Notícia

Gazeta Mercantil

Investir para garantir competitividade

Publicado em 23 maio 2007

No Brasil, o retorno para investimentos chega a 8,5% do faturamento. D o universo de aproximadamente 70 mil empresas industriais instaladas no Brasil, cerca de 1,2 mil têm encarado o desafio de investir com maior força em inovação para garantir competitividade no País e no exterior. O resultado dessa iniciativa é a exportação com valores 30% acima do que obtinham antes, salários na casa de R$ 1,56 mil, ante os R$ 633 de uma empresa com potencial exportador, e responsabilidade por 35% da receita com vendas externas, exceto commodities, segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento. Essas empresas respondem atualmente por 25% do faturamento total da indústria. Como conseqüência desse esforço, a exportação nacional de bens de alta complexidade tecnológica passou dos US$ 8,8 bilhões em 2003 para US$ 17 bilhões no ano passado. Os de média intensidade tecnológica, que respondiam por 17% do total exportado, passaram a 20%, e os de alta intensidade saíram de 10% para 12% do total da pauta de exportação.
"O Brasil tem gerado diferencial competitivo no mercado internacional", argumenta o diretor do Ipea, João Alberto de Negri, defendendo um maior apoio do governo na busca por inovação.
As contas do Ipea mostram que o Brasil tem potencial de resposta alto aos investimentos que faz. Aqui é possível obter retorno para investimentos de até 8,5% do faturamento, enquanto na França esse índice fica em 2,5% e na Alemanha, em 2,7%. Na vizinha Argentina esse percentual é de 3,5%, informa o economista e pesquisador do Ipea Bruno César Araújo. A Alemanha está entre os países que mais apóiam a inovação na indústria, segundo Araújo, que estima em 20% do total investido o volume de recursos do governo. "No Brasil a indústria banca 95% do que investe", informa Negri, acrescentando que a indústria brasileira se destaca na América Latina com aplicações de R$ 3,3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento e 1,5 mil laboratórios com esse fim. "Chile, Argentina e México têm 5 laboratórios cada um", afirma. O diretor do Ipea aponta entre os principais entraves para custear a inovação a dificuldade em financiar o que é intangível. "É mais fácil emprestar para a compra de máquinas, que podem ser retomadas no caso do não pagamento da dívida". De acordo com o executivo, os países que têm vencido esse desafio usam como importante instrumento a isenção tributária e o apoio à integração universidade/empresa.
No Brasil, a Lei de Inovação, com cerca de 2 anos, estabeleceu os marcos regulatórios para fomentar essa união, mas falta ainda vencer barreiras culturais. "O que vemos hoje são casos isolados de parcerias que precisam se multiplicar", diz Araújo. Na análise do economista, há dificuldades para a indústria em avaliar o retorno desse investimento que é de risco e muitas vezes envolve anos de pesquisa sem sucesso. O economista defende uma postura mais agressiva das universidades buscando contatos e desenvolvimento conjunto.
"Percebemos que a indústria brasileira tem grande interesse em diversificar o investimento, mas acaba desestimulada pela instabilidade econômica, pela legislação brasileira e pelo custo-Brasil que onera a atividade", afirma o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique Brito Cruz. "A pesquisa demora de quatro a cinco anos para dar algum retorno. Se você colocar esse dinheiro no mercado financeiro, é muito mais rápido. Portanto, é preciso criar legislação, criar mecanismos que incentivem o investimento em pesquisa", completa Cruz, destacando ainda a instabilidade institucional, as mudanças de regras que envenenam o esforço pela pesquisa.
Segundo Brito Cruz, a indústria brasileira é responsável hoje por menos de 40% de todo o investimento feito em pesquisa no País, enquanto na Coréia, por exemplo, o setor responde por 80%.
A maior parte do esforço de renovação da indústria brasileira se baseia em processos produtivos e atualização de produtos que garantem participação no mercado local, mas não o diferencial para se destacar no exterior, afirma o presidente do Instituto de Estudos e Marketing Industrial, Marcelo Prado. Muito desse esforço se baseia na compra de máquinas modernas e treinamento do fornecedor . "Na maior parte dos casos, estamos fazendo uma lição de casa, correndo atrás, não indo além."