvendar os mistérios da vida. Desta vez, entretanto, os cientistas do País não são apenas observadores. Cerca de 300 pesquisadores brasileiros, trancafiados em laboratórios espalhados em todo o Estado de São Paulo, participam do Projeto Genoma Humano (HGP) desde abril do ano passado. "Começamos a fazer parte do projeto depois de já termos seqüenciado a Xylella fastidiosa (praga que ataca as plantações de laranja) e desenvolvido conhecimento suficiente para tentar um novo desafio", afirma o diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Paulo (Fapesp), José Fernando Perez. A Fapesp, em parceria com o Instituto Ludwig, é responsável pela participação do Brasil no HGP do Câncer que todo objetivo também de seqüênciar os genes dos tumores. E a tarefa brasileira é grande: os cientistas têm a missão de ajudar a decodificar apenas os 3% do genoma humano que têm informações relevantes. "O HGP começou em 1990 com o sonho de seqüênciar o DNA humano. Na primeira etapa, o genoma foi dividido em pedaços e distribuído para laboratórios de todo o mundo, mas principalmente dos Estados Unidos, Inglaterra, França e Japão. Nesta etapa, nós não participamos", explica o coordenador do projeto Fapesp/Ludwig, Andrew Simpson. SEM IDENTIFICAÇÃO "Estes laboratórios colocaram a maioria dos 3 bilhões de nucleotídeos que formam o DNA humano em ordem, mas não identificaram quais conjuntos possuem informações ou não. A dificuldade é saber o que tem significado e esta é a segunda etapa do projeto, da qual fazemos parte. Nosso trabalho é o de seqüênciar os 3% que têm conteúdo, que são os genes." Para facilitar a missão dos cientistas, esses genes são quebrados em pequenos pedaços e, então, identificados e decodificados. Até agora, os brasileiros já seqüenciaram mais de 400 mil pedaços de genes e, até o fim do ano, este número chegará a mais de 1 milhão. "Queríamos decodificar 500 mil até metade de 2001, mas nos adiantamos e aumentamos nossa meta", afirma Perez. No mundo inteiro, estão seqüenciados 2 milhões de pedaços. Além do Brasil, laboratórios dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão também tentam decodificar os genes com tecnologias diferentes. "Já identificamos 150 novos genes e não sabemos quantos poderão ser decodificados até o fim do ano, mas acho que, em três anos, deveremos ter todos os genes seqüenciados."Os pesquisadores ainda não sabem o número exato de genes do homem, mas a quantidade possível varia de 30 mil a 120 mil, explica o diretor da Fapesp. Todo este trabalho brasileiro está sendo possível graças à nova abordagem que os cientistas do País criaram para seqüênciar apenas genes: a estratégia Orestes. A técnica faz o seqüenciamento partindo do RNA mensageiro e não do DNA. O motivo é simples: cada gene codifica informação para produzir uma proteína diferente e essa produção só ocorre com a intervenção do RNA. Então, o RNA funciona como o negativo de uma fotografia (o DNA), onde figuram apenas os genes de determinado tecido. "Esta técnica vem se mostrando eficaz e já é reconhecida internacionalmente", diz Simpson. DIAGNÓSTICOS PRECOCE Como seqüenciamento é possível descobrir a função de um gene e seu desenvolvimento. Assim, o diagnóstico e o tratamento de doenças se tornam mais fáceis. "Acreditamos que, decifrando todos os genes, daremos uma enorme contribuição para a prevenção e tratamento de muitas doenças e, principalmente, do câncer, já que este é o nosso projeto", afirma Simpson. O coordenador do Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - um dos cinco centros de seqüenciamento do País - Fernando Costa, explica que um dos objetivos do HGP do Câncer é compreender o comportamento dos genes dos tumores. "Teremos uma grande base de dados de tumores para prevenir e tratar a doença e os benefícios disto