Notícia

Gazeta Mercantil

Investimento estrangeiro em P&D

Publicado em 15 dezembro 2006

Há algum tempo (em outubro de 2004) um relatório da Economist Intelligence Unit analisou a tendência de as corporações multinacionais descentralizarem suas atividades de pesquisa e desenvolvimento, intensificando estas atividades em países nos quais identificam oportunidade de mercado ou de capacidade instalada para P&D em recursos humanos e instituições.
Nesse estudo, o Brasil apareceu como sexto classificado na preferência dos executivos ouvidos para receber atividades de P&D - em seguida a China, Estados Unidos, Índia, Reino Unido e Alemanha. Trata-se de um resultado que demonstra uma oportunidade, à qual as políticas nacionais para P&D têm dado pouca atenção. É muito positivo que a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, ABDI, tenha iniciado uma atividade nesta área muito recentemente, em associação com a Anpei. Há estudos com resultados preliminares muito interessantes e elucidativos em andamento em São Paulo, liderados por um dos principais especialistas no assunto, o professor Sérgio Queiroz, da Unicamp e da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico.
Tem sido comum no Brasil a equivocada suposição de que empresas multinacionais só investem em P&D em seus países-sede. Os dados sobre investimento em P&D por corporações mostram, ao contrário, uma clara tendência centrífuga; e alguns países emergentes, como China e Índia, têm sabido aproveitar a oportunidade. Um número que ilustra as possibilidades é o investimento em P&D feito por multinacionais americanas fora dos Estados Unidos, que chegou à marca de US$ 21 bilhões em 2002. Desta fatia, somente US$ 300 milhões foram investidos no Brasil.
Para efeito de comparação, é bom lembrar que, em 2004, o investimento total em P&D no Brasil, somando-se empresas e setor público, foi de R$ 16 bilhões, equivalentes a US$ 7 bilhões. Deste investimento, R$ 3,5 bilhões foram executados por empresas, significando US$ 1,6 bilhão. Portanto, o investimento de multinacionais americanas em P&D no Brasil corresponde a aproximadamente 20% do investimento empresarial em P&D no país. É um percentual relevante e, mais interessante ainda, com possibilidade de ser aumentado, havendo políticas públicas efetivas.
Alguns instrumentos para estas políticas têm sido criados nos últimos anos. Os fundos setoriais, a Lei de Inovação e a Lei 11.196 trazem importante contribuição. Falta agora haver a ação ativa, por parte de organizações do governo federal e governos estaduais, para se buscar este investimento. Trata-se de atividade nova para o Brasil, pois o país se acostumou por tempo longo demais a considerar que a atração de investimentos seria baseada em trabalho barato e alguma dimensão de mercado. No mundo atual, é preciso aprendermos que estabilidade institucional e capacidade de formar recursos humanos com qualificação competitiva internacionalmente são dois dos principais fatores de atração.
Na formação de pessoal e capacidade para pesquisa, o Brasil tem muito a oferecer, resultado de mais de cinco décadas de apoio estatal à pós-graduação e ao ensino superior público. Formam-se quase dez mil doutores por ano (8.856 em 2004), número similar ao da Índia e da China. Há algumas instituições de ensino superior qualificadas entre as melhores do mundo, como se pode ver no ranking da Universidade de Shangai Jao Tong, que inclui a USP, a Unicamp, a Unesp e a UFRJ. Poucos sabem que a USP e a Unicamp formam mais doutores por ano do que qualquer universidade dos Estados Unidos ou da França, dado que sinaliza uma capacidade instalada muito competitiva.
Outro indicador valorizado pelos executivos de corporações multinacionais que têm visitado as melhores universidades brasileiras em busca de informações sobre capacidade instalada é o número de artigos publicados em revistas científicas internacionais. Para eles, que sabem valorizar a criação do conhecimento original, este é um dado essencial, pois pode demonstrar que a pesquisa que se faz aqui é internacionalmente competitiva. Isso é essencial não tanto pelos resultados da pesquisa, mas por implicar que os recursos humanos existentes no País são tão bons - ou, quem sabe, até melhores - do que aqueles disponíveis em outras localidades no mundo.
Como se vê, há importantes oportunidades para se converter os expressivos investimentos em pós-graduação e pesquisa feitos pelo Estado brasileiro em desenvolvimento e riqueza. Para termos mais sucesso nesta empreitada, é preciso entender mais sobre o que o mundo valoriza e, ao mesmo tempo, conhecer o que temos de especial a oferecer. A existência no Brasil de algumas excelentes universidades públicas de classe internacional, um forte sistema de pós-graduação e cientistas que participam ativamente da ciência mundial é uma vantagem comparativa que o mundo sabe valorizar. Nós também saberemos?

(Carlos Henrique Brito Cruz - Diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); ex-reitor da Unicamp.