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Diário do Nordeste online

Isabel Lustosa

Publicado em 12 julho 2014

Isabel, uma princesa sem encantos

 

Outro dia me pediram para falar da Princesa Isabel, em um programa de TV. Isabel não é muito a minha especialidade. As princesas que mais conheço são sua avó, Leopoldina, sua bisavó, Carlota, e por decorrência de meus estudos sobre D. Pedro I, sua tia, a rainha de Portugal, D. Maria II. É que nos estudos sobre D. Pedro e sobre sua campanha pela retomada da coroa portuguesa para a filha mais velha, Maria da Glória, coroada como Maria II, encontrei alguns elementos para entender um pouco o que foi a infância dessa rainha que, desde pequena, tinha tendência à obesidade.

 

Mas conhecia o suficiente sobre Isabel, filha de D. Pedro II e de D. Tereza Cristina, pois estudara uma valiosa coleção de documentos pertencentes a Luciano Cavalcanti de Albuquerque, descendente da Condessa de Belmonte, que foi aia de D. Pedro II, e cuja família permaneceu estreitamente ligada à família do Imperador. Suas netas foram as amigas de infância de Isabel e da irmã dela, Leopoldina, e existem muitas cartas da Princesa Isabel naquele acervo. Também li sobre sua atividade no processo que levou à Abolição, da qual ela saiu glorificada como redentora dos escravos. Já nas vésperas da Proclamação da República, nos momentos que antecederam o embarque da família real para o exílio, as referências a ela são relativas à mãe angustiada, temendo que não houvesse tempo para que os filhos que estavam em Petrópolis pudessem embarcar e para a filha dedicada, como sempre, cercando os velhos pais de atenção e cuidados.

 

Mas, no geral, a imagem que guardei de Isabel foi a da mulher sem brilho, pouco cultivada, conservadora, muito religiosa e extremamente apegada ao marido. Isabel nascera para ser filha, mãe e esposa, o poder seria para ela um fardo e, nas vezes em que foi regente, ela se ateve ao que lhe prescrevia o ministério. Só saiu fora da linha na última Regência, em 1888, quando agiu ativamente pela Abolição, rompendo com o ministério conservador e pondo em seu lugar os liberais que produziram a Lei Áurea.

 

Mas, mesmo neste momento histórico de grande importância, quem agia mais era a mulher católica, ferrenha defensora da Igreja, que, em um pronunciamento público, juraria fidelidade ao Papa Leão XIII. Papa que, aliás, a condecorara com a Rosa de Ouro, justamente por considerar que, assinando a Lei Áurea, Isabel atendia às orientações da Sé Apostólica.

 

No ótimo dossiê sobre a Princesa, que a Revista de História da Biblioteca Nacional lançou em maio de 2012 (ano 7, n. 80), artigos de Roderick Barman, Robert Daibert Junior, Pedro Correia do Lago e Augusto de Matos dão conta de aspectos que confirmam essas impressões. Barman chama a atenção para o fato de que a vida de Isabel se moldaria a partir de suas ligações com o pai e o marido, aos quais seria sempre obediente. Apesar de não ser burra, diz Barman, a princesa não era uma intelectual e não recebera em sua educação qualquer conteúdo que a preparasse para um dia exercer o poder. Conservadora, Isabel considerava essas coisas como pertencentes ao universo masculino.

 

O conservadorismo da princesa se patenteiam em algumas das cartas dirigidas ao pai em que ela censurará justamente o comportamento excessivamente liberal do monarca. Os exemplos são do livro de Robert Daibert Junior, "Isabel, a Redentora dos escravos", (Edusc/Fapesp, 2004) que chama a atenção para carta em que a princesa questiona o pai por ter assistido a uma sessão do Parlamento Italiano, tomando a atitude de D. Pedro II como partidária dos inimigos do Papa.

 

Na mesma missiva, a Princesa também ironiza a visita do pai a uma sinagoga: "Duas coisas não aprovo de sua viagem: esta ida ao Parlamento italiano e o seguir rezas na sinagoga que nem se fosse um judeu!". Em outra carta, a princesa censurará ainda mais duramente a D. Pedro II pelo fato de ter visitado, na Europa, a escritora George Sand, "uma mulher de muito talento é verdade, mas também tão imoral!".

 

Segundo Daibert, a princesa colocava a obediência à Igreja como prioridade sobre o juramento feito à Constituição. Em defesa da Igreja, ela será mesmo capaz de questionar a absoluta liberdade de imprensa que foi uma marca do reinado de Pedro II. No ambiente tencionado que se formou entre a Igreja e a imprensa, antes e depois da Questão Religiosa (1872), ela tomaria claramente a defesa dos bispos contra a Maçonaria e questionaria a liberdade com que um jornal como "O mosquito" satirizava o Papa, os bispos e a Igreja católica de um modo geral. "A constituição também não diz que a imprensa é livre uma vez que não venha a abalar as instituições, a moral e a religião. O que eu estou vendo é que a religião do Brasil vai sendo a maçonaria".

 

No final da entrevista, me perguntaram o que eu de fato achava da Princesa. Não cedi à tentação de produzir um elogio do personagem. Pois, na verdade, quanto mais se conhece Isabel, mais se concorda que, se tivesse reinado, não teria sido tão liberal e progressista quanto fora seu pai. Ao contrário, tanto nos costumes quanto na política, sua tendência era muito mais conservadora, e seu excessivo apego à Igreja Católica certamente teria consequências políticas. Daí, talvez, também a falta de apoio ao seu reinado tanto do lado conservador, insatisfeito com a Abolição, quanto do lado liberal, que via nela a mulher de mente acanhada e conservadora cujo poder na verdade seria exercido pelo marido, o Conde DEu.

 

Boa mãe, boa filha e boa esposa, essas serão, sem dúvida, as qualidades pelas quais a Princesa Isabel merece, sim, ser louvada, em um mundo de tão poucas qualidades. Talvez por conta delas, sendo uma mulher feia, sem encantos físicos, a ausência de sobrancelhas foi um dos aspectos que chamaram a atenção do futuro marido quando a conheceu, este, nem por isto, deixou de amá-la e de ser amado por ela, durante os 55 anos que durou o casamento.