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Revista DBO

IZ uma saga do Nelore produtivo

Publicado em 01 abril 2011

Por Por Ivaris Júnior

Com mais de um século trabalhando pela pecuária com vistas à produtividade, à eficiência e ao bem estar animal, o Instituto de Zootecnia de São Paulo detém, hoje, um dos grandes trabalhos do Nelore. A avaliação é unânime entre os principais conhecedores da raça de todo o País e está expressa no material genético que comercializa em todas as regiões brasileiras. Seu desempenho zootécnico tornou seus animais topes nos principais sumários e estrelas em leilões de genética voltada à produção de carne. Um dos mais importantes personagens da história de sucesso do Nelore do IZ é Leopoldo Andrade de Figueiredo, mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1985. Como Pesquisador Científico VI do Instituto de Zootecnia, publicou dezenas de artigos em periódicos especializados e mais de uma centena de trabalhos em anais de eventos. Para a Revista Nelore, ele descreve em detalhes o que o órgão vem fazendo com a raça há mais de 30 anos.

Nelore - Quais os principais objetivos do IZ ao selecionar Nelore e as demais raças bovinas?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - O principal objetivo do Projeto de Seleção do IZ é aumentar a produção de carne por animal e diminuir a idade ao debate. No final da década de 1970, quando esse projeto foi implantado, a idade de debate dos novilhos no Estado de São Paulo era alta, com média de 45 meses, e não havia informações sobre a eficácia da seleção para crescimento em zebu. Além disso, era necessário mostrar aos criadores de gado de elite e produtores de carne como fazer seleção mediante resultados de experimentos em bovinos. Assim, o IZ delineou um projeto de seleção baseado no desempenho próprio de um único critério de seleção obtido dentro de grupos de contemporâneos. Essa seleção é fácil de ser realizada e os valores genéticos estimados a partir do desempenho individual podem ser calculados pelo próprio criador. Na década de 1990 foi mostrado que, a cada ano, essa seleção resultava em cerca de 1% de aumento da média genética do peso ao sobreano. Em 2010, o acréscimo observado com essa seleção foi de 60kg/animal no peso ao sobreano em uma mesma idade, o que reflete diretamente no aumento da produtividade e da renda no momento da comercialização. Uma mudança de 32kg a mais por animal também ocorreu no peso a desmama, com aumento de renda na venda de bezerros desmamados. Além do objetivo principal, o projeto de seleção do IZ foi mantido como material de pesquisa para elucidar outras questões referentes aos efeitos da seleção para crescimento, como mudanças em características morfológicas, reprodução de machos e fêmeas, comportamento, eficiência alimentar, carcaça e, atualmente, estudos genômicos e de características relativas à sustentabilidade, como emissão diária de metano.

Nelore - Nestes 30 anos de seleção quais foram os momentos cruciais em termos de mudanças e incrementos no trabalho?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - Na implementação do projeto de 1979 a 1981, um momento crucial foi a introdução da idéia de alteração de critério de seleção baseado em características raciais para características de produção. No decorrer desses anos houve também momentos em que foi preciso reafirmar a importância da manutenção desses rebanhos perante os dirigentes e financiadores. Um exemplo disso é a manutenção de um rebanho controle da raça Nelore, com 60 matrizes, em que a seleção é feita para a média do rebanho e hoje os animais apresentam a mesma média de desempenho do peso ao sobreano que tinham em 1980.0 Nelore controle é es sencial para estudos de repostas correlacionadas nas várias características de interesse econômico citadas anteriormente, inclusive daquelas que só são possíveis de medir em um determinado ano ou em determinada amostra de animais. Por outro lado, sua manutenção é cara e os animais só têm valor para pesquisa. Em termos de aumento de trabalho foram implementadas outras mensurações ao longo dos anos, além dos pesos dos animais do nascimento até a maturidade. Isso incluiu altura na garupa em 1985, avaliação da condição corporal, perímetro torácico e escrotal em 1986, avaliação de características de carcaça por ultrassonografia nos machos em 1996 e em todo o rebanho em 2005, consumo alimentar em 2005, além de características de carcaça obtidas após o abate em algumas progénies desde 1992. Em 2008 foi iniciada uma linha de seleção para peso ao sobreano e consumo alimentar residual negativo (CAR), a partir do rebanho Nelore tradicional do IZ. Em 2011 serão iniciadas mensurações da emissão diária de metano em uma amostra de animais dessa linha de seleção para CAR, além do consumo em pastagem, atendendo à demanda mundial de geração de conhecimento sobre produção sustentável de carne bovina. Uma outra mudança importante foi o interesse do mercado por material genético selecionado para produção. O primeiro convênio de comercialização de sêmen ocorreu em 1986 com uma central de inseminação artificial. No decorrer dos anos, mais convênios foram firmados com outras centrais. Em 1997, foi iniciado um programa de seleção de touros jovens incluindo reses advindos de outros rebanhos para a prova de ganho de peso. Desde 2009, um programa de venda de material genético das matrizes do IZ selecionadas para peso por 30 anos, está em andamento.

