Notícia

Blog Noblat

Internet, costura de sonhos e sobrevivência de utopias

Publicado em 30 setembro 2005

Por Mariluce Moura

Imaginem uma escola com indiscutível qualidade de ensino, em razão do alto nível de seus professores, capaz de introduzir incessantemente inovações em seu planejamento didático e que se afirma como campo fértil de pesquisa das melhores e mais avançadas práticas pedagógicas que se conhece.
Imagine uma escola que passa por uma certa flutuação entre períodos de liberação e outros um tanto autoritários, mas  termina fazendo uma aposta maior num ambiente mais livre e criativo, em que se experimenta ampliar os limites da liberdade de ação de adolescentes e jovens, na faixa de 11 a 18 anos  e cobrar firmemente deles responsabilidade na administração dessa liberdade.
Imagine uma escola em que, a par de um ensino avançado em ciências e matemática, estimula-se a criação literária, a aprendizagem de diferentes línguas estrangeiras, os vôos do pensamento crítico nas ciências sociais, o contato com a dança, o teatro, as artes plásticas... E que, para completar tudo isso, é gratuita.
Agora imagine um profundo e inexplicável incômodo que a existência dessa escola produz na instituição pública responsável por sua manutenção, de tal ordem que a instituição decide sem mais delongas fechá-la. Extingui-la. E não há argumentos capazes de demovê-la desse intento, apesar do alto conceito de que goza a escola na comunidade em que se implantou.
Essa escola existiu. Era o Colégio de Aplicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituído em 1949. Depois de 27 anos de inestimáveis serviços prestados à teoria e à prática da educação no ensino secundário em terras baianas, ele foi fechado em 1976 por decisão do reitor da UFBA, Lafayette Pondé, que determinou uma desaceleração melancólica da escola a partir de 1973. No último ano, havia só duas turmas: a do terceiro colegial daquele ano e a da quarta série de ginásio.
Façamos um corte cinematográfico: segunda feira, 26 de setembro de 2005. Às 20 horas, o enorme salão de festas do Hotel da Bahia, o mais antigo dos hotéis de luxo de Salvador, iluminado, preparado para um elegante jantar com umas tantas dezenas de mesas recobertas por toalhas brancas, uma mesa comprida sobre um tablado na frente, outras compridas mesas dispostas lateralmente, onde supõe-se que logo os garçons colocarão os acepipes encomendados, começa a se encher de gente. Homens e mulheres bem vestidos, perfumados, as mulheres, claro, em assumidíssimas toaletes de festa. Os homens um pouco mais despojados, encontram-se, animam-se, trocam abraços, beijos, sorrisos, olhares, gritos de surpresa, de exclamação, e falas, falas, falas... Há uma alegria impressionante, uma  vibração física no ambiente, que se espalha, difunde-se, envolve todos francamente. Os rostos, os corpos, têm  predominantemente entre 45 e 55 anos, mas há os de 60, 70 e mais, e de repente, numa expressão surpreendida, num riso, numa gargalhada, num segredo sussurrado parecem ter menos, muito menos. 
O salão já está lotado e um dos principais organizadores da festa começa a falar sobre como se chegou a ela. Ninguém ouve. As pessoas continuam a chegar e fala-se incessantemente, produzem-se no enorme espaço todos os barulhos da alegria que não precisa de controle, não quer disfarces.
Pede-se repetidamente silêncio porque a doutora Zilma Parente de Barros, a última diretora do Colégio de Aplicação, autora de uma dissertação de mestrado sobre redefinição conceitual dos Colégios de Aplicação, vai falar. A pedido dos próprios organizadores da festa ela responderia a três indagações sobre a criação da escola, as razões de sua excelência e o seu processo de extinção. "Os Colégios de Aplicação surgiram, no panorama da educação brasileira, por força do Decreto-Lei n. 9053, de 12 de março de 1946, que obrigava a criação de uma escola anexa às Faculdades de Filosofia, onde deveriam ser realizados os estágios dos licenciandos que se preparavam, através de diferentes cursos, para o exercício do magistério no antigo ensino secundário".
