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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Íris Ferrari: vida dedicada à pesquisa

Publicado em 07 janeiro 2007

Não é exagero dizer que a médica, professora e pesquisadora da área genética Íris Ferrari dedicou a vida inteira à ciência. Aos 75 anos, ela completa 50 anos de uma carreira marcada pelo pioneirismo. Natural de Jaú, Íris se formou em medicina na primeira turma da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), em 1957, e, logo no início da carreira, ganhou destaque ao participar do desenvolvimento de uma técnica até hoje utilizada para o diagnóstico de alguns tipos de câncer do sangue, como o mieloma múltiplo.
Foi ainda uma das primeiras pesquisadoras do País a ter trabalhos publicados em revistas de destaque no Exterior e implantou a primeira residência médica em genética do Brasil. Com especialização em genética nos Estados Unidos e pós-doutorado realizado na Holanda, ao longo dos anos, ela ainda dividiu seu conhecimento orientando mais de 100 alunos em trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado.
Em outubro do ano passado, Íris foi premiada na 11.ª edição do Prêmio Cláudia (publicação feminina da Editora Abril), na área da ciência, numa disputa na qual venceu a engenheira agrônoma Maria Pinheiro — cujas pesquisas mudaram a vida de muitos agricultores do Nordeste - e a astrônoma Thaisa Storchi-Bergmann, especialista em buracos negros que é a cientista brasileira mais citada em publicações especializadas em todo mundo.
A vitória, segundo Íris, foi uma surpresa que ela espera - como não poderia ser diferente para uma amante da ciência - que se reverta não em reconhecimento pessoal, mas em estímulo para que se invista, cada vez mais, em pesquisas no Brasil.
A médica, que desde 1986 mora em Brasília depois de se aposentar por tempo de serviço da FMRP/USP, ainda realiza atendimentos no Hospital Universitário de Brasília (HUB), onde também coordena um projeto de aconselhamento genético. Apesar da idade, ela continua sem planos de parar - "E fazer o quê?", questiona, bem humorada quando perguntada sobre a possibilidade de uma aposentadoria na prática. Sua grande luta no momento é para criar um serviço de transplante de medula óssea na Capital federal.
Em Bauru para visita a familiares, a médica, que nunca se casou e não tem filhos, concedeu uma entrevista ao Jornal da Cidade na qual, entre outros assuntos, fala sobre seu trabalho em Brasília e defende o investimento em pesquisas e os alimentos transgênicos. A seguir os principais trechos.

Jornal da Cidade - Quando a genética surgiu na sua vida como objeto de estudo?
Íris Ferrari - Eu trabalhava em clínica médica, nunca tive aulas de genética na faculdade. Uma das disciplinas do departamento de clínica médica era hematologia, cujo chefe era o professor Cássio Bottura. Eu fiquei trabalhando com ele, até que um dia ele foi para a Inglaterra e lá aprendeu uma técnica de estudo de citogenética (ramo da biologia que estuda e analisa os cromossomos) em material de medula óssea de ratos. Quando ele voltou, nós que já trabalhávamos com as doenças malignas do sangue, começamos a testar essa técnica em seres humanos. Foi uma técnica que criamos ali, em Ribeirão Preto, pela primeira vez no homem no continente americano, em 1958, 1959, e ela ainda hoje é usada... O estudo da citogenética em medula óssea nos casos de diagnóstico de leucemia e doenças malignas do sangue. A indicação do meu nome para o Prêmio Cláudia foi por causa dessa técnica.

JC - A senhora sabia da existência do prêmio? Esperava ganhar?
Ferrari - Não esperava, mas sabia da existência porque eu já havia lido sobre a história da premiação em anos anteriores. Mas não imaginava que seria indicada e venceria. Eu fiquei surpresa, não esperava mesmo.

JC - É o reconhecimento por uma carreira.
Ferrari - Eu espero que sim. Mas vou ser sincera. Eu espero que o meu reconhecimento se traduza em auxílio para os órgãos de fomento para os trabalhos que a gente pretende realizar. É isso que me interessa. Eu espero que agora, porque a gente acaba ficando mais conhecida, os órgãos de fomento não deixem de ajudar.

JC - A senhora continua trabalhando em Brasília, apesar de já ter se aposentado.
Ferrari - Mudei para Brasília a convite de um dos diretores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq) para montar o departamento de genética clínica em Brasília porque não existia. A Faculdade de Medicina de Brasília não tinha sequer genética básica. Depois que eu fui, conseguimos fazer com que a disciplina fosse obrigatória e também ofereci a disciplina genética médica em ambulatório para os alunos treinarem. Continuo trabalhando e atendendo até hoje. Estou no ambulatório da faculdade mas estou ligada ao grupo que trabalha com leucemias, sobretudo com leucemias na infância. Nós queremos fazer com que surja um núcleo de transplante de medula em Brasília.

JC - O transplante de medula é mais simples do que se imagina?
Ferrari - É. Retira-se a medula do doador, faz-se o tratamento necessário e depois se injeta no sangue do indivíduo receptor. As células vão se alojando na medula óssea e começam a proliferar. O mais difícil é a compatibilidade, encontrar o doador que seja compatível com o receptor.

