Ministério da Saúde e Anvisa investigam 42 eventos adversos associados à Butantan-DV antes de definir como a vacina poderá voltar a ser utilizada.
O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária ainda não estabeleceram uma data para a conclusão das investigações relacionadas aos eventos adversos registrados após a aplicação da Butantan-DV, vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan.
O uso do imunizante no Sistema Único de Saúde foi temporariamente interrompido em 8 de junho, como medida preventiva. A decisão foi tomada após a identificação de 42 episódios de reações mais severas temporalmente associados à vacinação.
A associação temporal indica que os episódios ocorreram após a aplicação, mas não comprova, por si só, que tenham sido provocados pela vacina. A investigação busca determinar se existe relação causal e se há características clínicas comuns entre as pessoas que apresentaram as reações.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que os casos estão sendo analisados individualmente e que o resultado orientará as próximas decisões sobre o imunizante.
“Os especialistas estão investigando detalhadamente nessas 42 pessoas se tem alguma condição clínica, algum motivo [que provocasse as reações]. A partir dessa investigação, será definido como a vacina poderá ser utilizada de forma segura para a população”, declarou.
Padilha concedeu a entrevista nesta segunda-feira (6), durante um fórum promovido pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, em São Paulo. O encontro reuniu representantes de empresas e instituições do setor para discutir regulação, inovação e acesso aos serviços de saúde.
O ministro informou que ainda não é possível determinar quando o trabalho será finalizado. Segundo ele, o Instituto Butantan participa das análises e deverá encaminhar à Anvisa os resultados obtidos durante a avaliação dos casos.
A Anvisa anunciou a criação de um painel formado por especialistas do meio acadêmico e da comunidade científica. O grupo deverá aprofundar a investigação epidemiológica e auxiliar na revisão do perfil de risco e benefício da Butantan-DV. A agência também solicitou informações adicionais ao Instituto Butantan.
Ao explicar os cenários avaliados pelo governo, Padilha afirmou que o resultado poderá levar à manutenção, à alteração ou à restrição da estratégia de vacinação.
“O Instituto Butantan faz parte dessa avaliação e vai devolver para a Anvisa o que encontrou em relação a isso. Em paralelo, o Ministério da Saúde compôs um painel de especialistas para pensar e organizar cenários, a depender do resultado. Pode ser que essa investigação sinalize que a vacina deva ficar restrita a um determinado público ou região”, explicou o ministro.
A interrupção temporária da Butantan -DV não afeta a aplicação da Qdenga, produzida pela farmacêutica japonesa Takeda. A vacina permanece disponível no SUS para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, conforme a estratégia definida pelo Programa Nacional de Imunizações.
O Ministério da Saúde informou que cerca de 8 milhões de doses da Qdenga já foram aplicadas no país. O governo federal também garantiu a aquisição de 18 milhões de doses até 2027, sendo 9 milhões previstas para 2026 e outras 9 milhões para o ano seguinte.
Durante o fórum, Padilha também relacionou o enfrentamento da dengue às alterações climáticas. O ministro afirmou que o aumento das temperaturas e as mudanças nos períodos de chuva favorecem a circulação de doenças transmitidas por mosquitos, além de ampliarem a pressão sobre os serviços de saúde.
Ao abordar os efeitos dos eventos climáticos sobre os sistemas de atendimento, o ministro declarou:
“A crise climática é acima de tudo uma crise de saúde pública. Um em cada 12 hospitais paralisaram suas atividades por conta da tragédia climática. Esse é o relatório que apresentamos com a Organização Mundial de Saúde na COP30. Doenças surgem em regiões que não existiam por conta das mudanças climáticas.”
Padilha também comentou os casos recentes de sarampo identificados na zona norte da cidade de São Paulo. Segundo o ministro, os cinco registros têm ligação direta com a Bolívia, que enfrenta circulação da doença.
O ministro informou que o Brasil registrou 38 casos importados de sarampo em 2025 e atribuiu a ausência de transmissão prolongada às ações de imunização e vigilância epidemiológica.
“Esses 38 casos importados só não se propagaram por conta do nosso esforço de vacinação. Estamos reforçando a parceria com a prefeitura de São Paulo e de Guarulhos e a rede estadual”, afirmou.
Diante do risco de transmissão, o Ministério da Saúde recomendou a aplicação da dose zero da vacina tríplice viral em crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias residentes em São Paulo e Guarulhos. A medida é adicional ao calendário de rotina e busca proteger crianças que ainda não atingiram a idade prevista para o esquema regular.
Moradores dos dois municípios também receberam alertas para verificar a situação vacinal. A vacina contra o sarampo é oferecida gratuitamente pelo SUS e protege ainda contra caxumba e rubéola.
Apesar dos casos importados, Padilha afirmou que a certificação do Brasil como país livre da circulação endêmica do sarampo, recuperada em 2024, não está ameaçada. Segundo o ministro, as autoridades mantêm ações de vacinação, investigação e acompanhamento dos contatos para impedir a propagação da doença.