Nelore - Comparativamente a outros perfis animais como é possível definir o Nelore do IZ?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - Os reprodutores Nelore IZ são animais que têm alta capacidade de imprimir peso nos bezerros, sobretudo peso ao sobreano, razão pela qual alguns deles já aparecerem como líderes para essa característica em sumários de touros. Além disso, os animais atendem ao padrão racial, uma vez que todo o rebanho Nelore IZ é registrado pela ABCZ. Segundo relato de alguns técnicos, os animais IZ apresentam linha dorso lombar comprida e larga, comprimento e arqueamento das costelas, convexidade de musculatura posterior, com grande preenchimento no entre pernas, atendendo, portanto, ao mercado de produção.

Nelore - A variabilidade genética e a consagulnidade no Nelore muitas vezes se mostra um entrave ao seu desenvolvimento. Neste sentido a genética do IZ tem se mostrado uma alternativa importante. Como se explica Isso? Qual a origem deste gado?

Leopoldo Andrade da Figueiredo - Em relação à variabilidade, na implantação do projeto houve a ampliação da base genética por meio da introdução de material genético diferente ao existente no rebanho por inseminação artificial ou aquisição de animais. Foram utilizados os reprodutores Cantor, Everest, Karvardi, Kurupathi e Nagpur, principais representantes das famílias existentes no Brasil na época. Quanto à consaguinidade, embora os rebanhos tenham permanecidos fechados (com exceção de algumas introduções no início da década de 1990 no rebanho Nelore tradicional), a endogamia média tem permanecido ao redor de 5%, nível que não causa prejuízo às características adaptativas. Isso porque se leva em conta a genealogia de reprodutores e matrizes na formação dos lotes de monta, os touros são usados por tempo reduzido e evita-se selecionar vários filhos de um mesmo reprodutor. Atualmente, reprodutores e matrizes IZ têm se mostrado alternativas de material genético, possivelmente pelo fato deles não terem parentesco próximo aos animais disponíveis no mercado, além de terem alto valor genético para crescimento.

Nelore - O instituto vem incrementando seus negócios, abrindo parcerias e aumentando vendas diretas. Pela demanda há uma clara necessidade de multiplicar essa genética. O que o IZ está fazendo prepara para isso?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - As vendas diretas acontecem anualmente e nesse ano ocorrerão em setembro e novembro, no leilão de reprodutores. O IZ também mantém parcerias com centrais de inseminação artificial, pelas quais comercializa tanto sêmen quanto embriões de seus melhores animais, e participa de um programa de avaliação de touros jovens. No próximo ano está prevista a comercialização de sêmen e embriões com valor genético comprovado para consumo alimentar residual, uma medida de eficiência alimentar, o que é novidade no mercado. O IZ continua desenvolvendo tecnologias e está aberto a novas parcerias. Um exemplo disso é a prova de ganho de peso incluindo a mensuração do consumo alimentar na pós-desmana e também ao sobreano; essa última para animais com alto valor genético para crescimento, advindos de outros programas de melhoramento.