JC - No que consiste o trabalho de aconselhamento genético que a senhora também desenvolve em Brasília e que já atendeu 5,5 mil famílias de graça?
Ferrari - O aconselhamento genético é a informação que se dá para a família do paciente sobre o risco de aquela doença com a qual se está lidando vir a ocorrer novamente na família. Se a doença é herdada, se é gênica, se é cromossômica... Nós avaliamos e informamos a família. É um trabalho de prevenção que ocorre, geralmente, a partir de um caso que já existe. Nós sabemos, por exemplo, que num casamento consangüíneo, a quantidade de genes recessivos é maior, o que aumenta a possibilidade do aparecimento de algum tipo de doença. Nesse caso, fazemos um cálculo estatístico dos riscos. É uma orientação, mas não podemos fazer nada para impedir que as pessoas corram esses riscos se elas quiserem.

JC - O aconselhamento genético é comum no Brasil?
Ferrari - O trabalho existe nas grandes cidades brasileiras. Em Bauru, o trabalho é feito no Centrinho. Em Ribeirão Preto também há o serviço. É uma prevenção importante.

JC - Em que nível estão os profissionais brasileiros que trabalham com genética?
Ferrari - A genética humana no Brasil estava muito avançada porque era praticada por biólogos. Havia um grupo da USP que era orientado por geneticistas estrangeiros que trouxeram o conhecimento para o País. Mas toda pesquisa é cara, então se não existir um suporte econômico para que a pesquisa aconteça, fica difícil. No Estado de São Paulo, a pesquisa é muito desenvolvida porque a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) mantém os pesquisadores atualizados e eles estão no nível dos melhores pesquisadores internacionais. Nós temos esse tipo de pesquisa em São Paulo e no Rio Grande do Sul, que também possui uma fundação de amparo à pesquisa atuante. Nesses lugares onde existe uma injeção de verbas para pesquisa ela desenvolveu bastante, se equiparando ao que se faz fora do Brasil. Fora isso, há o trabalho em grandes centros. Em Pernambuco, os japoneses investiram em pesquisa na área de hematologia. Mas são centros isolados, o grande volume de pesquisas está no Estado de São Paulo.

JC - E Brasília?
Ferrari - Dizem que estamos próximos do poder lá e que as coisas são mais fáceis por isso, mas é o contrário. É muito mais difícil de se conseguir as coisas. É muito difícil em qualquer lugar mas é evidente que se não tivermos suporte como é que vamos realizar algum trabalho? Sem equipamento adequado não há condições.

JC - Como a senhora vê as experiências com o uso de células-tronco?
Ferrari - Tenho interesse pelas pesquisas com células-tronco de cordões umbilicais, que são células capazes de se transformar em qualquer outra do organismo e podem servir para tratar várias doenças. Acredito que há muito para se desenvolver nesse setor.

JC - Até que ponto a polêmica em torno dos alimentos transgênicos se justifica?
Ferrari - Eu fiz parte da Comissão de Biosegurança por quatro anos. Na minha opinião, essa posição contra os alimentos transgênicos deve existir por conta de outros interesses que a gente não conhece, porque a natureza faz os transgênicos, as mutações vão ocorrendo. Se o homem aprendeu técnicas que apressam essa transformação, essa mutação, e fez com isso um barateamento do produto, uma melhora, um enriquecimento de vitaminas, isso é benéfico. Eu não entendo porque há tanta polêmica, porque algumas pessoas tentam impedir que se comam alimentos transgênicos. Há um caso de uma região na qual parte da população sofria de cegueira por falta de vitamina A. Então um grupo de pesquisadores criou um arroz, chamado "golden rice", enriquecido com a vitamina A. Ofereceram esses grãos para a população com o objetivo de acabar com o problema e mesmo assim foram protestar contra o arroz, tentando impedir que fosse plantado. Um absurdo.

JC - Não há comprovação de que transgênicos causem problemas?
Ferrari - Porque eles não causam. Outros interesses devem estar por trás dessa propaganda contra os transgênicos que não tem sentido. É um benefício, o conhecimento foi oferecido em benefício. E a pessoa que não come transgênico aqui, às vezes viaja e vai comer sem saber nos Estados Unidos, na Europa...

JC - A genética tem mais influência na nossa vida do que a gente imagina? Até que ponto o indivíduo é resultado do meio no qual ele foi criado e convive?
Ferrari - Não acho que o meio influencie tanto. É claro que o meio tem uma importância, existem certos costumes de uma população que não existem em outras, é evidente... Preciso exemplificar: eu trabalho há muito tempo com erros de diferenciação e desenvolvimento sexual, por exemplo, e tenho a convicção que muitos comportamentos sexuais não são apenas influências do meio. Não sou capaz de orientar como fazer uma pesquisa sobre isso, mas eu creio que deve existir um componente genético envolvido. Antigamente se acreditava que a diferenciação de gênero tinha uma influência ambiental imensa. Eu não acho isso.