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IPCC chega aos 30 anos preocupado com verba e desinformação

Publicado em 06 abril 2018

Por Claudio Angelo

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) completou 30 anos de criação no dia 13 deste mês (Março). Como toda balzaquiana, a rede de cientistas da ONU chega a essa idade preocupada com duas coisas: com a própria imagem e com sua estabilidade financeira.

O Observatório do Clima (OC) perguntou a 15 cientistas, entre membros e ex-membros do Painel do clima, qual foi a maior contribuição do IPCC e qual é seu maior problema. Eles são unânimes em apontar a detecção da influência humana no clima como maior.

Esta foi marcada pela expressão “influência humana discernível” no sistema climático, escrita no Segundo Relatório de Avaliação do painel (1995), que forneceu a base para a negociação do Protocolo de Kyoto (1997). De lá para cá, mais certeza foi acrescentada a essa afirmação. O consenso em torno da causa humana da mudança do clima forneceu a base para o Acordo de Paris, em 2015, e está provocando (ainda que mais lentamente do que o necessário) uma mudança radical no uso de energia pela humanidade. Hoje, se você compra lâmpadas de LED ou um carro híbrido, está prestando tributo ao trabalho do IPCC.

Justamente por isso, os pesquisadores apontam como um dos principais desafios do IPCC nos próximos anos a manutenção da sua relevância. Com a demonstração, para além de dúvida razoável (ou, como prefere dizer o painel, com “extrema probabilidade”), de que as atividades humanas são a principal força modificadora do clima atualmente, o IPCC precisa evitar o declínio após o sucesso.

A era dos grandes relatórios de avaliação, nos quais 2.000 cientistas passam cinco ou seis anos resenhando toda a literatura científica disponível sobre o assunto, parece ter se esgotado. O AR6 (Sexto Relatório de Avaliação), a ser publicado em 2019 ou 2020, deve ser o último calhamaço da série. “O AR5 [2013] não teve uma fração do impacto do AR4 [2007]”, diz Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica da Universidade do Colorado, nos EUA. Trenberth e outros cientistas apontam a necessidade de produzir relatórios menores, atacando questões específicas. “Eu acho que o IPCC deveria declarar sucesso e passar a fazer as coisas de um jeito diferente.”

“Relatórios especiais, mais temáticos, focando em problemas específicos, com uma periodicidade menor, talvez fosse o caminho a seguir, de maneira a andar mais pari passu com os avanços do conhecimento científico, e das urgências que forem surgindo”, concorda Roberto Schaeffer, da COPPE-UFRJ.

Mesmo com todo o sucesso, e 23 anos após a “influência discernível” no clima ter sido decretada, o IPCC e a ciência climática ainda enfrentam um problema de comunicação com a sociedade. Isso leva à persistência de “poderosas forças da desrazão”, nas palavras de Ben Santer, do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos EUA. Em 1995, Santer foi perseguido por negacionistas climáticos a soldo da indústria fóssil e viveu um inferno pessoal e profissional. Tudo isso para ver, mais de duas décadas depois, o negacionismo triunfar na eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA.

“Embora o processo do IPCC seja cientificamente muito forte, ele é fraco quando se trata de uma comunicação eficaz e do engajamento de tomadores de decisão e públicos”, disse Jonathan Overpeck, da Universidade de Michigan.

Suzana Kahn, também da Coppe, diz que o desafio é produzir modelagens (“previsões”) climáticas regionais. Para um prefeito que precisa decidir hoje entre gastar dinheiro para construir um hospital ou uma obra contra enchentes, não basta saber quanto vai chover a mais em seu continente – ele precisa de informação sobre sua cidade. Isso não é possível com o uso de modelos climáticos computacionais como os usados pelo IPCC, que só conseguem “enxergar” áreas maiores que 200 km. “Enquanto os impactos forem apresentados de forma muito agregada, as responsabilidades ficam diluídas”, afirma Kahn. Já existem esforços, inclusive no Brasil, para regionalizar modelos, mas isso demanda mais poder de computação – e dinheiro.

E dinheiro é outra fonte de angústia para o painel do clima. A operação anual do painel custa cerca de 5 milhões de francos suíços (R$ 17 milhões). Só que, apesar de o painel ser intergovernamental, as doações dos governos para mantê-lo são voluntárias. O Brasil, por exemplo, nunca botou um centavo em espécie no IPCC – o Peru já depositou 17 mil francos, o Quênia, 27 mil, e a minúscula Trinidad e Tobago, 50 mil, segundo a prestação de contas do painel.

Com a posse de Trump, em 2017, o IPCC perdeu seu maior doador: de 1,9 milhão de francos no ano anterior, a contribuição americana caiu para zero. “Mas os países aumentaram suas contribuições, e alguns que nunca haviam contribuído passaram a fazê-lo”, disse Thelma Krug, vice-presidente do Painel, atualmente co-liderando uma força-tarefa sobre a estabilidade financeira do IPCC. Mesmo com essa compensação, no ano passado o painel teve seu menor orçamento em pelo menos 12 anos: 3,5 milhões de francos, uma queda de quase 20% em relação a 2016.

