Notícia

Jornal do Brasil

Internet de graça!?

Publicado em 20 janeiro 2000

Por ANDREA ROSA
Quando o designer paulista Maurício Pacheco ouviu falar em acesso gratuito à Internet ficou com uma pulga atrás da orelha. "Não vou pagar nada? O acesso é ilimitado? Será que a conexão é de qualidade? E a segurança? Como é que esses provedores vão ganhar dinheiro?", questionou, extremamente desconfiado, o hard user, que navega, em média, 12 horas por dia. "Se funcionar mesmo, se não for picaretagem, e o serviço fiel às propagandas que têm sido veiculadas, não terei dúvidas. Cancelo a minha assinatura hoje", afirma. As mesmas dúvidas que estão passando pela cabeça de Pacheco com certeza também estão tirando o sono de muitos usuários e, claro, dos provedores que cobram pelo acesso e estão sentindo a ameaça ao seu império. Não há como fugir do tema que tomou conta de todas as listas de discussões da Rede e fora dela também. Praticamente todos os dias alguma empresa avisa que vai investir pesado para abocanhar essa fatia de mercado. E a parada está dura mesmo. Estão no páreo desde bancos do porte do Bradesco e Banco Brasil até a Igreja Católica (Porto Alegre) que nesta primeira semana de operação espera cadastrar 100 mil usuários no provedor www.catolico.com.br. O portal oferece também vários serviços eletrônicos especiais para a comunidade católica, como instruções para rezar o terço, horário das missas, orações e lista das paróquias da região metropolitana da capital gaúcha. Em breve entrará no ar o chat católico e notícias sobre a comunidade. Vale ressaltar que com tantos serviços e imagens o site ficou muito pesado e demora uma eternidade para carregar. Cifras - Mas a sobrevivência da empresa não dependerá da bondade divina. O site pede uma colaboração, não obrigatória, de R$ 10,00 de seus usuários e tem vários anunciantes, como Gerdau e Finasa. A promessa é destinar parte da renda a entidades assistenciais, como orfanatos e asilos. O provedor também fará o serviço de hosting (hospedagem de páginas). Olho vivo - J.A.Braga Neto, da Hyperativa Internet, é um dos usuários que está de olho na movimentação do mercado. Ele conta ao Caderno Internet o que já fez até agora. "Minha experiência com o novo serviço de acesso gratuito à Internet foi por curiosidade profissional. Trabalho com a Web desde 1995 e um lançamento como este é marcante tendo em vista as possibilidades de expansão do número de usuários acessarem o meio em que trabalho", diz o profissional. O caminho das pedras - Para testar, Neto percorreu os seguintes passos: "Fiz o download do discador do iG (Internet Grátis) e me conectei algumas vezes. A conexão foi boa (na faixa dos 45 KBps) mas, eventualmente, a linha cai. E isso para um profissional da área não é bom. Senti falta também da possibilidade de configurar meu programa dê correio, o que inviabiliza a opção única de acesso pelo serviço gratuito, pois não tenho como resgatar meus e-mails. Ouvi dizer que isso iria ser corrigido. No último final de semana ouvi falar do super11.net (já oferecendo a configuração do programa de e-mail) mas não testei. Meu provedor atual é o UOL e não me sinto motivado a trocá-lo por um serviço gratuito. De fato, estou realmente querendo melhorar a qualidade do meu acesso e, na verdade, penso em adquirir uma linha ADSL ou cabo partindo para uma conexão de alta velocidade. Inclusive já estou inscrito em ambos os planos e aguardando o primeiro que entrar no mercado", declara. Conteúdo - Se decidir mesmo ficar no Uol, Neto vai continuar pagando pelo acesso por muito tempo. Pelo menos é o que garante o Diretor Geral da empresa. Caio Túlio Costa. "Não temos interesse nesse mercado. Estamos na briga, mas é pelo conteúdo" garantiu o quase monossilábico diretor. Caio negou veementemente que vá lançar um provedor gratuito, notícia que circulou na Rede esta semana. O que levantou a suspeita foi o fato do provedor de acesso gratuito NetGratuito ter sido registrado na Fapesp pela AcessoNet do UOL. Supervisão - De olho no mercado também e nada satisfeita está a Abranet. De acordo com o diretor de Marketing, Luiz Lima, o provimento de acesso gratuito é visto pela entidade como uma "atitude velada de destruir o mercado", Lima questiona: "Quem pode afirmar que não há má intenção por trás dessa estratégia? O que vão fazer com os dados dos clientes cadastrados? Como eles vão se manter? Como ficará o mercado daqui a seis meses? Tem provedor que oferece um 0800. Nem a ligação é paga?", especula. Bate-papo - Amanhã, a partir das 15h30, o site do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) vai promover uma discussão sobre o acesso gratuito (www.mj.gov.br). O diretor do Conselho, Gesner Oliveira, estará à disposição de provedores de todo o Brasil em uma sala de chat para responder a perguntas sobre a legitimidade do serviço.