Nelore - Em termos de seleção, quais são os próximos passos? O que é preciso melhorar?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - É difícil pensar em grandes mudanças no critério de seleção dos dois rebanhos Nelore experimentais do IZ (o controle e o seleção) uma vez que constituem a base para a maioria das pesquisas do Centro de Bovinos de Corte, e certamente formam um material de pesquisa único em zebuínos. Qualquer mudança no critério de seleção tem de ser feita nos dois rebanhos. Entretanto, ao longo dos anos percebemos que a seleção para crescimento produz animais pesados com diferentes conformações. Sendo assim, características interessantes a serem incluídas na seleção dos animais do IZ seriam aquelas relativas à musculosidade, possivelmente área de olho do lombo ou escore de musculatura. Outra questão importante é ficar atento ao peso ao nascer e à altura dos animais, uma vez que são características de herdabilidade alta e altamente correlacionadas com peso ao sobreano.

Com relação aos próximos passos, acreditamos que o problema atual e nos próximos anos será produzir carne bovina de forma sustentável e eficiente, diminuindo o impacto ambiental dessa atividade, e isso já faz parte das exigências de alguns mercados internacionais. Há algumas evidências de que a seleção de animais baseada no valor genético do consumo alimentar residual oferece um mecanismo definitivo para reduzir as emissões de metano entérico sem comprometer a produtividade animal. A linha seleção para baixo consumo alimentar residual, iniciada em 2008, vem de encontro à demanda mundial por produção sustentável. Nesse projeto, fenótipos de difícil obtenção e importantes na definição de critérios de seleção relacionados à sustentabilidade e eficiência serão coletados, o que permitirá o aumento do conhecimento e a formação de recursos humanos nessas áreas técnicas tão carentes de pessoal e, cuja demanda mundial por sustentabilidade, irá exigir nos próximos anos. Hoje o IZ está envolvido na formação de alunos de pós-graduação, uma vez que conta com o curso de mestrado em Produção Animal Sustentável.

Nelore - Neste processo houve ou há a necessidade de se utilizar genética de fora do instituto? Em caso afirmativo, qual a mais indicada?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - Nos rebanhos seleção e controle não haverá introdução de material genético de fora, pelas razões descritas acima. Na linha de seleção para eficiência alimentar acreditamos que há necessidade de inclusão de material genético de fora. A idéia é que parte dos animais avaliados para CAR ao sobreano sejam provenientes de rebanhos colaboradores, Nelore puros de origem, registrados na ABCZ, com comprovado valor genético para peso ao sobreano. Os 5% mais eficientes, independente da origem, serão usados na linha seleção do IZ e nos rebanhos colaboradores. Nos próximos anos, com a colaboração de empresas parceiras, como as centrais de inseminação artificial, está previsto a disseminação do material genético dos touros mais eficientes.

Nelore - O que o IZ pensa sobre padrão (beleza) racial e morfologia do Nelore? Qual o modelo animal do IZ, em termos de porte, precocidade e demais características?

Leopoldo Andrade de Figueiredo - O padrão racial é Importante para a manutenção da caracterização da raça e da funcionalidade dos animais. O registro definitivo dos animais na ABCZ garante isso. Embora a seleção para peso ao sobreano tenha produzido animais de diferentes conformações, Isso garantiu (cientificamente falando) um aumento de quase duas arrobas no peso ao abate aos 2 anos de idade, sem alterar a precocidade sexual das fêmeas, o acabamento de carcaça e a qualidade da carne. Com essas mudanças desejáveis na quantidade do produto final, como peso da carcaça, sem alterar a qualidade da carne, fica evidente que o modelo de seleção do IZ foi bem sucedido. Não temos evidência de efeitos deletérios dessa seleção, mas também não temos certeza se isso não virá no futuro, o que nos obriga a, de tempos em tempos, rever os critérios de seleção.

