Notícia

Gazeta Mercantil

Internet, uma fábrica de fazer dinheiro

Publicado em 12 julho 1995

Por por Paul Taylor - do Financial Times
A Internet, que antigamente era pouco maior que um playground para os amadores do computador, tornou-se um instrumento empresarial importante, fornecendo um suporte nas comunicações globais, um dispositivo de pesquisa e marketing e um canal para o comércio eletrônico. "A Internet está se encaminhando para ser uma imensa operação para fazer dinheiro", diz o grupo Forrester Research, com sede nos Estados Unidos, num recente relatório. O grupo calcula que as receitas do mercado global, oriundas dos produtos e serviços relacionados na Internet, crescerão de respeitáveis US$ 300 milhões no ano passado para substanciais US$ 10 bilhões no fim do século. Especificamente, Forrester prevê que o software para aplicações na Internet crescerá para um mercado anual equivalente a mais US$ 750 milhões no fim da década, as taxas de acesso à rede subirão para mais de US$ 500 milhões, novas atividades da Internet irão gerar US$ 350 milhões em novas vendas de harware e os serviços e consultas ligados à Internet alcançarão US$ 225 milhões. A SRI International, outra empresa de pesquisa de mercado, afirma em relatório publicado no final de maio que a Internet "pode assumir um papel crucial ao permitir que as empresas estabeleçam e mantenham uma relação com seus clientes, o que em troca lhes permitirá tornar-se mais sensíveis aos clientes e promover vendas de produtos e serviços adicionais". A Internet expandiu-se rapidamente nos últimos anos. Ela conta agora com cerca de 40 milhões de usuários e conecta mais de 40 mil redes individuais e quase 5 milhões de "host computers" - computadores centrais -, sendo que um terço deles se encontra na Europa. Uma nova rede é conectada à Internet a cada 30 minutos, e mensalmente 1 milhão de usuários se juntam à rede. No ano 2000, alguns participantes do setor estão predizendo que a Internet terá 100 milhões de usuários. Quase metade das empresas negociadas em bolsa nos Estados Unidos, com vendas anuais de mais de US$ 1,5 bilhão, marca presença na Internet e novos locais de comercialização na rede estão praticamente duplicando a cada ano, de acordo com a Internet Society, uma organização internacional que supervisiona a tecnologia e aplicações da Internet. Quase 60% do tráfego dentro da Internet é de origem comercial. Esse aumento recente do interesse das empresas na Internet vem sendo estimulado por vários fatores. Entre eles o desenvolvimento de um software de uso fácil para pesquisa dos vastos meios de informação da Internet, e o atrativo da comunicação de dados a um custo baixo. Mais importante no entanto é o fato de a Internet ter alcançado "a massa crítica" -existem tantos clientes potenciais que as empresas não se podem dar ao luxo de ignorá-los. Os usos comerciais mais populares da Internet são o correio eletrônico interno e externo - utilizado por até 80% das empresas - transferência de arquivo (50%) e acesso a dados externos (40%). Nos últimos anos a Internet tornou-se um condutor para milhões de mensagens eletrônicas. Ao contrário das chamadas telefônicas, fax ou o correio convencional, o custo do correio eletrônico da Internet independe da distância que a mensagem deve viajar, tornando a rede uma grande economizadora de gastos nas comunicações internacionais. No futuro, a Internet pode tornar-se também um meio importante para o tráfego de voz a preço reduzido, assim como para dados. Embora a utilização da Internet para ligações telefônicas esteja prejudicada, atualmente, por inúmeros obstáculos, Peter Dawe, diretor administrativo da Pipex, a maior fornecedora comercial de serviços da Internet, sediada no Reino Unido, acredita que isso mudará rapidamente. Os pacotes de software que permitem chamadas com utilização de voz de pessoa para pessoa, pela Internet, já são viáveis e programas de software e hardware mais sofisticados estão para surgir. No entanto, enquanto isso, a parte da Internet com crescimento mais rápido é o "World Wide Web" (WWW), que prove o conjunto padrão de protocolos para apresentação e recuperação de "páginas" de informação. O tráfego no WWW aumentou mais de dez vezes em 1994 e no início deste ano havia mais de 15 mil de "home pages" World Wide Web criadas por indivíduos, instituições acadêmicas, empresas, departamentos de governo e outras organizações. Muitas empresas criaram "anúncios eletrônicos" no World Wide Web para mostrar seus produtos, criando um "distrito comercial" florescente na rede Internet. O WWW sozinho transformou a rede de uma caixa de areia de membros originários da rede num cruzamento de estradas com calçadões eletrônicos de compras, novos editores de informação e depósitos EDI (intercâmbio eletrônico de dados), revela o relatório do grupo Forrester. Os locais do WWW vão de simples lista de produtos até apresentações multimídia elaboradas, incorporando imagens em terceira dimensão, som e vídeo criados utilizando-se o mais recente software WWW, incluindo o WebSpace da Silicon Graphics, que pode ser usado para a criação de "mundos virtuais" tridimensionais, e Hot Java da Sun Microsystems. O Hot Java é um novo "browser" - paginador - que em vez de simplesmente transferir páginas estáticas do texto e gráficos para um computador do usuário, também faz "download" de pequenas aplicações do software, criadas com uso da linguagem do programa