Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Inventário mostra biodiversidade rica e falta de proteção

Publicado em 06 março 2006

Por Elizabeth Oliveira, do Jornal do Commercio
Chapada Diamantina - Resultado de pesquisas será apresentado em Curitiba durante a COP-8

Um inventário de espécies, recém-concluído após 18 meses de pesquisa, revelou a riqueza da biodiversidade da Chapada Diamantina, na Bahia. Em uma extensão de 35,3 mil quilômetros quadrados, o levantamento reuniu amostras de 854 espécies de plantas e 99 de fungos, além da diversidade de peixes, insetos e mamíferos, entre outros exemplares da fauna e da flora. O estudo, encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), após seleção pública, foi realizado pela Associação de Plantas do Nordeste, Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Departamento de Vertebrados - Mastozoologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A professora do Departamento de Ciências Biológicas da UEFS Flora Acuña Juncá, destacou que o inventário possibilitou reunir dados relevantes sobre a importância de uma área do País sobre a qual não existiam estudos recentes em relação à diversidade biológica. "Foi pela falta de informações sobre a biodiversidade da Chapada Diamantina que o Ministério do Meio Ambiente abriu edital , a fim de incentivar a pesquisa. Concorremos e tivemos o nosso projeto aprovado. Por meio desse trabalho fizemos um inventário pioneiro na maior parte dos grupos estudados", explica.
Segundo informou a professora Flora, as equipes formadas por especialistas em áreas como botânica e zoologia percorreram somente uma parte da Chapada Diamantina, cuja área total se estende por 50,6 mil quilômetros quadrados, que incluem 58 municípios da Bahia. "A vegetação nessa região é muito variada e forma um mosaico que exigirá novos estudos para maior aprofundamento. Considero que conseguimos obter uma fotografia interessante da rica biodiversidade das áreas estudadas, mas recomendamos que haja continuidade das pesquisas", observa a pesquisadora.
Nas áreas de caatinga da Chapada, os pesquisadores encontraram 213 espécies de plantas, nos campos rupestres foram localizadas 441, e no chamado Cerrado ralo, os pesquisadores catalogaram 80. Nos mais diferentes tipos de vegetação da região foram encontradas 161 espécies de orquídeas. Os levantamentos apontaram também a existência de 125 espécies de abelhas, 23 de vespas e 26 de besouros. Quanto aos peixes, somando os recentes levantamentos com as informações de estudos anteriores, são 76 espécies presentes na Chapada Diamantina, onde os estudiosos encontraram também 132 espécies de aves e 55 de mamíferos, além de outros animais e plantas.

Recomendada proteção integral na região
"Diante dos resultados obtidos, recomendamos a inclusão de novas Unidades de Conservação de Proteção Integral nessa região, a fim de preservar a rica biodiversidade", afirma a professora Flora. Esse tipo de área protegida não permite a extração de recursos naturais e tem como principais objetivos a preservação da diversidade biológica e a geração de novos estudos científicos.
Algumas áreas de mata de rica biodiversidade, segundo a professora da UEFS, não estão incluídas no Parque Estadual Morro do Chapéu, uma das Unidades de Conservação, que, na opinião da pesquisadora, precisa ser ampliada. No município de mesmo nome, Flora Acuña considera importante também a criação de área de proteção integral.
Os pesquisadores atuaram desde o município de Morro do Chapéu, Norte da Chapada, passando pelas cidades de Lençóis e Mucugê, região Central, até chegar a Rio das Contas e Jussiapê, Sul da região. O projeto, com recursos de R$ 350 mil, foi financiado pelo MMA, Banco Mundial e CNPq. Essa iniciativa integra o Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Biodiversidade Brasileira (Probio).
O inventário de espécies da Chapada Diamantina é uma das publicações que o Ministério do Meio Ambiente distribuirá na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-8), que será realizada em Curitiba, nos dias 20 a 31 deste mês. Considerado o evento ambiental mais importante sediado no Brasil, após a RIO 92, a COP-8 reunirá cerca de 5 mil pessoas de mais de cem países, incluindo delegações oficiais, representantes de órgãos públicos, ONGs, instituições de ensino e pesquisa, além de outros segmentos.
A COP-8 é a oitava reunião das Partes (países membros) da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), assinada na RIO-92 e considerado o documento mais importante para nortear políticas internacionais de proteção à biodiversidade. O acordo entrou em vigor em 1993 e atualmente tem 188 membros (Partes) incluindo 187 governos e a União Européia (UE). Até hoje, somente três países não ratificaram a CDB: EUA, Iraque e Brunei Darussalam.
Os principais objetivos da CDB são a conservação da diversidade biológica, a promoção do uso sustentável de seus componentes e a divisão justa dos benefícios proporcionados pelo uso de seus recursos genéticos. Além de ser o anfitrião da COP-8 o Brasil presidirá a CDB por dois anos.
O MMA lançará outros estudos inéditos durante a COP-8, entre eles a primeira avaliação do estado do conhecimento científico a respeito da biodiversidade no Brasil, além dos primeiros números de uma série de seis estudos sobre remanescentes de cobertura vegetal natural presente nos biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Campos Sulinos, Pantanal e Mata Atlântica).