Ninguém ouve e até a palestrante compreende. Segue em frente. Depois as pessoas poderão recuperar o texto. "Os Colégios de Aplicação devem seu nome à função precípua que lhes ditou a existência: ser um tipo de estabelecimento em que os alunos do Curso de Didática pudessem fazer a aplicação prática — em uma situação real de ensino-aprendizagem — dos conhecimentos teóricos aprendidos nos respectivos cursos". Explique-se aqui que eram então alunos de Didática todos que estavam fazendo o quarto ano para concluir um dos cursos oferecidos nas Faculdades de Filosofia para formar professores, ou seja, Letras, Matemática, Geografia e História, Biologia, Física, Química, Ciências Sociais, Filosofia e Pedagogia.
A festa, o barulho, a alegria. Zilma continua explicando que, ao regulamentarem o funcionamento dos Colégios de Aplicação, as Faculdades de Filosofia do país acrescentaram à sua função de estágio o objetivo de "servirem de campo de pesquisa e experimentação pedagógica para renovação e melhoria do ensino secundário". A festa, a festa..., a festa corre.
Como se chegou a essa bela festa em que se reúnem 300 pessoas, entre professores, médicos, dentistas, engenheiros, arquitetos, jornalistas, advogados, políticos etc., etc., no Campo Grande, em plena noite de segunda feira? Como e por que vieram para essa festa gente que hoje mora no Rio, em São Paulo, Brasília, Alagoas, Sergipe, e até na Europa e nos Estados Unidos?
Aparentemente foram dois os ingredientes fundamentais da receita: uma paixão avassaladora que mal se conhecia, da qual pouca gente suspeitava, por esse colégio precocemente desaparecido, no vigor de sua força formativa, e a Internet. A rede mundial de computadores amplificou, espalhou aos quatro ventos, deu voz à paixão que seria inconfessável naqueles anos 50, 60 e 70 do século passado. Como poderiam então adolescentes expressar uma paixão, tanto mais absurda por ter um colégio por objeto, instituição caretésima por definição? Mas a partir dos 40 anos, por aí, todas as inconfessáveis paixões de adolescência tornam-se  perfeitamente confessáveis.
Mas vale um pequeno salto no tempo para entender melhor essa articulação entre paixão e Internet. No dia 24 de fevereiro de 2005, "oito colegas da turma A de 1968 [gente que está ali por volta dos 48 anos]" se encontraram no restaurante Cosa Nostra na Pituba. Quem conta é José Augusto Laranjeira, que carrega o perfeito apelido de Túnel, um dos grandes artífices da festa do Aplicação, que como se verá, pode ser um mecanismo para vencer longas distâncias no tempo e religar 1976 a 2005. Queriam apenas planejar um encontro maior de um grupo de colegas de turma mais próximo. O encontro ocorre em 20 de março: há um churrasco e 17 colegas. A internet servira para combinar detalhes da organização. Depois "começaram a chover em nossas caixas comentários de todos sobre como havia sido bom o encontro" e os casos relembrados no encontro começaram a ganhar versões escritas, trocadas pela rede mundial de computadores. Túnel tenta localizar outros colegas pelos sites de busca, acontecem novos encontros. Um deles, em 25 de maio, "marcou um começo de expansão do movimento para além da turma de 68". Já eram 30 colegas. "Nos dávamos conta, conversando nessa ocasião, que o nosso entusiasmo em nos reencontrar recobria também um grande sentimento de luto pelo fim do colégio", Túnel depõe com fina sensibilidade. "A nossa turma de 68 fora a antepenúltima a concluir o colegial no Aplicação (...) Vivéramos um colégio que diminuíra tristemente, ano a ano, o número de suas turmas, até fechar no final de 1976".
Prosseguem os encontros, conversas, alguém descobre que um grupo discutira na UFBA, em 2003 a reabertura do colégio, mas as discussões não foram adiante. Em 5 de julho, seis colegas encontram com Zilma Parente no restaurante do Iate Clube, e durante três horas ela conta a história do Aplicação, inclusive com detalhes pitorescos, até "as desgastantes reuniões com reitores e o Conselho Universitário" que terminaram por definir o encerramento das atividades do colégio.
