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Correio Popular (Campinas, SP)

Isolamento salva vidas

Publicado em 17 maio 2020

Por Adriana Menezes

Isolar ou não isolar? Liberar ou não liberar? As perguntas são lançadas a todo o tempo pelos governos no Brasil a respeito da quarentena ou da retomada das atividades econômicas, apesar da recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do avanço do novo coronavírus em todo o mundo. Diante do embate, um grupo de matemáticos lançou mão do universo dos números para provar cientificamente que o isolamento salva vidas. Os cálculos apontam que, se mantivermos o distanciamento social, pouparemos uma vida a cada 1,1 minuto no País (estimativa da última quinta-feira, dia 14 de maio).

Os números mudam diariamente, à medida que as pessoas cumprem a quarentena. Hoje, por exemplo, dia 17 de maio, 530 vidas estão sendo poupadas no País graças ao distanciamento social. Sem ele, portanto, morreriam neste domingo 530 pessoas a mais que o total de mortes diárias registradas oficialmente. Por meio de modelamentos matemáticos e com o olhar sobre as vidas salvas, os pesquisadores do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) Paulo José Silva e Silva e Claudia Sagastizábal, ambos professores do Instituto de Matemática, Estatística e Computação (IMECC) da Unicamp, deram início a um estudo matemático, em colaboração com Tiago Pereira e Alexandre Delbem, que faz estimativas do número de vidas salvas no País pelo isolamento social. Para isso, utilizaram o modelo SEIR/ SEIRS (cuja sigla em inglês significa Susceptible - Exposed - Infectious - Recovered - Susceptible), que representa a taxa de replicação do novo coronavírus, com o objetivo de descobrir se ele varia no tempo. Os cálculos são atualizados diariamente na página Vidas salvas no Brasil pelo isolamento social (http://www. ime.unicamp.br/~pjssilva/vidas_salvas. html) de livre acesso pela população. Automaticamente, o programa de computador realiza novos cálculos, sempre às 2h da manhã, com dados do dia anterior.

Apesar de os números oficiais serem subnotificados por falta de testes, o resultado aponta qual o efeito real do isolamento, medida adotada em todo o mundo.

Um olhar sobre a vida

Incomodada de ver uma grande quantidade de pessoas que andavam nas ruas como se nada estivesse acontecendo, a professora e pesquisadora Cláudia Sagastizábal propôs o estudo ao CeMEAI com a ideia de inverter a narrativa sobre as mortes e destacar as vidas que podem ser poupadas pela quarentena, mostrando a importância desta estratégia. O professor Paulo José Silva e Silva abraçou a ideia junto com a professora e o grupo deu início ao trabalho. Paulo já fazia parte de outro projeto do CeMEAI que usa técnicas para ajudar a desenhar estratégias de mitigação da doença.

“A quarentena é a principal estratégia, mas existem outras. Uma delas, que não conseguimos fazer no Brasil, é, com grande quantidade de testes, identificar as pessoas doentes e isolar este grupo. Isso é mais viável quando há poucos doentes, como no Japão e na Coréia, onde estão conseguindo controlar. Mas no Brasil agora não é possível fazer isso. Outra estratégia, que esperamos que não demore demais, é a vacina. Por enquanto, o isolamento é a estratégia que podemos usar e tem sido eficiente”, afirma o professor. A pesquisa é apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEEPID) e CeMEAI, cuja sede é em São Carlos (SP) e agrega pesquisadores de diversas universidades (UFSCar, USP, Unicamp e Unesp). O trabalho conta também, indiretamente, com o apoio do CNPq e da Unicamp, uma vez que os pesquisadores estão ligados às instituições.

“Queríamos passar uma mensagem de fácil digestão do público em geral. Os números podem ajudar a fazer a doença parar de crescer. Sem a quarentena, agora estaríamos com o sistema de saúde mais colapsado. Por isso, se desistirmos de isolamento, a tendência é que o vírus volte a se comportar como se comportava antes do isolamento”, diz o matemático. Lançado no início de maio, o site mostra que no dia 27/05 podemos chegar a 3 mil pessoas salvas por dia. “A velocidade de crescimento é como se fosse juro composto, uma bola de neve”, afirma Paulo, referindo-se tanto à propagação quanto ao efeito do isolamento. “Temos milhares de casos de morte, estamos chegando a mil por dia.” De acordo com o pesquisador, os dados oficiais são muito ruins. “Possivelmente, estamos subestimando número de vidas salvas, uma vez que os dados são subnotificados. Provavelmente, mais pessoas estão sendo salvas por minuto e por dia”, afirma Paulo. Mas uma coisa os números podem provar: quando a taxa de transmissão de vírus diminui, graças ao aumento da taxa de isolamento social, o tempo diminui e mais vidas são salvas. Semanas atrás, por exemplo, o cenário de propagação e mortes piorou, porque a taxa de isolamento teve queda.

Cada um infecta 2,3

Um dos parâmetros do modelo matemático utilizado, explica o pesquisador, é a taxa de replicação/reprodução basal do vírus, ou seja, o quanto uma pessoa doente, em média, vai passar o vírus a quem ela encontrar na rua (e estiver suscetível); é o que acontece no começo da epidemia (basal). No caso do novo coronavírus essa taxa é estimada internacionalmente em torno de 2,3: cada pessoa doente em uma sociedade (onde no seu entorno há pessoas saudáveis, que não tiveram a doença e não têm imunidade) tem uma tendência a infectar 2,3 pessoas.

O número é uma média, porque há pessoas que infectam mais no seu entorno, e outras não infectam ninguém. “Esse valor faz sentido no começo da epidemia, e quando não está se fazendo nada. É uma característica do vírus e da maneira como as pessoas se relacionam e se encontram. Mas quando as pessoas estão em casa e usam máscaras, nós impactamos nessa velocidade de transmissão do vírus”, diz Paulo. De acordo com o professor, existe a percepção na comunidade científica de que nós vamos ter de conviver com esta doença durante muito tempo. Para conviver, o que temos de fazer é evitar que uma grande quantidade de pessoas fique doente ao mesmo tempo. “O vírus se espalha muito rapidamente. Soma-se a isso o fato de que uma proporção grande de pessoas precisa de intervenção hospitalar... Às vezes as pessoas falam da influenza, mas ela não tem a taxa de transmissão que tem a Covid-19.

O número de pessoas que fica doente de influenza ao mesmo tempo é muito menor, então você consegue controlar. O que se desenha é que vamos ter de fazer algum processo para sempre atenuar a ação do vírus, de alguma maneira. Uma delas é a quarentena, que é o que estamos fazendo.” Paulo também trabalha para usar computação e matemática no planejamento de estratégias de mitigação intermitentes, que permitiria a alternância de períodos com isolamento e outros sem. “As pessoas não vão aguentar ficar seis meses sem sair de casa. Talvez pensar em uma forma de ficar um mês sem sair, depois voltar a sair, mantendo as máscaras e os cuidados de lavar as mãos etc. Também pensamos em fazer alternâncias entre regiões, ou entre cidades.

Enquanto uma cidade suspende a quarentena, outras cumprem. Os programas ajudam a estimar o que vai acontecer.” Segundo a Claudia Sagastizábal (IMECC/Unicamp), o estudo prova a eficiência do isolamento, como mostram as curvas dos gráficos (disponíveis na plataforma do estudo) que de uma forma geral foram achatadas. “Os governos precisam buscar alternativas de controle da epidemia”, declarou ela em entrevista publicada. Todos os cálculos apontam que o isolamento está salvando vidas. Portanto, ainda não é hora de relaxar.

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