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Jornal de Angola

Investigadores descobrem gene causador de síndrome rara que inibe o crescimento

Publicado em 05 junho 2012

Um estudo realizado por um grupo internacional de cientistas identificou o gene causador da síndrome IMAGe, sigla em inglês para a restrição de crescimento intra-uterino, displasia metafisária, hipoplasia adrenal congénita e anomalias genitais. 


Os portadores da síndrome IMAGe, cuja causa era, até agora, desconhecida, apresentam em geral baixo peso ao nascer, desenvolvimento deficiente das glândulas adrenais, alterações esqueléticas e genitais. O estudo foi publicado na revista “Nature Genetics”.


Segundo os autores, a pesquisa revelou um mecanismo molecular até agora desconhecido. Embora se trate de uma síndrome genética extremamente rara, a descoberta pode ser útil para a compreensão de doenças mais prevalentes.


De acordo com um dos autores do estudo, Bruno Ferraz-de-Souza, pesquisador na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), as mutações no gene CDKN1C já tinham sido descritas como causa de uma outra síndrome bem mais frequente, caracterizada pelo hiper-crescimento. No novo estudo, os cientistas descobriram que o gene também é responsável pela síndrome IMAGe, que envolve a restrição de crescimento.


“Há muitos anos que os cientistas procuram a causa da síndrome IMAGe. Neste trabalho, os cientistas analisaram amostras de ADN de uma família argentina com muitos membros afectados e amostras de outros pacientes recolhidas ao longo dos últimos 20 anos.


Como resultado, os médicos descobriram que a síndrome é causada por uma mutação específica no gene CDKN1C, no cromossoma 11”, disse Ferraz-de-Souza à Agência FAPESP.

Participaram no estudo cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Estados Unidos), do University College London (Reino Unido) e do Hospital de Niños Ricardo Gutierrez (Argentina).


Segundo Ferraz de Souza, já se sabia que o CDKN1C tinha um papel importante na regulação do crescimento celular. Mutações no gene já tinham sido associadas à síndrome de Beckwith-Wiedemann, que causa crescimento anormal de partes do corpo e dos órgãos, exacerbando o risco de surgimento de tumores.

Descoberta complexa

“Agora, sabemos que o mesmo gene que causa síndrome de hiper-crescimento também é responsável por essa síndrome mais rara de hipo-crescimento”, disse o investigador.No entanto, as alterações que foram encontradas na síndrome de Beckwith-Wiedemann estão dispersas por todas as regiões desse gene. Em contrapartida, as mutações que causam a síndrome IMAGe ocorrem numa região muito limitada, com apenas seis aminoácidos.


“Uma simples troca de posição nessa região determina fenótipos completamente diferentes”, disse Ferraz de Souza.


Um factor genético tornou a descoberta mais complexa: a doença só se manifesta quando é herdada da mãe. A pessoa que tem a mutação herdada do pai não apresenta a doença, embora possa passar a mutação para os filhos.


“O mecanismo pelo qual essa mutação ocorre nos seis aminoácidos que causam a doença ainda permanece desconhecido. Mas é possível que o mecanismo seja válido para estudar, por exemplo, a tumorigénese e outros mecanismos de problemas genéticos que levam ao cancro. As descobertas sobre mecanismos de doenças raras podem ser relevantes quando transportadas para doenças mais prevalentes”, disse o investigador Ferraz de Souza.


A primeira parte do estudo foi realizada a partir da análise do ADN de uma família da Argentina que tinha pelo menos quatro gerações de indivíduos afectados e não afectados pela síndrome. A partir das amostras dessa família, os cientistas da equipa norte-americana fizeram estudos para delimitar a região cromossomática onde pode estar o gene promotor da doença.


“Depois de estudar a família argentina, suspeitaram que a causa estava em mutações do gene CDKN1C. estes casos, é da praxe procurar outros indivíduos com o mesmo fenótipo, para confirmar que se trata do gene certo”, disse o investigador Ferraz de Souza.


Na altura do estudo, o cientista, que fazia o doutoramento no University College London, tentava encontrar os genes que causavam uma doença adrenal (nos mamíferos, as glândulas adrenais são endócrinas envolvidas por uma cápsula fibrosa e situadas acima dos rins).


 Como o aborto é legal no Reino Unido, os pesquisadores da equipa britânica tinham acesso a material fetal. Com isso, foi possível demonstrar, por histoquímica e por PCR quantitativa, que o gene, de facto, era expresso na glândula adrenal normal durante o desenvolvimento.

É possível que o gene CDKN1C seja muito importante para o crescimento normal da adrenal”, disse o cientista Ferraz de Souza.