variam desde o diagnóstico precoce até a descoberta do tratamento mais adequado para cada tipo de câncer. O Brasil sabe como fazer o seqüenciamento e mostrar onde estão os genes corretamente." Perez conclui: "A participação brasileira no Projeto Genoma Humano é fundamental justamente porque mostra onde está cada gene e o que ele quer dizer." O BRASIL NO PROJETO GENOMA HUMANO DO CÂNCER - 300 cientistas - 54 laboratórios - 5 centros de seqüenciamento - 400 mil pedaços de genes seqüenciados - 150 novos genes já identificados Fonte: fapesp FAPESP VAI SEQÜENCIAR PRAGA DE UVA DOS EUA O Brasil está acostumado a pedir ajuda aos Estados Unidos para resolver seus problemas monetários, sociais e científicos, mas desta vez são os norte-americanos que vêm buscar apoio brasileiro. O Ministério da Agricultura dos Estados Unidos procurou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para que seus cientistas façam o seqüenciamento genético de uma praga que ataca as videiras californianas. "A uva da Califórnia é atacada por um tipo de Xylella muito semelhante à Xylella fastidiosa, que seqüenciamos integralmente, e eles pediram nossa ajuda", explica o diretor-científico da Fapesp, José Fernando Perez. O seqüenciamento da Xylella fastidiosa - uma bactéria que ataca as plantações de laranja - foi o primeiro projeto da Fapesp nesta área. "O desafio começou em outubro de 1997 e terminou em fevereiro, seis meses antes do prazo. Até agora, ela é o único organismo causador de uma praga seqüenciado no mundo", diz Perez. Já os trabalhos de seqüenciamento da Xylella norte-americana devem começar dentro de um mês. "Conhecendo todos os genes de uma bactéria, é possível combater a praga e salvar as plantações atingidas." REDE VIRTUAL Para o primeiro trabalho brasileiro, foi montada uma rede virtual com 35 laboratórios do Estado de São Paulo chamada Onsa (Organization for Nucleotide Sequencies and Analysis), que troca informações entre si. Hoje, a Onsa já tem 54 laboratórios, todos paulistas. "Com esta rede, conseguimos decodificar os 2,7 milhões de nucleotídeos da Xylella. Mas o desafio maior ainda está em andamento, já que o corpo humano tem 3 bilhões de nucleotídeos". afirma Perez. Além do projeto Xylella e do Projeto Genoma Humano, a Fapesp pretende seqüenciar a xanchomonas - bactéria que atinge produtos cítricos - e a cana-de-açúcar. RECONHECIMENTO O reconhecimento internacional dos cientistas brasileiros está presente também nas principais publicações da área. Em duas ou três semanas, toda a pesquisa da Xylella será publicada na revista Nature. A Science Magazine já publicou uma matéria intitulada "A história da Cinderela do Genoma", referindo-se ao Brasil como uma das maiores promessas na área do seqüenciamento genético do mundo e o site EM-BN, sobre descobertas científicas, escreveu "Brasil, a nova Meca para os genomas?", alertando a comunidade internacional para o desenvolvimento do País no assunto. "A participação brasileira será cada vez maior neste ramo. pelo menos, estamos trabalhando para isto", acredita Perez. A coordenadora do Centro de Seqüenciamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) - um dos cinco que fazem a decodificação dos genes no País - Maria Aparecida Nagai, também acredita que o desenvolvimento do País na área está sendo grande: "Os projetos de seqüenciamento são bastante competitivos, principalmente o Genoma Humano, mas estamos gerando um grande número de seqüências e conquistando nosso espaço". CRONOLOGIA 1865 - O monge austríaco Gregor Mendel demonstra as leis da herança genética, a partir de ervilhas 11869 - O patologista suíço Friedrich Miescher descobre nos espermatozóides de peixes o DNA (ácido desoxirribonucléico) 1900 - O alemão Correns, o austríaco Tchermak e o holandês De Vries redescobrem