Detalhamento das espécies em extinção
O detalhamento das 633 espécies de fauna ameaçada de extinção no Brasil também estará entre as publicações distribuídas durante a megaconvenção. Em meio à grande quantidade de informação científica sobre o estado da biodiversidade no País, o MMA também publicará um resumo do diagnóstico sobre as espécies exóticas invasoras que afetam ecossistemas terrestres e marinhos, além de colocar em risco a saúde da população.
Apesar dos estudos e publicações apresentados na COP-8, uma grande preocupação dos pesquisadores, está diretamente relacionada à falta de conhecimento científico sobre a biodiversidade do Brasil. Estima-se que em relação aos animais só sejam conhecidos 6,67% de todas as espécies existentes.
De acordo com artigo publicado pela Agência FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), no dia 18 último, assinado por Eduardo Geraque, um dos grandes complicadores em relação ao desconhecimento da biodiversidade brasileira está diretamente relacionado à carência de profissionais especializados em diversas áreas, entre elas, a taxonomia zoológica, ciência que se encarrega da identificação dos animais. O texto revela que existem apenas 542 pesquisadores brasileiros que se autodenominam sistematas em zoologia.
De acordo com o artigo da Agência FAPESP, um estudo preparado pelo pesquisador do Instituto de Biociências da USP, Antônio Carlos Marques, e por Carlos Lamas, do Museu de Zoologia da USP, "dos 542 pesquisadores que se autodenominam taxonomistas ou sistematas, 86 são doutores ainda sem vínculo empregatício e outros 39 estão aposentados". O artigo informa ainda que de janeiro de 2000 a março de 2005 um total de 400 novas espécies foram descritas em publicações científicas especializadas. Os especialistas entrevistados propõem, entre outras alternativas, "que nos próximos três anos seria ideal que o Brasil formasse pelo menos cem sistematas e que fossem instalados 30 novos docentes em áreas da sistemática nas quais o País é carente".

Alguns números do inventário
854 espécies de plantas e 99 de fungos foram encontradas pelos pesquisadores Cerrados, campos rupestres, florestas e caatinga são os principais tipos de vegetação
213 espécies de plantas foram encontradas nas áreas de caatinga
441 espécies foram identificadas nos campos rupestres
80 espécies foram identificadas no Cerrado
161 espécies de orquídeas foram identificadas em outros tipos de vegetação

Outras espécies encontradas
23 de vespas
125 de abelhas
26 de besouros
45 de peixes
132 de aves
55 de mamíferos

Curiosidades sobre os mamíferos
Segundo informações do professor João Alves de Oliveira, do Departamento de Vertebrados - Mastozoologia do Museu Nacional da UFRJ, que atuou especificamente com a pesquisa de mamíferos na região, o inventário trouxe novidades sobre a presença desses animais na Chapada Diamantina.
"O inventário de mamíferos revelou que a mastofauna da Chapada é composta por espécies características do semi-árido, como é o caso do mocó (Kerodon rupestris), mas tem também elementos da Mata Atlântica, como o rato-porco (Oxymycterus dasythrichus), a catita-de-três-listras (Monodelphis americana), e a cuíca (Marmosops incanus)", ressalta.
Segundo Oliveira, os registros de mamíferos da Chapada Diamantina eram baseados em poucas e isoladas observações. "Pela primeira vez foi feito um inventário empregando metodologia padronizada para diversos pontos diferentes da Chapada, proporcionando uma abordagem comparativa no que diz respeito à riqueza de espécies e abundância", acrescenta.
A exemplo da professora Flora Acuña, Oliveira também defende a necessidade de preservação de áreas consideradas relevantes para a manutenção da biodiversidade da região. "O notável número de espécies de pequenos mamíferos, que guardam relação com as formações florestadas na Chapada Diamantina, e a diversidade registrada ao longo do gradiente latitudinal amostrado apontam para a necessidade de se preservar áreas de floresta ainda remanescentes, onde tal diversidade possa estar representada", explica. Segundo ele, das regiões amostradas no estudo, "apenas as áreas de mata de altitude ainda não possuem uma área protegida extensa, não obstante estejam entre as mais impactadas por projetos agropecuários e pela expansão de núcleos populacionais recentes".
Oliveira destacou a importância das espécies para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas locais, exemplificando um pouco da função que exercem na natureza. "As diferentes espécies de morcegos, por exemplo, são importantes polinizadores, dispersores de sementes, e controladores das populações de insetos. Foram identificadas diversas espécies de morcegos na Chapada, algumas aparentemente restritas à ambientes florestados, outras de grande amplitude de distribuição, mas que certamente desempenham papel importante na manutenção das diferentes formações vegetacionais presentes na Chapada".
O equilíbrio desses ricos ecossistemas da Chapada Diamantina, entretanto, enfrenta muitos riscos, na opinião do professor do Museu Nacional da UFRJ. Entre as maiores preocupações, ele apontou as atividades de turismo, mineração, pecuária e empreendimentos agrícolas com irrigação para produção em larga escala, além do uso de agrotóxicos, a ocorrência de incêndios, e o aumento das populações humanas nas cidades, vilas, e no campo. Essas comunidades, devido ao baixo nível de instrução, tendem a optar por métodos extrativistas para buscar a sobrevivência. "Esse problema tem-se tornado mais notável com as ocupações de áreas de floresta remanescentes ou em recuperação, que poderiam ter sido destinadas à preservação permanente, mas que vêm sendo utilizadas pelo Incra, ou estão sendo invadidas pelos sem-terra", acrescenta.