Em linguagem mais formal, no dia da festa, Zilma diria: "Mesmo tendo-se passado tanto tempo desse desfecho melancólico, continuo sem compreender nem aceitar os alegados motivos para a sua desativação". Diria que se criticava os Colégios de Aplicação por um suposto elitismo (mas como, se o ingresso no Aplicação da USP, por exemplo, é por sorteio aleatório, no do Rio é por um exame de seleção que a todos nivela, do mesmo modo como era na Bahia, onde o colégio em várias turmas colocou lado a lado representantes da periferia e a mais fina flor da aristocracia soteropolitana?). Lembraria que havia uma crítica freqüente à perda de especificidade dos colégios que já não comportavam o estágio do número crescente de licenciandos das Faculdades de Filosofia. E informaria que a razão alegada, por fim, para a extinção do Aplicação da UFBA foi "a impossibilidade financeira de adequar o Colégio de Aplicação às exigências da Lei 5692/71, que criava um ensino fundamental de oito séries e um segundo grau obrigatoriamente profissionalizante, com várias opções de carreira".  Zilma lembrou que o Aplicação da UFBA foi o único do país que fechou naquela ocasião, revelou que em 1979 Lafayette Pondé falou de seu arrependimento pela decisão que tomara e disse, por fim, que o fato de não ter conseguido impedir o fechamento do colégio nela deixou "a maior frustração" de sua vida profissional.
No dia primeiro de agosto a turma de Túnel voltou a se encontrar. Foi nesse encontro, ele diz, "que consolidamos o sentido mais amplo do projeto que nos move (...). Foi aí que ficou bem claro para nós os dois sentidos convergentes dos nossos movimentos no presente, em direção ao passado e ao futuro: 1. repensarmos o Colégio de Aplicação, construir a sua história, reconciliarmo-nos com as nossas próprias biografias. 2. organizarmo-nos, como um grupo que reúne um inestimável acervo de experiências e de conhecimentos, para contribuir e intervir em algo, no campo da educação, a que esse acervo possa se fazer útil, interessante e criativo".  Consequência direta disso, ele conta: tentar envolver o máximo de colegas de todas as turmas, de 1950 a 1973. 
E aí, a proposta do encontro foi para a Internet em escala maior. Seriam 60 pessoas que precisavam ser mobilizadas. Acertou-se um espaço num restaurante onde caberiam 80. Determinou-se que as adesões, com depósito de 60 reais para a festa, só poderiam acontecer até 26 de agosto. Mas não foi isso exatamente que aconteceu. Foi mais, cada vez mais. Foi gente colaborando espontaneamente de toda parte, de Londres, de Bonn, de Washington, com novos nomes de colegas a cada dia. Nomes de professores. Uma comunidade Aplicação criada há algum tempo no orkut sugeria que a internet seria mesmo um instrumento poderoso de mobilização, mas ninguém imaginava que espontaneamente uma corrente tão forte se faria. Ninguém sabia que tanta gente dispersa pelo mundo tinha alguma coisa tão forte em comum que poderia reuni-las a um chamado. No dia da festa, em mais um e-mail, Túnel listava o nome de 19 colegas que, além dele, foram fundamentais para a organização do evento: Aninha Fontoura, Antonio Carlos Hellstrom, Bel Oliveira Lima, Beto Queiroz, Conceição Galvão, Cristiano Freitas, Cristovam Oliveira, Gilka Bandeira, Jaime Nascimento, João Carvalho, Jorge Braga, José Luiz Simões, Livinha Araújo Soares, Márcia Sales, Marcus Alban, Paulo Henrique Ferreira, Roberto Oliva, Roberto Senna e Sue Saphira. Se o Aplicação de algum modo ressurgir, não se poderá esquecê-los.
A festa foi muito além da meia noite, horário contratado para o término com o Hotel da Bahia. Chegou perto das 4 da manhã. A ressaca durou pouco. Logo, estavam todos de volta à Internet, em textos lindos, emocionados, poemas e fotos. Já está instituído o Dia do Aplicação. Está marcada a próxima festa. Está montada a estratégia de uma luta para emendar a ponta de um fio quebrado em 1976 à outra ponta encontrada em 2005 e, quem sabe, se tudo der certo, recriar de um outro modo a experiência de um colégio que, como disse alguém entre os pró-secos da noite, apostava na utopia de formar cidadãos, homens e mulheres antenados com o arco aberto, muito aberto, do melhor potencial humano. Será que foi isso que tornou o Aplicação da UFBA insuportável para seus algozes?  

Mariluce Moura é jornalista e diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp