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Intervenções certeiras

Publicado em 27 agosto 2013

Por Paula Takahashi

Santiago (Chile) e Belo Horizonte — A nomenclatura é única, mas o câncer de mama, assim como outros tumores malignos, como o de pulmão e o de colo do útero, tem variações que podem resultar em comportamento individualizado no organismo do paciente. “É como se fossem várias doenças em uma”, explica Carlos Barrios, professor da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Na última década, o avanço das tecnologias de sequenciamento genético contribuiu para a melhor caracterização do problema e para a busca por intervenções mais precisas. Ainda assim, a personalização do tratamento é um caminho que mobiliza a comunidade científica.

Por meio do sequenciamento do genoma, são identificados os biomarcadores responsáveis pela caracterização do tumor. Descobertos, eles se tornam alvo do ataque de medicamentos desenvolvidos exclusivamente com esse fim. Segundo Gilberto Amorim, membro da Clínica Oncologistas Associados do Rio de Janeiro, a possibilidade de fazer diagnósticos mais precisos e direcionar o tratamento ideal é um caminho estratégico e “sem volta” na luta contra o câncer. “É preciso reaprender a doença, já que ela tem várias formas, mesmo com a mesma nomenclatura”, afirma.

Os avanços estendem-se para o câncer de pulmão, do colo do útero e dos melanomas. “A intenção é conhecer não só a doença, como também o indivíduo. Pessoas têm reações diferentes aos medicamentos e é preciso conhecer melhor os mecanismos de cada organismo”, avalia Amorim. Nessa direção, a personalização permite, inclusive, a definição do melhor coquetel de medicamentos para cada paciente. “São feitos testes no tumor, e, a partir dos resultados, podem ser definidas as drogas com maior chance de resposta”, explica Amorim.

A abordagem mais individualizada também é uma saída para pacientes em situações crônicas e que não respondem mais aos tratamentos convencionais, segundo Bernardo Garicochea, coordenador de Ensino e Pesquisa do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês. “Com o teste no tumor, um remédio para leucemia pode agir em um determinado gene e ajudar também no tratamento de câncer de pulmão”, exemplifica Garicochea. Tomando as decisões terapêuticas mais corretas, ainda se evita a prescrição de remédios caros e sem efeito e são reduzidos os riscos de reações adversas ao medicamento.

Queda de cabelo

Também na linha de intervenções mais eficazes, cientistas testam o desenvolvimento de drogas que reduzam os sintomas provocados pelo tratamento quimioterápico, como a perda de cabelo. De acordo com Barrios, a molécula TDM1, um conjugado entre anticorpo e um agente tóxico para atacar a célula cancerosa, tem essa função. A intenção é que ela funcione como um verdadeiro “míssil teleguiado”, que chegará exatamente à área para a qual foi destinada.

“O anticorpo vai levar consigo a molécula tóxica. Quando chegar à célula que se quer atacar, ela penetrará nela. A partir daí, tem-se uma verdadeira bomba”, explica o especialista. Com a destinação bem definida, os índices de toxicidade são bastante reduzidos. “A molécula criada não se solta no organismo. Somente na célula que se quer combater”, observa. Sendo menos tóxico, o TDM-1 pode significar o fim da queda de cabelo. “Estamos na fase de testes para saber qual seria a melhor combinação”, conta Barrios, que discutiu os desafios e os benefícios do tratamento individualizado contra o câncer, em julho, em Santiago.

A repórter viajou a convite da Roche

Só na rede privada

O sequenciamento do DNA para diagnóstico de doenças genéticas ainda é oferecido apenas na rede privada de saúde e custa cerca

de R$ 7 mil. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vão avaliar a viabilidade, por meio de uma análise detalhada de custos, de incluir o método no Sistema Único de Saúde.

O estudo deve durar quatro anos e será realizado no Instituto Brasileiro de Neurociências e Neurotecnologia, um dos novos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp).

Enviada especial

Fonte: Correio Braziliense / DF