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Correio Popular

IZ vive fase de mudanças e incertezas

Publicado em 16 novembro 2003

Mudança que desvinculou a maioria das estações experimentais do Instituto de Zootecnia e as repassou para a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) abalou as estruturas da instituição. Hoje, quem anda pela fazenda onde estão os prédios do IZ, em Nova Odessa, nota que há muito mais salas vazias do que antes da reestruturação. Dos 82 pesquisadores que trabalhavam diretamente ligados à sede, restam 43, entre as Instalações da matriz e de Sertãozinho, o único braço do instituto fora de Nova Odessa. O projeto da Apta é fazer das antigas estações experimentais parte de uma matriz de projetos de pesquisa. O que falta, segundo o diretor do IZ, Antônio Álvaro Duarte de Oliveira, é o projeto sair do papel. "Se essa matriz estiver em funcionamento, a mudança terá valido a pena." Apesar da quantidade de recursos financeiros repassada pelo Governo do Estado ser pequena, o Instituto de Zootecnia consegue manter o nível de suas pesquisas com a ajuda de agências de fomento, parceiras indispensáveis nessa empreitada. Abaixo, um pouco da importância histórica da entidade e dos desafios a serem vencidos, em trechos de entrevista realizada com Oliveira na sede do IZ: O Instituto de Zootecnia é um órgão estatal. De quanto é o orçamento da instituição e como ele é aplicado em pesquisa? O Instituto foi criado em 1905, ainda como Posto Zootécnico Central. Como Instituto ele existe desde 1970. É um órgão do Estado e hoje ele é parte da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), como os institutos Agronômico (IAC), Biológico (IB), de Economia Agrícola (IEA), de Pesca (IP) e de Tecnologia de Alimentos (Ital). Por ser de administração direta, o orçamento 6 diretamente destinado pela Assembléia Legislativa, e é pequeno. Considerando pessoal, chega a R$ 2 milhões, que envolve manutenção e parte para a pesquisa. Os recursos para a pesquisa não são muitos. Mas existe o orçamento indireto. Temos um Fundo Especial de Despesa, proveniente de arrecadações que o próprio instituto faz com a venda de material tecnológico. O leilão realizado no último dia 31 em Sertãozinho é um exemplo Hoje, essa fonte de receita é mais representativa que a outra. O IZ possui hoje, depois da criação da Apta, uma nova estrutura. É visível que o quadro de funcionário e pesquisadores, por exemplo, está mais enxuto... Antes o instituto tinha a sede em Nova Odessa e 12 estações experimentais. Hoje, com a Apta, temos fora a sede apenas o Capta (Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio) Bovinos de Corte, em Sertãozinho. Houve uma redução da instituição do ponto de vista administrativo. A Apta pretende que as outras unidades, que antes pertenciam tanto ao IZ quanto a outros institutos, formem uma matriz de projetos de pesquisa. Isso não está ocorrendo ainda. Esperamos que ocorra em breve. É uma critica que multa gente faz ao novo modelo. O Instituto perdeu muita gente com essa mudança? Ah, perdemos muito. O Instituto era um órgão de porte médio. Tínhamos 82 pesquisadores. Hoje temos 43. Os 82 Já eram insuficientes na época. Imagine agora. Dos mais de 600 funcionários que tínhamos antes, no total, o número atual caiu e hoje não chega a 200. É bom ficar claro, porém, que o que falta é funcionar a matriz de projetos de pesquisa proposta pela Apta. Se ela estiver em funcionamento, a mudança terá valido a pena. Caso contrário, que tipo de prejuízo essa redução do quadro pode causar a longo prazo? Se essa matriz de projetos de pesquisa tecnológica idealizada pela Apta não acontecer, o prejuízo vai ser grande, porque as estações experimentais estarão desvinculadas da parte científica e ao mesmo tempo os Institutos estarão mais fracos, porque perderam seus tentáculos que, antes, permitiam que eles agissem sobre as várias regiões do Estado. É claro que a gente espera que a matriz funcione e logo. Quem permaneceu na sede e na estação de Sertãozinho está sobrecarregado? Não, porque quem ficou aqui em Nova Odessa ou em Sertãozinho, por exemplo, já estava nesses lugares. O que se perdeu foi a ramificação das ações institucionais. Há quanto tempo o Instituto não contrata pesquisadores? Só contratamos por meio de concurso pública O último foi realizado em 1992. Já está sendo providenciado um novo concurso. Agora há necessidade de termos mais pesquisadores. Mas essa necessidade Já existia antes, precisávamos disso de qualquer forma. Como funciona o incentivo à pesquisa e como o trabalho desses cientistas chega ao produtor? Hoje, o IZ tem o Centro de Genética e Reprodução, o Centro de Nutrição Animal e