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Gazeta de Alagoas online

Internet faz idade nova

Publicado em 03 junho 2015

Estar conectado hoje, segundo a ONU, é um direito humano. Há 20 anos, quando poucos tinham esse privilégio, o Brasil e o mundo viam o nascimento daquilo que mudaria tudo. O acesso comercial à rede (antes reservada a computadores em universidades em diversos países) foi o que permitiu o surgimento de enciclopédias abertas, ferramentas de comunicação em diferentes formatos, publicadores de notícias e do comércio eletrônico.

No início, a internet era uma rede que ligava universidades ao redor do mundo. O Brasil, por exemplo, se conectava a outros países através de redes que partiam da Fapesp, do Laboratório Nacional de Computação Científica, no Rio, e da UFRJ. Foi na Conferência Rio-92 que o País teve sua primeira grande experiência on-line, conectando-se às redes acadêmicas dos EUA. Foi no evento, inclusive, que a Agência Estado, agência de notícias do Grupo Estado, teve sua primeira experiência de cobertura on-line em tempo real.

Nessas redes, surgiram então os chamados BBS, uma forma rudimentar anterior à web (www) que permitia troca de arquivos e comunicação via correio eletrônico (o bom e velho e-mail). No Brasil, dois se destacaram, o comandado por Paulo Cesar Breim e o outro, liderado por Aleksandar Mandic.

Foi em 1994 que uma comitiva, com o então superintendente da área de informática da Fapesp, Demi Getschko, negociou os primeiros blocos de IP para o Brasil, que já tinha conquistado anos antes o domínio .br.

No ano seguinte, provedores passariam a oferecer, finalmente, o acesso à ponta final. Era o que faltava. Bancos (Bradesco, Unibanco, Credicard, o antigo Banespa), sites de notícias (como o pioneiro “agestado.com.br”), empresas e organizações (como Itautec, IBM, Tectoy, Chevrolet e Philco) garantiram seu espaço na rede e registraram os primeiros domínios brasileiros.

Em janeiro de 1996, a equipe do recém-nascido Comitê Gestor da Internet registrava 851 domínios. Chegando ao nosso presente, o mês de abril encerrou com mais de 3,6 milhões de “pontos br”. Confira os depoimentos de personagens que participaram dessa história.

REGISTRAR DOMÍNIOS FOI UMA FEBRE

Paulo Cesar Breim, foi o criador do primeiro domínio .com.br, em 1986. “Eu montei um BBS, o Canal Vip. Eu mesmo escrevi, por isso virei uma espécie de referência, o que me levou a fazer o internet banking de vários bancos brasileiros. Era um universo pequeno de usuários, já que só quem tinha modem e linha telefônica, que era muito cara na época, podia usar, o Mandic usava, inclusive. Antes, só existia a rede acadêmica da Fapesp. Aí em 1993, eu fui conversar com o Demi para saber se a gente podia ter correio eletrônico. Deu certo. Ganhamos vários usuários, muitos deles eram pais de jovens que estudavam nos EUA – era mais barato trocar e-mail do que ligar. Na época, eu disse para uma revista que ‘no futuro, quem não quiser um computador em casa, estará na mesma situação de quem não tem um telefone hoje’ e estaria desligado do mundo. Em 95, a Embratel passou a oferecer conexão e eu migrei e registrei o meu .com.br. Foi uma febre! Surgiram muitos provedores e a competição ficou difícil. Vendi minha empresa – por sorte, antes da explosão da bolha – e me dediquei a trabalhar com bancos e me especializei em perícia criminal digital”.

EM 1995, O AMBIENTE ESTAVA PRONTO PARA O CRESCIMENTO QUE VIRIA

Demi Getschko, ex-Fapesp e conselheiro do CGI.br, disse: “Em 1989, já existiam as redes acadêmicas entre o Brasil e os EUA. A Fapesp se ligava ao laboratório de física Fermilab (de Illinois), o LNCC, no Rio de Janeiro, se conectava a Maryland, e a UFRJ à Universidade da Califórnia, em San Diego. Em abril daquele ano, registramos o “ponto br” – que deu origem ao com.br, o net.br, o .gov.br, e o org.br. Já se podia registrar o .com.br, mas as pessoas não tinham linha para trafegar seus dados”.

O primeiro exemplo independente, com estrutura própria, foi o Ibase, no Rio, que usava uma conexão discada que levava até dias para enviar um e-mail. Havia também BBS muito ativas, como a do PCB e do Mandic, com correio eletrônico, que pagavam a conexão até a Fapesp, mas funcionaram. Tinha também o Canal Manual: as pessoas escreviam seus e-mails, gravavam num disquete e levavam até nós na Fapesp; tempos depois, passavam para pegar o disquete com as respostas. Foi um baita malabarismo. Em 1994, a Embratel passou a oferecer acesso à pessoa física – muita gente se inscreveu para ter um domínio –, mas achávamos que aquilo não era uma boa ideia porque tudo passaria por ela. Tivemos uma reunião com o ministro Sergio Motta no começo de 1995 e disso ele baixou uma portaria dizendo que a Embratel deveria entregar banda (o “cano”) para as teles, que passariam para os provedores, que fariam então a ponte com o usuário final. Aí se criou toda uma cadeia de valores.

Em 1994, fomos à IANA para conseguir um bloco de IP para o Brasil. Ele foi o começo das alocações para teles e provedores. Em 1995, nasce o Comitê Gestor da Internet. Passamos então a cobrar pelos domínios – fundamental para permitir o crescimento autossustentável da internet comercial que viria a seguir.

NO INÍCIO DA INTERNET, NÃO HAVIA NADA

“Eu abri o Mandic BBS em 1990. Era para usar no trabalho, na Siemens. Mas não deu certo, eu levei para casa e comecei a convidar alguns amigos. No começo tinha quase ninguém. Depois passei a oferecer e-mail e, em 1995, eu tinha 10 mil usuários. Compare com o meu aplicativo Mandic Magic hoje (que guarda senhas de pontos de wi-fi), que cadastra 30 mil usuários por dia. Como o mundo mudou! Mas, voltando, no início, um ajudava o outro porque não existia nada. Eu era colega do PCB, apesar de sermos concorrentes, e ele disse para mim: ‘Olha, está chegando um negócio aí chamado internet’. Quando em 1995, pelas conexões e a distribuição de domínios .com.br, a internet comercial explodiu, eu lembro que o primeiro site que eu acessei foi o da NASA. Não tinha muita opção. Mas a coisa evoluiu – ninguém imaginava o que a internet ia virar – e aí surgiu a ideia de oferecer internet gratuita. Foi quando criamos o iG, em 2000. Foi um marco na história do Brasil. No primeiro dia, cadastramos 32 mil usuários. Em 20 dias, eram 500 mil. O ano de 1995 foi o começo de uma revolução. Uma linha telefônica

na época era muito cara. Hoje eu nem uso telefone fixo em casa e tenho internet com 200 mbps de download. É exagero, mas se tem, vamos usar, né?”.

Por: AGÊNCIA ESTADO