“Para 2018 o buraco que tínhamos foi coberto com o aumento das contribuições em 2017”, diz Krug. “Mas isso não assegura a estabilidade financeira, que é o que precisamos. Ou seja, em época de crise, a implementação do plano de trabalho do IPCC pode estar comprometida”.

IPCC 30 anos: o que dizem os cientistas brasileiros

Nove integrantes e ex-integrantes do IPCC, o painel do clima da ONU, falaram sobre o que eles consideram ser a maior contribuição do painel à humanidade e o maior problema que ele tem à frente. O IPCC completou 30 anos de criação no último dia 13/3/2018.

Tércio Ambrizzi – USP

Contribuição decisiva: “Em primeiro lugar, dar visibilidade ao problema das mudanças climáticas. Em segundo lugar, através das discussões levantadas no tema e de sua interdisciplinaridade, houve o fomento de pesquisas na área e também uma maior pressão sobre os governos em investir na ciência da mudança climática”.

Desafio: “Prover relatórios cada vez mais completos sobre a ciência das mudanças climáticas, deixando claro as incertezas existentes, mas também as certezas, para que os países possam implementar projetos de adaptação e mitigação da fonte principal de aumento da temperatura média global, que são as emissões dos gases de Efeito Estufa”.

Paulo Artaxo - USP

Contribuição decisiva: “O IPCC teve um papel fundamental na organização da ciência das mudanças climáticas, e em redigir publicações que auxiliaram diretamente governos [os chamados Sumários para Tomadores de Decisão, ou SPM]. Há uma preocupação básica em ser correto e abrangente do ponto de vista científico. Também há a preocupação de separar os tópicos mais importantes para serem incluídos no SPM e dar uma redação inteligível da ciência para os políticos. Mais recentemente, também houve uma preocupação de comunicar a ciência diretamente à população, o que foi importante para que governos tivessem apoio popular nas medidas de mitigação na maior parte dos países”.

Desafio: “Discutir as melhores estratégias de reduções de emissões e adaptação às mudanças climáticas. Buscar os melhores incentivos de redução de emissões com suporte científico sólido é fundamental para que as políticas publicas sejam bem sucedidas. Se deixarmos que o “mercado” ache a melhor solução do ponto de vista das empresas, teremos problemas se estas soluções não forem baseadas em ciência sólida. A adaptação ao aumento do nível do mar e aos impactos na agricultura e cidades é um desafio enorme para nossa sociedade”.

José Goldemberg - USP/FAPESP

Contribuição decisiva: “Preparar a base científica que permite entender o que está acontecendo com a atmosfera terrestre à medida que aumenta a concentração de gases do efeito estufa nela, devido ao uso de combustíveis fósseis. Esta contribuição científica é inquestionável e serviu de embasamento para as decisões tomadas pelos governos de limitar as emissões desses gases”.

Desafio: “Aprofundar os estudos científicos que permitam estabelecer uma relação causal entre o aquecimento global da atmosfera e as suas consequências no nível local (furacões, inundações, secas, etc.). As previsões científicas do IPCC até hoje não permitiram chegar a este nível de detalhe, que seria essencial para eliminar a resistência dos “céticos” em relação ao problema”.

Suzana Kahn – UFRJ

Contribuição decisiva: “Explicitar, diminuindo significativamente o nível de incerteza, a contribuição humana no aquecimento global do planeta e apresentar os impactos associados à elevação de temperatura”.

Desafio: “Como fazer um ‘downscaling’ de seus modelos de forma a poder identificar impactos locais do aquecimento lobal. Só assim creio que os tomadores de decisão serão mais pressionados a agir. Enquanto os impactos forem apresentados de forma muito agregada, as responsabilidades ficam mais diluídas. Ainda não temos conhecimento suficiente para afirmar que em tal localidade (nível de cidade) o impacto será X, Y ou Z. São muitas variáveis. Dizer que a temperatura média do planeta sobe é fácil, mas qual o nível de chuva que vai cair (ou não, como diria Caetano) em determinada região, isso ainda é muito difícil, pois não é só temperatura que influencia. O mesmo vale para o nível do mar e todos os demais impactos”.

Thelma Krug – INPE, Vice-presidente do IPCC

Contribuição decisiva: “Uma contribuição decisiva do IPCC para o mundo resultou do primeiro relatório de avaliação do IPCC por, principalmente, duas razões interrelacionadas: a primeira, por sinalizar a mudança do clima como um desafio que exigiria cooperação internacional para enfrentar seus desafios; a segunda, por ter tido um papel decisivo na criação da Convencão-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em 1992. Agora, vindo para um passado mais recente, cito a contribuição do IPCC no estabelecimento do Acordo de Paris, em 2015, quando as informações científicas do Quinto Relatório de Avaliação (AR5) foram fundamentais para o estabelecimentos dos objetivos do referido acordo, particularmente o de manter a temperatura média global de superfície bem abaixo de 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, e buscar limitar esse aquecimento a 1.5ºC.”