Pastagens, o Centro de Zootecnia Diversificada, o Capta Bovinos de Leite (Nova Odessa) e o de Bovinos de Corte (em Sertãozinho). Os projetos de pesquisa, até por falta de recursos próprios, são cerca de 90% deles financiados por agências de fomento, como a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério de Ciência e Tecnologia), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), mas principalmente Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de são Paulo e por outras fundações, por meio de parcerias, como é o caso da Fundepag (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa Agropecuária) e da Fundag (Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola), que nos auxiliam muito na questão da pesquisa. Temos hoje diversas parcerias e o mais difícil é agregar prestação de serviços com projetos tecnológicos, mas acredito que estejamos conseguindo realizar isso. As principais linhas de pesquisa do IZ atualmente são o melhoramento de zebu e as pesquisas com pastagens? Isso. Para se ter idéia, a matriz genética do gado zebu que se tem no Brasil saiu daqui. Em Sertãozinho, há um projeto de melhoramento que tem mais de 50 anos. É só imaginar o que já saiu de produto tecnológico dali, representado por reprodutores e sêmen, marcando a evolução desse trabalho. Na área de pastagens, a nova lei de proteção de cultivares fez com que crescesse muito a demanda de produtores, de fábricas de sementes de forrageiras, para avaliação das plantas e registro das mesmas no Ministério da Agricultura. Nessa linha, o instituto tem diversos clientes, do Brasil e de fora do país. As pastagens representam 54% da área cultivada no Estado de São Paulo. O IZ também foi pioneiro no processamento de informações sobre gado de leite, o que permitiu a doação de um critério mais rigoroso e eficiente de seleção desses rebanhos. E é por isso que hoje, em São Paulo, a maioria dos criadores é de grande porte. O Instituto teve origem em São Paulo. Por que velo se fixar em Nova Odessa, posteriormente? Na minha opinião, essa mudança não foi uma boa estratégia. Ela foi uma tentativa de interiorizar a questão da pesquisa, mas quando se fala em política tecnológica, a sede deveria estar presente em alguma cidade de porte maior. Se tivesse mesmo que ser transferida de São Paulo, o que Já me traz dúvidas sobre ser esta a melhor escolha, o ideal seria se fixarem Campinas. Inclusive, já havia instalações prontas na cidade para abrigar o IZ, em uma área próxima à avenida General Carneiro (Vila Industrial). O que temos hoje aqui em Nova Odessa poderia ser uma unidade experimental e a sede, sim, em Campinas ou no Parque da Água Branca, em São Paulo, onde tudo começou. Isso facilita o contato com o governo e, mais que isso, possibilita acesso melhor à pesquisa. Aqui é muito difícil conseguir reunir muita gente em um evento, um congresso sobre avaliação de plantas forrageiras, por exemplo. Um congresso recebe um número grande de pessoas. E a cidade não tem estrutura, há dificuldade de locomoção, estamos cercados de pedágios. Era pior antes. Em 1976, quando viemos para cá, não tínhamos nem telefone. Então, penso que tinha sido um erro estratégico grave. O instituto não se sente deslocado, porque busca estar perto da informação, dos centros de decisão. Mas poderia estar melhor localizado. O pecuarista vem basear tecnologia aqui ou a localização dificulta esse acesso? Ele vem, sim. A questão, quando disse que o Instituto poderia estar melhor localizado, não é que perdemos público. Não. Mas ele poderia ser maior se estivéssemos numa cidade de grande porte como Campinas, Ribeirão Preto, São Paulo. Mesmo assim, o produtor vem aos dias de campo, leilões, seminários, congressos. E o consumidor, como ele tem acesso aos resultados da pesquisa? Como isso chega à mesa? Se a carne e o leite têm bom preço é porque se tem boa produtividade no campo. E isso se deve, boa parte, à pesquisa que se realizou e ainda é feita aqui. Na área de bovinos de corte, por exemplo, o programa de melhoramento genético representa um ganho, de geração para geração, de pelo menos 3 quilos por animal ano. Multiplique isso pelo rebanho nacional. Além disso, a gente agora está querendo cercar toda cadeia produtiva e, em parceria com o Ital, vamos chegar à outra ponta, onde o consumidor analisa a qualidade, a maciez da carne O que esse consumidor enxerga? Preço e a qualidade E nesses dois tópicos temos muita influência, pois agregamos valor à carne e ao leite produzidos no País. Queremos levar à comunidade a informação de que isso é feito aqui. Queremos mostrar como a tecnologia auxilia na alimentação das pessoas. Estamos avaliando uma forma eficiente de fazer isso.