Notícia

Gazeta Mercantil

Internet grátis quebra as resistências

Publicado em 20 janeiro 2000

Por Rosi Rico - de São Paulo
Durou pouco mais de um mês a tentativa de segurar o avanço do acesso gratuito à Internet no Brasil. A entrada do Brasil Online (BOL) na disputa pelos internautas não deixa dúvida: o ser viço veio para ficar. Não se trata mais de novas empresas surgindo, mas de uma companhia criada pelos grupos Folha e Abril, os mesmos que controlam o maior provedor do País, o Universo Online (UOL). Batizado de NetGratuita, o serviço está sendo anunciado em vários jornais desde o último final de semana. O lançamento, não oficializado, deve ser feito nos próximos dias. O domínio "netgratuita" está registrado na Fapesp em nome de Victor Fernando Ribeiro, diretor do BOL. A empresa, que já oferece correio eletrônico de graça, amplia ainda mais a lista que, em pouco mais de um mês, conta com nove nomes: Bradesco, Banco do Brasil, Unibanco, BRFree, iG, Igreja Católica, Super11.net e Tutopia. E o número deve crescer. O Banco Bilbao Vizcaya já anunciou que vai entrar na disputa. Analistas do mercado apontam Itaú e HSBC como os próximos. A norte-americana Max Internet Communications, que vende placas de acesso à Web e desembarca no País em fevereiro, já anunciou estar criando um provedor para oferecer acesso até julho. Com perspectiva de receitas baseadas em comércio eletrônico e publicidade, o novo modelo coloca em xeque a principal fonte de receita dos provedores tradicionais: o acesso. É o caso, por exemplo, do ZAZ. Para o segundo provedor do País, o acesso representa 60% do faturamento. Hoje, a empresa anuncia suas estratégias para "estar sintonizada com as mudanças do mercado de Internet". Se as reações dos grandes provedores só começam a surgir agora - o UOL está veiculando anúncios ressaltando as vantagens do conteúdo diante do simples acesso gratuito - a Abranet, entidade dos provedores do setor, agiu rápido e de forma agressiva. Depois que o Bradesco, pivô inicial da discussão, lançou seu serviço, a associação já contatou a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O Cade chegou a levantar a possibilidade de suspender o acesso gratuito até o julgamento do assunto. A questão continua em suspenso. A alegação é de que a concorrência pode acabar com os provedores tradicionais. Enquanto entidades, empresários e executivos discutem, o número de usuários a aderir ao novo serviço cresce. Apenas o iG, dos grupos Garantia e GP, registrou 35 mil cadastros no primeiro dia de atividades. Até o final da tarde de ontem, no mineiro BRFree, o número de usuários chegava a 43 mil. A tendência, que chega agora no Brasil, já é realidade em países como Inglaterra e França. Na Argentina, há empresas, como a dearriba.com, que pagam, com bônus, para o usuário se cadastrar. OS DILEMAS DE UM PROVEDOR Internet de graça pode até ser sem graça, como afirma uma campanha publicitária para a TV do Universo Online (UOL). Mas o maior provedor brasileiro de acesso à rede mundial de computadores não conseguiu resistir à onda que invadiu o mercado brasileiro. Mesmo mantendo uma atitude - em meio a entrevistas do diretor Caio Túlio Costa e na veiculação de várias páginas em jornais - de que seu produto era melhor por ser pago, o UOL estendeu um de seus braços, o Brasil Online (BOL), para oferecer serviço gratuito de acesso à Internet. A iniciativa poderia ser vista como uma forma do UOL estar presente em todas as frentes do mercado. Mas parece contraditória. Principalmente porque os anúncios sobre a chegada em breve da NetGratuita começaram a ser veiculados simultaneamente, no último sábado, à campanha que destacava as vantagens de um provedor como o UOL Essa campanha na mídia impressa destaca, em três páginas intercaladas, que só o UOL oferece discagem automática, notícias atualizadas e acesso em duas mil cidades. Assim, parece estar sugerindo que um serviço gratuito não terá atrativos para o público, além do custo zero. Claro que o objetivo é valorizar a fatia entre seus serviços que lhe garante uma renda maior. No entanto, não deixa de ser uma forma de fazer propaganda contra si mesmo.