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Sociedade Brasileira de Computação

Investimento em P&D: Deficiência está no investimento privado

Publicado em 18 maio 2006

Jornal da Ciência

Mas já se vê mais vigor no P&D das empresas, ressalta Evando Mirra, diretor de Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI)
A média de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de 2,2% em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), em 2003.
Dos 25 países, o campeão é a Suécia, que investiu 3,98%. Na vice-liderança ficou o Japão, com 3,15%; e, em terceiro lugar, a Islândia, com 3,04%.
Com investimento maior que 2,5% estão países como Alemanha, Dinamarca, Bélgica, Suíça, EUA. Em torno de 2%, investem França, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Áustria, Canadá.
Em todos esses países, inclusive naqueles que investem porcentuais próximos ao do Brasil, com a única exceção de Portugal, é o esforço privado — das empresas — que responde pela maior parte do investimento.
"É preocupante que o nível de investimento em P&D esteja caindo em relação ao PIB, enquanto a tendência nos países com os quais competimos é inversa", analisa Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, que prepara um relatório sobre ciência e tecnologia no Brasil para a OCDE.
"O investimento público do Brasil não difere muito da média dos países da OCDE, em relação ao PIB. Relativamente aos países da OCDE, a deficiência flagrante está no investimento privado."
Os vários níveis de governo brasileiro responderam, em 2003, por 0,56% do total do investimento do País em P&D, de 0,93% do PIB; na média dos países da OCDE, o número é 0,68% do PIB.
No entanto, enquanto no Brasil o setor privado investiu 0,37% do PIB em P&D, nos países da OCDE o número, sempre para 2003, foi de 1,38%.
Isso significa que cada euro investido pelo setor público alavanca dois euros de investimento do setor privado. No Brasil, cada real que as instâncias de governo colocam gera 66 centavos de investimento privado.

Cuidados com indicadores globais
Evando Mirra, diretor de Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), pede cautela na leitura de números absolutos.
"Uma leitura baseada em uma tendência macro corre o risco de deixar de lado fenômenos importantes, possíveis de ser verificados ao se desagregar esses dados mais amplos", diz o ex-presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).
Ele exemplifica seu ponto de vista com uma análise da Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec) 2003. Ali, Mirra ressalta o aumento do porcentual de empresas que fazem P&D de forma contínua.
Das 72 mil empresas da amostra da Pintec 2000, 42,9% tinham P&D como atividade constante. Em 2003, das 84,3 mil firmas da amostra, 49,2% faziam P&D continuamente.
Contudo, olhando os números absolutos, a Pintec 2003 mostra o oposto: a queda no número de empresas que fazem P&D de forma sistemática no Brasil — eram 3.178 empresas com P&D contínuo em 2000, contra 2.432 em 2003.
A porcentagem do faturamento das empresas investida em P&D também caiu, de 3,8% para 2,5%.
Ele destaca outros sinais positivos do lado das empresas: a tendência de profissionalização do P&D no setor empresarial, ao falar do aumento das empresas que fazem P&D contínuo; o crescimento no número de pessoas dedicadas a P&D nas empresas e no número de firmas que disseram ter inovado para lançar um novo produto no mercado.
Em 2000, segundo a Pintec, 31,4 mil pessoas dedicavam-se integralmente a essas atividades. Em 2003, o número de pessoas em dedicação exclusiva elevou-se ligeiramente para 32,6 mil.
A Pintec 2003 esclarece ainda que as taxas de inovação foram de 26,9% para processo e de 20,3% para produto, contra 25,2% e 17,6%, respectivamente, na pesquisa anterior.
"Embora a taxa de produto seja mais baixa, ela atingiu o crescimento relativo mais significativo, particularmente no segmento de produtos novos para a empresa, que avançou 3,7 pontos porcentuais", afirma a Pintec 2003.

Pintec é base para medição dos investimentos empresariais
Para medir os investimentos das empresas ao construir os indicadores, o MCT considerou as informações da Pintec.
Essa pesquisa tem como objetivo medir a inovação nas empresas e, por isso, recorre ao Manual de Oslo, também da OCDE.
Para esta metodologia, a pesquisa é vista não como fonte de idéias inventivas, mas como um caminho para a solução de problemas, podendo ser requisitada em qualquer etapa do processo de inovação, não sendo uma pré-condição para a atividade inovativa.
São atividades que as empresas empreendem para inovar P&D (pesquisa básica, aplicada ou desenvolvimento experimental) e outras atividades não relacionadas com P&D, envolvendo a aquisição de bens, serviços e conhecimentos externos.
A Pintec captura os gastos com essas atividades para definir a taxa e o perfil da inovação no Brasil.
Exemplos de atividades consideradas pela Pintec são a contratação de outra empresa ou instituição de pesquisa para a realização de P&D; acordos de transferência de tecnologia originados da compra de licenças de direitos de exploração de patentes e uso de marcas; aquisição de máquinas e equipamentos utilizados na implementação de produtos ou processos novos ou tecnologicamente aperfeiçoados; treinamento orientado ao desenvolvimento de produtos/processos tecnologicamente novos ou aprimorados e relacionados às atividades inovativas da empresa, atividades internas ou externas de comercialização, ligadas ao lançamento de um produto tecnologicamente novo ou aperfeiçoado, como pesquisa e teste de mercado, publicidade para o lançamento, entre outras.

Por que é importante vincular PIB e P&D
A vinculação entre PIB e investimentos em P&D mostra quanto da riqueza nacional é aplicada nessas atividades. O Manual Frascati, elaborado pela OCDE, é a metodologia consolidada internacionalmente para aferição desse dado, permitindo a comparação entre as diversas nações.
Dessa forma, é possível situar o Brasil em relação aos demais, o que auxilia na elaboração de políticas públicas, análises de posicionamento do País em relação ao seu avanço tecnológico e sua competitividade. Esse manual é a base da metodologia usada pelo MCT na elaboração dos indicadores.
O MCT também se preocupou em medir as atividades de C&T, a soma dos investimentos em P&D e em atividades científicas e técnicas correlatas, conhecidas pela sigla ACTC.
São consideradas ACTC atividades como serviços científicos e tecnológicos prestados por bibliotecas, arquivos, museus de ciência, jardins botânicos e zoológicos, levantamentos topográficos, geológicos, hidrológicos, prospecção para identificação de petróleo e outros recursos minerais, metrologia, padronização, controle de qualidade, entre outras.
Regina Gusmão, coordenadora do projeto de indicadores científicos da FAPESP, lembra que a metodologia que tem sido mais usada para medir ACTC é o Manual Estatístico da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ainda em fase de consolidação.
"Esses dados envolvendo as chamadas atividades correlatas são muito amplos e é difícil delimitar suas fronteiras", explica.
"É importante buscar esse dado, porque ele pode nos esclarecer sobre o esforço feito em atividades que são insumos para P&D. Temos tentativas para chegar a esse número. Mas o esforço em C&T não é desprezível", acrescenta.