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IPCC: América Latina terá mais ondas de calor e chuva forte

Publicado em 17 agosto 2012

Por Sabrina Bevilacqua

Novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) aponta um provável aumento de eventos climáticos extremos, de dias e noites quentes e ondas de calor nas Américas Latina e Central. O estudo aponta também a tendência de grandes precipitações na Amazônia e na Região Norte do Brasil. As Américas Latina e Central vão enfrentar extremos climáticos de maior variabilidade e com maior frequência.

O Relatório Especial sobre Gestão dos Riscos de Extremos Climáticos e Desastres (SREX) nas Américas do Sul e Central, que está sendo apresentado em evento realizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em São Paulo, indica que comunidades, iniciativa privada e tomadores de decisões políticas devem trabalhar para reduzir a exposição e a vulnerabilidade das populações locais.

O documento reforça a ideia do relatório anterior de que as mudanças climáticas exercem papel importante na ocorrência de desastres, mas que elas não são as únicas causas. Com elas estão as variáveis de vulnerabilidade e exposição da população. O professor da Universidad de Buenos Aires e integrante do Centro e Investigación del Mar y la Atmósfera, Vicente Barros explica que enchentes, secas, deslizamentos de terras ou tsunamis são resultado da interação desses três fatores.

De acordo com os cientistas que fizeram o relatório, pela primeira vez, as comunidades científica e de gestão de riscos da América Latina trabalharam juntas por um discurso comum. "É o primeiro esforço para trocar conhecimento de maneira multidisciplinar", afirma a professora da Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), Úrsula Oswald Spring. Segundo ela, é difícil reunir comunidade científica e peritos em gestão de risco. "Mas sem a construção de uma linguagem comum, sem uma troca, um trabalho conjunto, não é possível avançar nas soluções do problemas colocados pela alteração climática."

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), José Marengo, um dos autores do relatório, explica que os chamados "desastres naturais" têm mais a ver com planejamento urbano. "Não são as chuvas que matam as pessoas. É a combinação delas com famílias morando em encostas e em residências precárias. Não dá para acabar com as chuvas intensas, mas, com planejamento, é possível reduzir o número de mortes."

"Para que grandes desastres ocorram é necessário que a população esteja vulnerável e exposta", reforça o professor da Universidad Católica do Chile, Sebastián Vicuña. Prova disso é que 95% das mortes por desastres naturais ocorrem em países em desenvolvimento. E o dinheiro gasto para recuperar as áreas degradadas por fenômenos extremos tem crescido. Em 2004 o Brasil gastou US$ 64 milhões para ações de recuperação. Menos de dez anos depois o número subiu para US$ 1,5 bilhão.

Para reduzir o número e os efeitos dos desastres ambientais os especialistas defendem que se trabalhe nas três esferas (mudanças climáticas, vulnerabilidade e exposição) constantemente. "Esses elementos não são estáticos, são dinâmicos no tempo e no espaço, pois dependem de aspectos econômicos sociais e culturais", diz Vicuña.

Os especialistas defendem que sejam tomadas medidas de adaptação às novas condições climáticas. Para eles, é necessário mudar mais que a emissão de CO2. O problema está também na gestão. "O tipo de desenvolvimento dos países afeta não só a emissão de gases de efeito estufa, como também as condições de vulnerabilidade da sociedade", alerta Barros. Para reduzir os riscos, ele diz que devem ser feitos investimentos em sistemas de alerta, educação, infraestrutura e informação. "Reduzir grandes desastres é um objetivo que coincide também com a diminuição da pobreza."

Além de analisar os efeitos extremos com mais detalhes e de maneira multidisciplinar, outra grande diferença do SREX para o 4o relatório do IPCC é a fonte de informação utilizada. Dessa vez foram utilizadas informações publicadas na América do Sul e Central. Marengo explica que o trabalho deixou de lado a ideia de que estudo científico bom é aquele publicado em revistas especializadas de língua inglesa. "Conseguimos atingir um nível bom em algumas publicações brasileiras, mas ainda falta mais literatura científica publicada no País."

Direto de São Paulo