Notícia

Gazeta Mercantil

Internet faz parte do livre mercado

Publicado em 08 setembro 1995

Por Robert Kuttner - da Business Week
Muitos profetas do ciberespaço acreditam que a Internet é a apoteose do mercado. Tudo é maravilhosamente descentralizado e auto-realizador, sem necessidade de regulamentos incômodos. Qualquer vendedor pode oferecer produtos e serviços a qualquer comprador, em qualquer parte. Para teóricos como os autores George Gilder e John Maisbitt, e para Peter Huber, do Instituto Manhattan de Pesquisa de Política, o mundo de comunicação por meio de computador realiza uma utopia de mercado - Adam Smith com um computador. Não estou tão certo. Para começar, considere a história da Internet. Cresceu a partir da Arpanet (Rede de Agências de Projetos de Pesquisa Avançada, do Departamento da Defesa norte-americano), um sistema destinado a ligar computadores remotos para fins de desenvolvimento de armamentos, comando e controle militares, e pesquisa pura. O governo financiou a maior parte dos avanços iniciais que possibilitaram os computadores pessoais serem hoje fáceis de usar, ligados por linhas telefônicas - transferência de dados em lotes, "interfaces" gráficos e arquitetura da própria Internet. Quando o Pentágono deixou a rede, a comunidade universitária e científica deu prosseguimento ao serviço. As antecessoras da Internet, como a Bitnet (uma cooperativa interuniversitária sem fins lucrativos) e a NSFNET da Fundação Nacional da Ciência, foram desenvolvidas principalmente para fazer pesquisa. A utilização era subsidiada pelo governo. Apesar de algumas empresas privadas, como a Xerox Corp, (através de seu centro de pesquisas de Paio Alto), terem contribuído para a base tecnológica da Internet de hoje, ninguém imaginava que uma rede destinada a comunicações militares fosse usada algum dia para fazer compras em casa. RIDÍCULO Quando a ligação de computadores remotos ainda estava dando os primeiros passos, a perspectiva de compensação comercial estava tão distante e improvável que nenhuma empresa privada poderia ter justificado o empreendimento com base no motivo lucro. Apesar de as grandes empresas daquela época terem muitos cientistas e recursos financeiros, a Internet não foi criada por investimentos privados, mas pelo Pentágono e universidades -os dois principais centros de virtuosidade técnica com metas que não eram o lucro. Além disso, à medida que se desenvolvia a Internet, o mesmo acontecia com uma subcultura singular - uma subcultura comprometida com a descentralização e o acesso aberto, mas também cética do oportunismo e obtenção de lucro. As primeiras tentativas de usar a Internet para publicidade foram totalmente "queimadas" - bombardeadas com declarações injuriosas - por aficionados da rede. Os guardiões da cultura da Internet e os promotores do cibercapitalismo compartilham uma reverência à anarquia benigna, mas não a mesma adoração ao motivo lucro. Navegando na Internet, a pessoa verifica que a maioria dos milhares de endereços da rede que oferecem informações a qualquer um que acessa são serviços gratuitos - tipicamente conectados por entusiastas por mera alegria de descoberta, invenção e comunicação. Talvez o princípio da cibercultura mais bem defendido é que a informação deve permanecer grátis. Evidentemente, a Internet está na sua infância como mercado comercial. Até agora, tem sido principalmente um meio de intercâmbio científico e de pesquisas, de grupos de conversa para pacientes de câncer, observadores de O.J. Simpson e milhares de outras "comunidades virtuais". Logo que o "software" for aperfeiçoado para garantir a segurança de compras com cartões de crédito, os usos amadores e não lucrativos poderão coexistir facilmente com as compras em casa, diversão paga por uso, e outros empreendimentos comerciais. Mas a Internet permanecerá como algo que não é o puro capitalismo. Não existiria se não fosse pela comunidade científica, de pesquisa e de "hackers" com motivos que não são comerciais. Apesar de se tornar certamente uma via principal para o comércio, isso não é tudo. A ética de informações livres está tão profundamente enraizada na Internet que é difícil ver como dados em troca de uma taxa expulsarão os dados gratuitos. VIDAS PRÓPRIAS Algumas lições: as subculturas, ao contrário de Karl Marx e George Gilder, não são reflexos mecânicos de interesses materiais. Elas têm uma forma de assumir vida própria. Grande parte da cultura de Internet é um híbrido distinto, com muita coisa em comum com Jerry Garcia e também com Adam Smith. Os fãs conservadores de tecnologia e de livres mercados, notadamente o presidente da Câmara norte-americana, Newt Gingrich, devem pensar duas vezes antes de declarar liquidada a pesquisa científica e pesquisa técnica do setor público, e transferir toda a responsabilidade para o setor privado. Embora a Internet possa ser na maior parte auto-regulamentadora, convém ter a Justiça no fundo para garantir que nenhuma empresa individual assuma o controle de seus acessos. Os empreendedores podem certamente se aproveitarem dessa notável infra-estrutura, lucrar com ela e levá-la para a próxima fase. Mas devem perceber em cujos ombros estão apoiando. E podem enfrentar mais resistência e um conjunto de valores mais complexo do que esperam. Robert Kuttner é co-editor de "The American Prospect" e autor de "The End of Laissez-Faire"