Desafio: “As contribuições financeiras para o IPCC, que asseguram principalmente a participação de cientistas de países em desenvolvimento, são voluntárias. Assim sendo, apesar de o painel aprovar um plano de trabalho ambicioso, como o neste sexto ciclo de avaliação (AR6), quando três relatórios especiais estão sendo desenvolvidos para aprovação em 2018 e 2019, além da atualização metodológica dos manuais para inventários nacionais de gases de efeito estufa, também para 2019, e os relatórios de avaliação, com a contribuição dos três grupos de trabalho e um relatório síntese, para até 2022, não existe um planejamento da contribuição financeira que o IPCC receberá de seus 195 governos membros. Pode ocorrer, por exemplo, que por uma mudança de governo a contribuição ao IPCC deixe de ser relevante. Então, estamos trabalhando para identificar alternativas para assegurar a estabilidade financeira do IPCC. Outro desafio é incentivar bons cientistas a contribuir, de forma voluntária, ao IPCC. O trabalho na elaboração dos produtos do IPCC é muito grande, e exige muitas horas de dedicação e muito engajamento. A credibilidade do IPCC foi assegurada nesses seus 30 anos de vida por conta do esforço e dedicação de centenas de cientistas de todo o mundo”.

José Marengo – Cemaden

Contribuição decisiva: “Levar o tema de mudança de clima do ambiente científico para o meio político e a população, ou seja popularizou o tema do clima, levando a pensar de que o clima pode mudar também como consequência das ações humanas, juntamente com as causas naturais.”

Desafio: “O painel é de governos, e muitas vezes a escolha de autores tem motivações políticas e em muitos casos não considera excelência científica e experiência. Isso não acontece no Brasil, mas pode acontecer em outros países”.

Gylvan Meira Filho - USP

Contribuição decisiva: “A aplicação cuidadosa do método científico para testar a hipótese de que há um componente antrópico na mudança do clima.”

Desafio: “Resistir à tentação de enveredar para a área de prescrição de medidas a serem adotadas pelos países”.

Carlos Nobre - INPE/WRI

Contribuição decisiva: “O IPCC contribuiu em duas dimensões distintas, ambas importantes. No sentido filosófico, conseguir fazer valer a voz da ciência como guia de decisões essenciais para o futuro da humanidade, ainda que o processo tenha levado mais de 20 anos para se consolidar. Na outra dimensão, subsidiou com evidências científicas o histórico Acordo de Paris, o qual pela primeira vez de fato busca colocar o desenvolvimento humano numa trajetória sustentável. Alertou o mundo para os riscos da inação ou da ação contida quanto à mitigação das mudanças climáticas.”

Desafio: “Mudanças climáticas não podem ser tratadas de forma isolada dos outros grandes desafios da humanidade e a ciência deve subsidiar a busca de trajetórias de desenvolvimento sustentável em todas as suas dimensões, respeitando os limites planetários, mas trazendo inclusão social e solução para os conflitos. O IPCC deve evoluir e ser unificado com outros mecanismos de avaliação científica para tratar integradamente do Sistema Terrestre como um todo, isto é, deve tornar-se um Painel do Antropoceno. Por outro lado, deve também permitir um controle mais científico de suas operações e conclusões e ter menor interferência de governos. Pode-se atribuir a grande inércia institucional de responder às mudanças climáticas ao bloqueio de soluções recomendadas pela ciência por governos, processo que também contaminou o IPCC”.

Roberto Schaeffer – UFRJ

Contribuição decisiva: “Colocar no radar da opinião pública, empresas e governos, a seriedade e urgência de lidar com a ameaça das mudanças climáticas globais. Os cientistas já conheciam o problema há muito. Mas foi necessário o IPCC para fazer a ciência das mudanças climáticas entrar no dia-a-dia das pessoas. Se hoje temos o Acordo de Paris, uma indústria pujante de energias renováveis, a iminência da entrada de carros elétricos no mercado, e mesmo um reconhecimento, pelo menos no plano das ideias, da necessidade de se atacar o problema, é por causa do IPCC.”

Desafio: “Talvez o formato atual, de grandes relatórios de avaliação produzidos a cada seis ou sete anos, precise ser revisto. Relatórios especiais, mais temáticos, focando em problemas específicos, com uma periodicidade menor, talvez fossem o caminho a seguir, de maneira a andar mais pari passu com os avanços do conhecimento científico e das urgências que forem surgindo. Para isso, talvez uma estrutura mais profissional fosse necessária, com mais financiamento, já que hoje todo o trabalho é feito de maneira voluntária, o que leva a trabalhos que demoram muito para ser produzidos. Um certo grau de profissionalização permitiria um número menor de cientistas envolvidos, com uma meritocracia mais aplicada, e que produziria trabalhos melhores, e em menos tempo. Mas o fato é, que talvez o AR6 deva ser o último neste formato atual.”

Jornalista do Observatório do Clima (OC)