as leis de Mendel, individualmente 1901 - De Vries informa sobre a ocorrência de mutações 1963 - O biólogo americano James Watson e o físico inglês Francis Crick descrevem a estrutura da molécula de DNA como uma dupla hélice 1969 - Cientistas da Escola de Medicina de Harvard isolam o 1º gene do DNA responsável pelo metabolismo do açúcar 1973 - Pesquisadores produzem a 1ª bactéria geneticamente modificada (via a introdução de um gene de vaca em seu DNA) 1976 - A primeira empresa de engenharia genética, Genentech, é fundada em São Francisco 1977 - Cientistas dos EUA introduzem pela primeira vez em uma bactéria material genético de células humanas 1978 - Nasce na Grã-Bretanha o primeiro bebê de proveta 1982 - Os EUA lançam o 1º medicamento produzido por manipulação genética (uma forma de insulina humana produzida por bactérias) 1984 - O inglês Alec Jeffeys desenvolve a técnica que permite identificar pessoas a partir de fragmentos de DNA 1985 - A identificação pelo DNA é usada em investigação policial 1985 - Indústria incorpora o 1º produto por engenharia genética (quimosina, usada em queijos) 1986 - FDA aprova vacina contra a 1° hepatite B humana, a Ia produzida por manipulação genética. 1988 - A Univ. Harvard é premiada por ter patenteado o primeiro animal geneticamente alterado, um rato altamente suscitável a câncer de pulmão 1989 - Fundado o Centro Nacional para Pesquisa do Genoma Humano, que terá US$ 3 bi do governo dos EUA para seqüencial o DNA até 2005 1990- Começa o Projeto Genoma Humano (PGH) internacional financiado basicamente pelos EUA 1991 - Gene é relacionado a tipos de câncer de pulmão e ovário 1993 - Pesquisadores de Washington clonam embriões humanos e os incubam por alguns dias, provocando protestos romeira - Cientistas brasileiros 1993 - Francês Danel Cohen constrói o mapa genérico dos 23 pares de cromossomos humanos 1995 - A empresa Tigr, de Craig Venter, conclui o primeiro seqüenciamento genético completo de um ser vivo,a bactéria Haemophilus, causadora de pneumonia e meningite 1995/96- Plantas transgênicas (tomate, soja. milho, algodão) são produzidas comercialmente 1997 - Escoceses apresentam a ovelha Dolly, 1º mamífero produzido por clonagem (reprodução do mesmo material genético) de uma célula adulta projeto privado para decodificar todo o genoma humano até 2001 1998 - Cientistas do Havai produzem dezenas de clones seqüenciamento genético, com o estudo da Xylella fastidiosa 1998 - A empresa privada Celera, de Venter, aceita desafio de completar o seqüenciamento genético humano, usando uma técnica diferente e controvertida 1999- Firmado o Protocolo de Cartagena, que fixa regras internacionais básicas de biossegurança para transgênicos Novembro/99 - O Projeto Genoma conclui o primeiro seqüenciamento de um cromossomo completo, o 22 2000/Janeiro - Craig Venter informa que sua empresa Celera seqüenciou 90% do material genético, incluindo dados obtidos por pesquisadores do projeto oficial Genoma Humano Fevereiro - concluem o seqüenciamento genético da 1ª bactéria responsável por praga agrícola, a Xylella fastidiosa Março - Instituto Médico Howard Hughes, em parceria com a Celera, anuncia a conclusão do seqüenciamento do genoma da drosófila. mosca da fruta, o mais complexo ser vivo já seqüenciado Abril - Venter anuncia ter concluído 99% do seqüenciamento genético de um ser humano. Maio - O Projeto Genoma conclui o seqüenciamento completo do cromossomo 21 AGORA, A GENÉTICA SAIU DA PRÉ-HISTÓRIA Seqüenciamento do genoma humano, anunciado ontem, é o primeiro passo no século da biotecnologia A genética, que estuda a hereditariedade e suas variações e deve revolucionar o século 21, é uma ciência recente cujos progressos só se tornaram possíveis com a ajuda dos computadores, capazes de operar simultaneamente