Nelore - Tecnologias como mensurações por ultrassonografia e marcadores moleculares podem um dia integrar a gama de ferramentas utilizadas na seleção do Nelore do IZ? O fato do instituto ser governamental atrasa os processos?

Figueiredo - Corno citado anteriormente, pesquisas incluindo avaliação de carcaça com ultrassonografia e marcadores moleculares, e em 2011 o projeto de genômica, já foram encerradas ou estio em andamento, e certamente, algumas tecnologias serão incorporadas à seleção. Se os estudos genômicos, iniciados esse ano, possibilitarem a definição de painéis de SNPs específicos para CAR, essa tecnologia certamente será incluída na seleção dos animais para aumentar a acurada do valor genético, assim como o ganho genético na linha Nelore do IZ selecionada para eficiência alimentar. O fato do Instituto ser um órgão governamental atrasa os processos em alguns aspectos, principalmente relacionados a investimentos em infraestrutura física e de pesquisa. Por outro lado, permite experimentos de longo prazo, que certamente não seriam viáveis na iniciativa privada, além da possibilidade de financiamento das pesquisas por instituições de fomento, como a Fapesp, do Estado São Paulo, e o CNPq, do Governo Federal. Embora o Centro de Pesquisa em Bovinos de Corte tenha ficado um grande período sem receber recursos de infraestrutura, desde o ano passado tem sido contemplado com investimentos para aplicação em projetos de infraestrutura.

Mais de um século de IZ

Referência nacional e internacional por suas pesquisas cientificas nas áreas de produção animal e pastagens, tem como transmissão: "Desenvolver e transferi tecnologia e insumos para a sustentabilidade dos sistemas de produção animal". Em 1909, o Instituto já realizava as primeiras seleções de gado Caracu, na Fazenda de Seleção do Gado Nacional, em Nova Odessa (SP).

Foi com a contribuição, extremamente marcante e eficaz, do doutor Carlos Botelho, que ocupava o cargo de secretário de Agricultura, que em 15 de julho de 1905 foi criado, na Móoca em São Paulo, o Posto Zootécnico Central. Permaneceu até 1929 e depois transferiu-se para o Parque da Água Branca (São Paulo).

Em 1970 foi transformado em Instituto de Zootecnia, adaptando-o às necessidades exigidas pela grande expansão que vinha alcançando a produção animal nas últimas décadas. De 1970 a 1975, a sede permaneceu no Parque da Água Branca, transferindo-se então para o município de Nova Odessa (SP).

O IZ pertence à Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (SAA), do Estado de São Paulo, e interage por intermédio da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), por meio de seus diversos Pólos Regionais de Desenvolvimento, em diferentes regiões do Estado, atendendo às suas respectivas demandas.

Com um rebanho de aproximadamente 3.900 anifmais, o IZ oferece tecnologia de suporte na área de pecuária de corte e leite, promove o desenvolvimento científico e tecnológico, para uma maior produtividade e qualidade dessas cadeias produtivas e seus derivados.

O IZ realiza pesquisas em melhoramento genético de forrageiras; forragicultura e pastagens; produção animal a pasto; reprodução; etologia e ambiência; produção e qualidade de carne e leite; atividades silvipastoris; produção de sistemas inteligentes para pesquisa e gerenciamento de dados.

Todos os projetos de pesquisas do IZ atendem aos Programas do Governo, visando o desenvolvimento do agronegócio paulista e brasileiro.

Assim, o Instituto de Zootecnia nos seus mais de 100 anos de existência vem cumprindo sua função e estabelecendo um compromisso mais forte com seus usuários, solucionando os problemas do dia a dia do produtor rural.

Por isso o IZ está presente, de alguma maneira, no cotidiano do cidadão paulista - seja no bife do almoço, no leite do café da manhã, no sapato, no cinto e na bolsa de couro, enfim, melhorando a qualidade de vida e a dignidade das pessoas e dos animais.