Java da Sun Microsystems. Além de marketing, comunicações e editoração eletrônica, a promessa verdadeira da Internet é o comércio eletrônico - transações conduzidas através das redes de computador. O desenvolvimento das compras eletrônicas pela Internet foi refreado por temores ligados à segurança, mas isso agora está mudando. No Vale do Silício, Califórnia, por exemplo, um consórcio de empresas de alta tecnologia está criando o CommerceNet, um mercado dentro da Internet para produtos eletrônicos. Utilizando um programa de "browser" seguro, os clientes podem encomendar produtos diretamente pela rede, por meio de seus cartões de crédito. Usando a mais recente versão do "browser" WWW da Netscape, vias de compra seguras foram criadas pelas empresas sediadas nos Estados Unidos. Elas abrangem a market-place MCI, Internet Shopping Network e Access Market Square administrada pela InterConncct West, com sede em Utah. Por outro lado, a Barclays Merchant Services, britânica, lançou o BarclaySquare, um centro de compras eletrônico, no mês passado. O BarclaySquare utiliza as características de criptografia do Netscape Navigator v1.1 acoplado aos dispositivos de segurança desenvolvidos pela Interactive Telephony, uma empresa privada sediada em Jersey, que opera o Supernet, um serviço de informação "on-line" que está em desenvolvimento. E OFNo entanto, nem todos concordam quanto ao potencial da Internet para as compras eletrônicas. De acordo com uma recente pesquisa da Dataquest, menos de 25% dos usuários da Internet estão dispostos a fazer compras "on-line" com cartão de crédito. Embora a pesquisa da Dataquest tenha confirmado que a principal preocupação seja a questão da segurança - mais de 60% dos entrevistados consideraram muito importante a segurança -, esse aspecto é apenas uma pequena parte da falta de interesse, hoje, nas compra "on-line". "Os fatores-chave que estão por trás do crescimento de aplicações do shopping eletrônico são o desenvolvimento de aplicações persuasivas e a produção de cenários que focalizem mais o consumidor do que o comerciante", afirmou Allen Weiner, um dos principais analistas da Dataquest. "As aplicações precisam propiciar conveniência como também uma experiência de compra agradável para que tenham sucesso junto ao consumidor: oferecer simplesmente um meio diferente de fazer a mesma coisa antiga não levará ao sucesso nesse mercado. O crescimento da Internet também está estimulando o desenvolvimento de um software e um hardware dinâmicos, e de um setor de serviços também, para apoiar a própria Internet. A Input, uma empresa de pesquisas de mercado, estima que a Internet levará ao desenvolvimento de um mercado de serviços e apoio e de software que, apenas na Europa, equivalerá a US$ 35 bilhões em receitas anuais no fim da década. "O fenômeno da Internet é o maior na história dos serviços de informação da década de 90", afirma Peter Cunningham, presidente e fundador da Input. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Sun Microsystems, fornecedora líder de computadores ligados à Internet, é também uma usuária contumaz das aplicações da Internet. A empresa de computadores está usando o WWW para reduzir os custos da mão-de-obra e treinamento para serviços de atendimento ao cliente, impressão e distribuição de software e serviço ao cliente. A Sun afirma ter economizado cerca de US$ 1 milhão em cada trimestre pela distribuição de "patches" de software (na programação, a correção de uma deficiência na funcionalidade de uma rotina ou programa já existente, em geral para atender a uma necessidade imprevista ou a um conjunto de circunstâncias operacionais), e versões publicadas com antecipação de novos programas no WWW. No entanto, apesar de todas as vantagens que oferece, a Internet apresenta inúmeros inconvenientes. Ela não dispõe de um diretório amplo de usuários e serviços e sofre de várias falhas de segurança bastante divulgadas. "A luta entre as empresas para não ficar para trás pela revolução da Internet significou que os padrões de segurança normalmente altos encontrados entre os maiores usuários da tecnologia da informação não estão espelhados em suas políticas relacionadas a seus elos com a Internet", diz Brian Neale, importante autoridade da Digital Equipment sobre a segurança da Internet. Segundo ele: "Achamos que três quartos das grandes firmas que estão utilizando atualmente ou pretendem aderir a Internet estão nessa posição. A promessa de benefícios substanciais a partir, de uma aplicação comercial da Internet tornou muitas em presas condutores perigosos na superestrada da informação. Isso as deixa expostas a riscos desnecessários. Em dezembro do ano passado, num fórum sobre segurança no Reino Unido, foi dito aos delegados da Internet que "as práticas de segurança exigidas para uma rede interna com alguns milhares de usuários simplesmente não garantem conexões seguras para uma comunidade da Internet de 35 milhões de pessoas". Quem se manifestou foi Gerry O'Neill, do Centro de Computação Nacional. Para combater o problema da segurança, as empresas que ligam seus computadores à Internet construíram "firewalls" (paredes de fogo) para proteger informações internas sensíveis contra intrusos. Usuários comerciais também estão na expectativa de, melhorar os serviços, uma vez, que novas tecnologias de criptografia e software continuam a transformar a rede global de computador numa ferramenta comercial robusta.