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Inventário vai nortear política de preservação

Publicado em 28 junho 2005

Por Maria TeresaCosta, da Agência Anhangüera (teresa@cpopular.com.br)
Durante dois anos, pesquisadores da Unicamp e da Prefeitura farão o mapeamento de imóveis remanescentes, tendo como base dados de 1929

Os imóveis do centro histórico de Campinas e da Vila Industrial começam a ser inventariados, com o levantamento de mapas e plantas do conjunto construtivo. O inventário vai percorrer os imóveis que existiam na cidade nos mapas de 1929 e localizar os sobreviventes. O conjunto de informações irá fornecer instrumentos para a elaboração de uma política de preservação do sítio histórico.
O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) dentro do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas, envolve a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Prefeitura. Para a pesquisa, que será feita em dois anos, a FAPESP está liberando R$ 120 mil. Equipes da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC) e do Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade (Ciec) do Departamento de História da Unicamp, estão trabalhando nos levantamentos.
A coordenadora do projeto pela Unicamp, a antropóloga Silvana Rubino, diz que o fato de o recorte do inventário ser o mapa de Campinas de 1929 não significa que as construções que vieram depois desse período não tenham importância para preservação. "Precisávamos definir um recorte para a pesquisa e optamos por pegar o mapa preparado na época do prefeito Orosimbo Maia e que serviu de base para a elaboração do Plano de Melhoramentos Urbanos de Francisco Prestes Maia", diz a pesquisadora.
A configuração urbana que Campinas tem hoje é resultado da criação de Prestes Maia. Difícil calcular o número de prédios que foram ao chão a partir de 1936 para o alargamento de avenidas -- nas avenidas Francisco Glicério e Campos Salles foram 45.
A proposta do projeto é formar um banco de dados da construção civil da Vila Industrial e do Centro da cidade entre 1890 e 1930. Grande parte dos pedidos de reforma e construção do período já está digitalizadas. Silvana comenta que o banco de dados já reúne 3 mil plantas digitalizadas e catalogadas, que permitem selecionar por ruas, ano de construção, de reforma, nome dos proprietários. "São informações que permitem mapear como a cidade foi se fazendo no dia a dia, pela comunidade e não apenas pelos grandes arquitetos e empreendedores", afirma a antropóloga.
Os originais são documentos que integram o acervo do Arquivo Municipal de Campinas e que numa primeira etapa do trabalho destinado à Vila Industrial, foram fichados com nome de proprietários, construtores ou de quem fazia o pedido de aprovação na Prefeitura, com endereço, se era reforma ou construção e uma descrição do que estava sendo pedido.
As arquitetas Melissa Ramos da Silva Oliveira e Julcileia Zólio e a historiadora Thais Helena Assis fizeram imagens digitais de todos os pedidos de reforma e construção no período, dentro das pesquisas da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC). A historiadora Daisy Ribeiro, que coordena a CSPC, comenta que o inventário será importante instrumento na definição de uma política de tombamento para Campinas.
"Os pontos básicos da cidade estão tombados. Precisamos ter um levantamento preciso para poder propor alternativas quando, por exemplo, houver a necessidade de intervenções no Centro ou na Vila Industrial. Sem um estudo, não teremos o que propor" , comenta.
Com o arquivo digitalizado é possível saber, por exemplo, quantas casas da Vila Industrial tiveram paredes de taipas substituídas por tijolos, quantas foram construídas por determinado construtor e uma série de informações de interesse da pesquisa histórica.

Transição começou nos anos 20
O centro histórico inventariado está dentro do quadrilátero formado pelas avenidas Moraes Salles, Irmã Serafina e Anchieta, Orosimbo Maia e Senador Saraiva. É uma área que, do ponto de vista da preservação, foi muito destruída. Mesmo assim, existem remanescentes importantes a serem identificados nesse levantamento. A Vila Industrial, ao contrário, se mantém preservada.
O espaço geográfico campineiro foi transformado pela crescente urbanização consolidada pelo processo de industrialização. Desse mecanismo, surgiu um novo padrão urbanístico. A partir de 1925, a área urbana começou a ser alargada, duplicando suas dimensões em alguns anos, com o retalhamento das chácaras periféricas e de antigas e improdutivas fazendas de café, devido, principalmente, à demanda por habitação.
A antropóloga Silvana Rubino lembra que o Centro de Campinas é de um ecletismo arquitetônico, que surgiu da transição da taipa do período imperial para a alvenaria. O Plano de Melhoramentos de Prestes Maia alargou avenidas e, com isso, muitos imóveis foram destruídos.
A Vila Industrial, no entanto, que surgiu como a primeira vila operária da cidade, manteve até hoje suas características, guardando algumas construções destinadas aos antigos funcionários das ferrovias. Caso, por exemplo, da Vila Manoel Dias ou da Vila Manoel Freire (hoje um amontoado de ruínas), ou as casas da Rua Francisco Teodoro.
A partir do levantamento, informa a pesquisadora, será verificado o que sobrou e o estado em que se encontra. "Vamos fazer um dossiê de cada imóvel, com imagens que vão desde o desenho do imóvel, cruzada com a base cartográfica", informa. Isso não significa que o imóvel remanescente do mapa de 1929 será preservado. Mas ele terá informações suficientes para permitir que decisões sejam tomadas com ele, desde a preservação até demolição.(MTC/AAN)