Notícia

Gazeta Mercantil

Invento da Dedini dobra produção de álcool

Publicado em 26 junho 2003

Por Agnaldo Brito de Piracicaba (SP)
A ciência brasileira que versa sobre a produção de álcool e açúcar está perto de viabilizar uma idéia que dará ao País o poder que necessitará no esperado crescimento do mercado mundial de álcool combustível. As destilarias do País, que bem reguladas beiram hoje a produção de 6,4 mil litros de álcool com um hectare de cana, poderão chegar a 12.050 litros com o mesmo talhão. Como? Com um processo de hidrólise, fermentação e destilação de palha e bagaço da cana. Esta será uma das principais novidades a circular no Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia do Setor Sucroalcooleiro (Simtec), evento que acontece entre os dias 14 e 19 de julho, em Piracicaba, interior de São Paulo. O evento pretende recolocar o pólo metal mecânico e de inteligência da região de Piracicaba como potencial fornecedor de bens de capital e de tecnologia para a produção de açúcar e álcool. RECUPERAR A EXPORTAÇÃO Para isso, 30 usineiros latino-americanos foram convidados para o Simpósio. É pela América Latina que o setor quer recuperar a capacidade exportadora. O grupo terá agenda cheia. Participará de palestras e de visitas. Entre as quais está a passagem pela Usina São Luiz, do Grupo Dedini, em Pirassununga. Lá verão em operação uma usina piloto para a produção de cinco mil litros de álcool. A novidade nesta usina é a matéria-prima, pois ao invés de produzir álcool a partir do caldo, a unidade processa as sobras, palha e bagaço. A tecnologia, batizada de Dedini Hidrólise Rápida (DHR), patenteada em todos os países onde existe razoável desenvolvimento do setor sucroalcooleiro, tem conseguido quase que duplicar a produção de álcool combustível com a mesma área de cana. Co-financiada por Dedini, Copersucar e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), esta é a primeira unidade em escala semi-industrial no mundo assentada sobre a tecnologia. SINAIS PRELIMINARES Os resultados econômicos finais sairão ao término desta safra, o que ocorre no segundo semestre, mas os dados preliminares indicam que o potencial da tecnologia já permite produzir este álcool a um custo igual ao método convencional. Isso significa que o álcool DHR pode chegar a um preço de US$ 14 a US$ 15 o barril, o mesmo valor da tecnologia de produção que levou o Brasil a líder mundial em tecnologia para a produção de álcool a partir da cana. Hoje, o petróleo tipo Brent está próximo de US$ 30. A expectativa da Dedini é encaixar a tecnologia na esperada demanda mundial por este tipo de combustível, o que deverá ocorrer com a inclusão do álcool na matriz de energia dos países desenvolvidos. Alguns concorrentes do Brasil também produzem álcool. Em geral, extraem de milho e de beterraba. O problema aí é o custo. CANA É MAIS COMPETITIVA "A produção de álcool a partir da cana é muito mais competitiva do que as demais tecnologias existentes no mundo", afirma Tarcísio Ângelo Mascarim, diretor corporativo da Dedini S.A. Indústrias de Base e presidente da DDP Participações S.A., holding do grupo. A estratégia da empresa, que fechou neste ano o primeiro contrato de transferência de tecnologia para a montagem de destilarias na Índia (país que também determinará a adição de álcool à gasolina), é oferecer já a partir do próximo a tecnologia às empresas interessadas no mercado mundial para o álcool carburante. A idéia em se utilizar sobras da cultura para se produzir mais álcool não é nova, mas dependia de uma inovação tecnológica. Alguns países tentaram, mas esbarraram na inviabilidade econômica do processo. O salto tecnológico obtido no Brasil foi descobrir uma forma de viabilizar a hidrólise rapidamente, a etapa chave do processo. PROCESSO CONTÍNUO A produção tem três etapas: hidrólise, fermentação e destilação. O domínio tecnológico mais importante estava na primeira fase. O desafio era juntar toda o material celulósico da cana (palha, pontas e bagaço) e transformá-lo rapidamente em açúcares. A tecnologia mundial para isso existia, mas o ciclo de conversão de celulose para açúcar é excessivamente lento (de 4 a 8 horas), o que exigia alto consumo de energia e geração de açúcar em quantidade pequena. Na tecnologia DHR, os pesquisadores conseguiram desenvolver um processo contínuo. O material celulósico é convertido em açúcar num tempo máximo de 15 minutos. Algumas condições são necessárias para isso: uma pressão entre 25 e 30 atmosferas e um solvente eficaz para dissolver a lignina (a substância que garante a rigidez da celulose). Para isso, o processo usa o próprio álcool. Ao dissolver a lignina inicia-se o processo de transformação do material celulósico em açúcares. Após este processo inicial, parte-se para a fermentação e a posterior destilação. GRUPO COSAN ALERTA O Grupo Cosan, a maior companhia do setor sucroalcooleiro do Brasil, mostrava, em matéria publicada na edição do Gazeta do Brasil de ontem, 24, que a nova tecnologia da Dedini vai concorrer com a geração de energia, pelo regime de co-geração, na medida em que as duas técnicas se utilizam da mesma matéria-prima (bagaço da cana). Armando Vieira Viotti, diretor industrial do Grupo Cosan, advertia que as usinas devem avaliar com bastante cuidado o assunto ao fazerem a adoção da nova tecnologia para o álcool pois algumas delas precisam de um bom volume de biomassa para conseguir gerar energia excedente.