o número astronômico de informações que estão codificadas em cada molécula de DNA presente no núcleo de cada célula viva. O genoma humano foi seqüenciado, sabemos onde fica cada gene que constitui a molécula espiralada do DNA que produz o homem, mas ainda é preciso saber para que proteína cada gene codifica a célula em que está, porque cada um deles usa as proteínas para se comunicar e constituir células e tecidos. Também são toscas as tecnologias de manipulação desse mundo infinitamente pequeno, em que milhões de comandos diferentes estão contidos num único núcleo de célula. Por causa das dimensões super-reduzidas, não há agulha ou instrumento capaz de trocar de lugar um cromossomo (espécie de degrau que forma a molécula de DNA e que é constituído por genes). Para mexer num determinado cromossomo, os cientistas tinham de bombardear a molécula com átomos de tungstênio, uma espécie de tiro ao alvo aleatório. Essa dependência de alta tecnologia explica por que a engenharia genética só se desenvolveu nos anos 70, quando foram descobertas as enzimas redutoras, capazes de cortar a molécula de DNA em partes e retirar determinado gene de um ser vivo para introduzi-lo em outro, dando origem aos transgênicos. Com isso, foi possível, por exemplo, induzir bactérias a produzirem proteínas humanas como insulina (1982), hormônio do crescimento e antígenos contra a hepatite B, que resultaram numa vacina eficiente. Em 1988, foi produzido o primeiro animal geneticamente alterado: um rato altamente susceptível ao câncer de pulmão, usado como cobaia. Em 1995, começaram os primeiros cultivos comerciais de plantas transgênicos (que possuem genes de vírus ou de outras plantas que as tornam resistentes a herbicidas, barateando a lavoura, ou lhes aumentam o teor nutritivo). Hoje, o mundo tem pelo menos 40 milhões de hectares de cultivos geneticamente modificados. Nos Estados Unidos, 72% das áreas cultivadas já são ocupados por transgênicos. BACTÉRIA SEQÜENCIADA Desde que o primeiro ser vivo (uma bactéria) teve seu DNA totalmente seqüenciado, em 1995, mais de 30 outros organismos tiveram seu genoma completo descrito - entre eles um fungo, uma mosca, um verme e o vírus HTV, que provoca a Aids. Desses conhecimentos já resultaram testes genéticos de predisposição a várias doenças, além de inúmeros medicamentos, entre os quais os coquetéis usados contra o HIV. O cientista e empresário americano John Craig Venter, dono da Celera Genomics e criador das técnicas de seqüenciamento das estruturas químicas do genoma dos seres vivos, usa os mais poderosos computadores do mundo para localizar cada peça do quebra-cabeça do código genético humano, que é constituído de quatro elementos químicos - alanina (A), timina (T), citosina (C) guanina (G) - ordenados de diferentes formas e distribuídos em nossos 23 pares de cromossomos. Cada um dos nossos 100 trilhões de células carrega no núcleo esse mapa, com cerca de 3,2 bilhões dessas letras combinadas de forma diferente. A localização de cada gene abre caminho para a descoberta da cura de todas as doenças geneticamente determinadas, como o câncer, a ponto de o presidente norte-americano Bill Clinton ter dito que, para os filhos de nossos filhos, abre-se a perspectiva de que a palavra câncer designe apenas uma constelação no céu e não mais a grave doença que hoje mata milhares de pessoas todos os anos. Embora o seqüenciamento das proteínas ainda deva demorar cerca de cem anos, segundo estimativa de John Craig, isso abre perspectivas de que os tratamentos genéticos amplie maduração da vida humana. O cientista Isaac Asimov já havia previsto grandes progressos nessa área e chegou a falar que no ano. 2.400, provavelmente o homem terá descoberto a chave da imortalidade, graças ao aprofundamento da engenharia genética.